sábado, 30 de junho de 2012

QUE A POESIA ACOMPANHE A GRAMÁTICA...

ETIENNE DE TOURNAI (+ 1203), no seguinte belo poema, onde descreve a educação de um menino, ensina como a Poesia deve ser acolhida pela Gramática:

"Venit ad Grammatice Poesis hortatum

Ut, quem primum fecerat illa litteratum,

Hec, novem Pyeridum trahens comitatum

Prosa, rithmo, versibus faciat ornatum".


"A convite da Gramática, aproxima-se a Poesia

para, acompanhada das nove Musas,

dotar de prosa, ritmo e versos

aquele a quem ela já havia ensinado o domínio da língua".

Paulo Barbosa

sexta-feira, 29 de junho de 2012

A CIDADANIA NA ROMA ANTIGA

STATUS CIVITATIS era como os romanos denominavam a dependência de um indivíduo a uma comunidade juridicamente organizada. A princípio, o Estado se identificava com a cidade de Roma, isto é, os romanos eram os únicos cidadãos livres, possuidores legítimos do status civitatis. Mesmo quando Roma começa sua expansão, não abandona a primitiva concepção de cidade-Estado, o que significa que, embora novos territórios sejam acrescidos ao romano, a cidadania não era estendida às populações submetidas. Daí encontrar-se no Império Romano ao lado dos cives (cidadãos), súditos livres, os peregrini, que não possuíam cidadania. 

Ocupando posição intermediária entre os cives e os peregrini, estavam os latini (latinos), representados pelos habitantes das cidades do Latium (Lácio) e das colônias da Itália.

Enfim, havia os barbari (bárbaros), povos que não eram súditos de Roma e nem com ela mantinham qualquer espécie de relações. Eram considerados inimigos. Por isso, se um bárbaro entrasse no território da Urbe, poderia ser capturado e reduzido à escravidão.

Desde os fins da República, a tendência de Roma era no sentido de estender, paulatinamente, a cidadania romana a todos os súditos do Império. Assim, em 90 a.C., a lex Iulia a concedeu aos habitantes do Latium; um ano após, a lex Plautia Papiria fez o mesmo com os aliados de Roma; em 49 a.C., a lex Roscia concedeu cidadania aos habitantes da região Transpadana.

O Imperador Caracala, em 212 d.C., na célebre Constitutio Antoniana, concedeu cidadania a quase todos os habitantes do Império e os que ficaram de fora foram agraciados com o status civitatis por Justiniano.

Paulo Barbosa

quinta-feira, 28 de junho de 2012

UM POUCO DE SINTAXE LATINA

É comum em latim o uso de adjetivos nos casos em que, em português, emprega-se advérbio ou um substantivo com preposição. Isso se dá, especialmente, em quatro circustâncias:

1) Com adjetivos que expressam sentimentos da alma, como: libens, laetus, imprudens, invitus, etc.:

Sócrates tragou alegremente o veneno, em latim fica: Socrates laetus venenum hausit.

O sábio nada faz contra sua vontade, em latim: Sapiens nihil facit invitus.

2) Nos conceitos de tempo: matutinus, vespertinus, nocturnus, serus, etc.:

Cícero chegou tarde, em latim fica: Cicero serus venit.

Os inimigos assaltaram de noite, em latim: Hostes nocturni impetum fecerunt.

3) Com muitos adjetivos participiais:

Sem eu saber, que em latim fica: Me insciente, ignaro.

Durante a ausência de César, Caesare absente.

4) Com adjetivos que se formam de nomes próprios:

A batalha de Maratona, que em latim fica: Pugna marathonia.

A vitória de Canas, Victoria cannensis.

Paulo Barbosa

JUPITER, O GRANDE DEUS

JÚPITER é o deus indo-europeu primitivo, deus do céu fulgurante, adorado por todos os povos latinos. Seu nome provém do sânscrito  Diaus pitar  que, em latim, deu Dies piter (Dies pater = o pai do dia), depois Jup-piter. Equivale ao Zeus grego. Primitivamente foi considerado como o deus dos fenômenos celestes e atmosféricos, tornando-se em seguida o mestre soberano e sábio que governava os homens e os próprios deuses: é o Pater deum hominumque, o Pai dos deuses e dos homens. Os epítetos pelos quais era invocado bem mostram sua origem meteorológica: Fulgur (Relâmpago); Lucetius (O Fulgurante); Summanus (de Summus + Manus = O Sumo Bem); Tonitrualis (O que lança raio); Pluvius (O que faz chover). Entretanto, o deus do raio, do trovão e da chuva aliou-se logo a atributos guerreiros e belicosos passando a ser denominado: Juppiter Latiaris, aquele que protegia a confederação das cidades latinas; Juppiter Victor, o que confere a vitória nas guerras; Juppiter Stator, o que detém a derrota; Juppiter Feretrius, o que arranca os despojos do inimigo vencido. Mais tarde, Júpiter torna-se o deus das convenções sociais e o Juppiter Optimus Maximus transforma-se em Dius Fidius, o deus dos juramentos, da boa  fé, entre os romanos, e que presidia aos contratos.

Paulo Barbosa

ELEMENTOS HEBRAICOS NO PORTUGUÊS

Por meio do grego e do latim passaram ao português muitos vocábulos hebraicos que foram internacionalizados pelo cristianismo. Tais vocábulos, em sua maioria, vieram através da Bíblia: Amém = assim seja; Hosannah!, Hosana!; Halleluyah!, Aleluia; Messias; Satanás; Querubim; Serafim; Jubileu. Porém, o mais usado de todos é Sábado, vindo em seguida a Páscoa, festa que celebrava a passagem em memória da saída dos hebreus do Egito.

Na França, um vocábulo de origem hebraica muito usual é gêne, tormento, que procede de Gehenna, o lugar de tormento bíblico onde há choro e ranger de dentes e que depois foi denominado inferno.

Entre os nomes de batismo, usados sobretudo em Portugal, muitos são de origem hebraica: Daniel; Abraão; Samuel; Gabriel; Rafael; Miguel; Uriel; Tiago ou Jacó; Susana; Maria; Mariana, etc.

Paulo Barbosa

quarta-feira, 27 de junho de 2012

OS FAUNOS...

OS FAUNOS eram, na mitologia romana, deuses rústicos descendentes de Fauno, um rei aborígene romano. Habitavam os campos, os bosques e as florestas da Itália, e eram representados com aspecto e corpo humanos, chifres de cabra e, da cintura para baixo, com a forma de um bode.

As árvores consagradas a estas divindades menores eram o pinheiro e a oliveira. Tinham por função presidir os trabalhos da agricultura e, muitas vezes, eram confundidos com os Silvanos, divindades também rústicas.

Os Faunos não possuíam o atributo da imortalidade, mas atingiam elevada idade.

Paulo Barbosa

segunda-feira, 25 de junho de 2012

APORTE CRISTÃO NO LÉXICO LATINO

Sabe-se que o Cristianismo aportou ao léxico latino muitos vocábulos novos, palavras estas que nunca foram conhecidas dos autores clássicos ou, se foram, eram desprezadas por eles. Tais vocábulos são encontrados nas traduções primitivas das Bíblia, sobretudo nos fragmentos da Ítala, mas também na Vulgata de São Jerônimo.

Uns são termos gregos relativos à Igreja e que rapidamente foram inseridos entre o povo, como CHRISTUS; EVANGELIUM; ECCLESIA; DIABLOUS; PROPHETA; PSALMUS; BAPTIZARE; ELEMOSYNA; PENTECOSTES, etc.

Outros vocábulos são traduções também referentes à Igreja ou à Gramática, bem formados, como SALVATOR ( = soter), ou mal formado como TESTAMENTO (que traduz diateke = aliança) e ACUSATIVO (nome do caso que deveria chamar causativo, por traduzir aitiatikos, de aitia = causa).

Paulo Barbosa

O CASO CAUSATIVO

ACUSATIVO é o nome do caso que, em grego, é denominado AITIATIKOS, proveniente do substantivo AITIA = CAUSA. Portanto, causativo em vez de acusativo deveria ser a tradução latina correta, por indicar o que é causado, motivado, efetuado, produzido pelo sujeito da oração. É o verdadeiro caso complementar. Os romanos, entretanto, levados pela paixão legislativa, deram a este caso designação jurídica, totalmente disparatada, de acusativo, confundindo causa, no sentido de motivo, com causa, no sentido de processo ou motivo de uma acusação jurídica.

Paulo Barbosa

terça-feira, 12 de junho de 2012

O 'IN' ADVERBIAL LATINO

A língua latina possuía dois prefixos in-, im-, sendo um advérbio negativo ou privativo e o outro preposição de sentido local indicativo de entrada, de movimento para dentro de alguma coisa. O -in advérbio designava o oposto do vocábulo simples ao qual se junta. Assim: in-dignus, de dignus, é não digno; im-probabilis, de probablis, é não provável. São poucas, porém, as palavras populares portuguesas que possuem este prefixo negativo, sendo as mais comuns enfermo, de in-firmus, não firme; inimigo, de in-amicus, não amigo e outras. Já no vocabulário literário, desde o século XVI, numerosas palavras receberam in-, im- privativos, sobretudo adjetivos: indigno, de in-digno, não digno; ingrato, de in-grato, não grato; impossível, de im-possível, não possível, etc.

Quanto ao in- locativo, que também é em-, é empregado sempre como prefixo de muitos verbos, tais como: em-barcar, ir para dentro do barco; en-castelar, ir para dentro do castelo, etc.  

O prefixo negativo que mais tarde, popularmente, substituiu o in- é des-, que muda no seu oposto o vocábulo simples. Assim, des-ordem, não ordem; des-acerto, não acerto; des-acordo, não acordo; des-confiança, não confiança; des-amor, não amor, etc.

O povo, porém, sem conhecimento, junta às palavras que já possuem o in- negativo o des-, acumulando dois prefixos de sentido idênticos, como em infeliz, que se transforma em desinfeliz, para significar muito infeliz.

Paulo Barbosa

segunda-feira, 11 de junho de 2012

"TUTUS E SECURUS"...

Ovídio, nas Metamorfoses, ao descrever a Idade de Ouro, emprega em duas passagens, duas palavras diferentes, mas sinônimas, para designar SEGURO, no sentido de 'livre de perigo'. Vejamos:

"... Nec supplex turba timebat judicis ora sui, sed erant sine vindice tuti"

"Sine militis usu mollia securae peragebant otia gentes".

Tuti e securae têm a acepção de seguros, de livres de perigo, porém cada qual com um matiz diferenciado, específico. Tutus, que é o nominativo singular, significa seguro ou algo, alguém que está seguro no sentido de que nada tem a temer, de que não existe objetivamente nenhum perigo que lhe possa sobrevir, não temendo, portanto, a nenhuma situação hostil, a nenhum mal iminente. Já securus é a pessoa segura que nada teme por se julgar livre de perigo, mas tal isenção de perigo é subjetiva, só existe na cabeça dela, ou seja, é uma seguridade aparente e não real, objetiva, como a do tutus. Ao contrário deste que não corre perigo, o securus pode correr, mas não o sabe, mas ignora, por julgar que sempre está livre de qualquer situação desastrada.

Para exemplificar: um homem sem inimigos está tutus, está objetiva e realmente isento de tal perigo. Agora, aquele homem que tem inimigos, mas que julga estar protegido de seus ataques por morar longe ou ter seguranças, está securus, mas jamais tutus.

As duas passagens latinas acima, então, pelo que vimos, devem, assim, ser entendidas:

"...Nem a turba suplicante temia o semblante de seu juíz, mas estavam seguros sem protetor", ou seja, objetivamente estavam livres de perigo.

"Sem emprego de soldado, os povos seguros gozavam doces ócios", ou seja, tais povos nada temiam por julgarem-se subjetivamente livres de perigo.

Tutus vem do verbo latino tueri = ver, olhar, e depois, observar. Então, o tutus é aquele que está objetivamente isento de perigo por ser visto, ser protegido, por alguém. Passou para a língua portuguesa, como em tutor = aquele que legalmente é obrigado a tutelar alguém. Já securus é palavra composta de se = sem + cura = cuidado, inquietação: é o que está livre de cuidados ou inquietações. Esta mesma palavra passou para o português, seguro, sofrendo apenas a sonorização do c, fonema surdo, pelo g, fonema homorgânico sonoro.

Paulo Barbosa

INEXISTÊNCIA DE ARTIGO EM LATIM LITERÁRIO

O ARTIGO, aquela palavra que antecede e determina um substantivo caracterizando seu valor definido (o, a, os, as) ou indefinido (um, uma, uns, umas), não foi usado na língua latina literária, embora o grego o conhecesse. Quintiliano, em suas Instit. Orat. I,4,19, diz que 'Noster sermo articulos non desiderat', 'o nosso idioma não sente falta dos artigos'. Entretanto, no latim arcaico, mais precisamente no tempo de Plauto (230-180 a.C.), o latim vulgar - sermo vulgaris - usava o numeral unus, una com sentido indefinido, e os demonstrativos iste, ipse e sobretudo ille (illa, illud) com sentido definido, ou seja, tanto o numeral quanto os demonstrativos são os protótipos dos nossos artigos um, uma, e ele, ela, mais tarde reduzidos a lo, la, donde saíram as formas o, a.

Isso mostra o quanto o latim vulgar já se servia dos mesmos processos analíticos e das mesmas perífrases que hoje diferenciam as línguas românicas do latim clássico, este latim que gostava de expressar as ideias sinteticamente por meio de uma única palavra.

Para exemplificar, Plauto deixou: "Lepida... una mulier", "uma encantadora mulher". Nos escritores da decadência, como Petrônio, encontra-se: "unus servus", "um escravo", assim como no latim da bíblia Itala: "accessit ad eum una ancilla", "uma serva dirigiu-se até ele".

Paulo Barbosa

quinta-feira, 7 de junho de 2012

OBRA CLÁSSICA: O QUE É?

"Ele (a) é de clássicas"... Assim, inúmeras vezes, ouvimos alguém dizendo a referir a um aluno (a) ou professor (a) de latim ou grego. Estudos clássicos é sinônimo, na academia, de estudos greco-latinos, tanto da língua  quanto da literatura. Mas, apesar de se usar o adjetivo 'clássico' a todo momento, muitos, se perguntados, não saberiam definir ou dar o sentido dele. É o que tentaremos fazer aqui.

CLÁSSICO é um adjetivo derivado de classe e sempre foi definido, desde Quintiliano, como aquilo que exprime o mais alto grau de perfeição, tão alto que é digno de ser proposto para modelo, de ser ensinado em uma classe.  O Dicionário da Academia Espanhola diz: "Clássico, clássica, diz-se do autor ou da obra que se tem por modelo digno de imitação em qualquer literatura ou arte".

Duas literaturas apenas, na sua integralidade, mereceram dos mais sábios da humanidade esta honrosa distinção: 1. a literatura grega, e nela, em especial, o período que vai desde o fim das guerras médicas (490-448 a.C.) até às invasões de Alexandre (356-323 a.C.); 2. a literatura latina, em especial, desde Cícero (106-43 a.C.) até à morte do Imperador Augusto (63 a.C.-14 d.C.).

Nas demais literaturas, apenas determinadas épocas são consideradas clássicas, ou seja, modelares, dignas de imitação. Em Portugal, por exemplo, clássico é o século XVI, época de Camões (1524-1580); na França, o século XVII, e assim por diante. Determinados autores, também, são considerados clássicos: Moraes Silva (1755-1824); Gonçalves Dias (1825-1864); Rui Barbosa (1849-1923), etc.

Se quisermos esquematizar, podemos dizer que os grandes séculos literários da humanidade são quatro: 1. século de Péricles, entre os gregos; 2. século de Augusto, entre os romanos; 3. século de Leão X ou do Renascimento, no século XVI; 4. século de Luís XIV, na França, no século XVIII.


REQUISITOS PARA O CLÁSSICO

Os requisitos básicos a que um autor ou uma obra que faça jus ao título 'clássico' devem preencher são três:

1. Deve tratar de ideias gerais, pois somente assim a obra conseguirá conquistar a atenção e os aplausos da maioria dos contemporâneos e dos homens do futuro.

2. Deve a obra esmerar-se na obsevância dos ditames da razão, ou seja, deve ser perpassada pelo bom senso e bom gosto no apuro constante da forma.

3. Deve ter certa antiguidade, já que sendo muito recente, paixões, ambições, interesses particulares podem tolher a serenidade do julgamento e a avaliação imparcial.


Paulo Barbosa

O GÊNERO TEATRAL

Teatro Romano
GÊNERO TEATRAL é o conjunto das composições literárias destinadas à representação ficticia num lugar chamado TEATRO. Também é conhecido por GÊNERO DRAMÁTICO, do grego drama = ação.

O drama é um diálogo prático que reproduz uma ação, onde se encontra como componentes 1. atores ou personagens simulados; 2. um tablado artificial ao lugar onde o ato que o drama mostra foi praticado; 3. o uso da língua vulgar; e 4. o uso do verso em vez da prosa.

O genero teatral ou dramático abrange a tragédia e a comédia, e o fim que visam é o mesmo, a saber, a melhora dos costumes sociais.

A TRAGÉDIA é séria, procurando comover e inspirando terror e compaixão. Nela, os grandes feitos da virtude ou do crime são respresentados. Já a COMÉDIA salienta o lado ridículo dos efeitos, das paixões comuns, provocando o riso e a condenação do bom senso.

VERSO OU PROSA?

Na  verdade, boas comédias existem em prosa, como o Avarento e o Burguês Gentilhomem de Moliere, porém, a maior parte, sobretudo na alta comédia e na comédia de caracteres, está produzida em verso. Quanto à tragédia, o uso e a própria natureza da obra requerem que seja em verso. Desde Ésquilo até nossos dias, a tragédia foi escrita sempre em verso e, podemos afirmar, infelizes foram os que quiseram usar a prosa neste gênero.

A VERDADE HISTÓRICA NA TRAGÉDIA

Os autores dos séculos XVII e XVIII pouco se importavam com a verdade histórica na tragédia. Foram os românticos, com Goethe e Shiller à frente, que iniciaram neste ponto uma completa reforma, incentivando a máxima fidelidade no tocante às paisagens, aos usos, aos trajes, aos costumes, e manifestando que se deveria, até mesmo, visitar os lugares em que a ação reproduzida no palco se desenvolveu. Entretanto, mesmo assim, é grande a liberdade deixada aos autores, bastando que respeitem a verossimilhança.

ATOS E CENAS: QUANTOS?

´Horácio fixou o limite máximo em cinco atos, isto é, em cinco partes, e esta regra não deve ser infrigida, pois a atenção do espectador não se sustenta num prazo maior. Muitos dramaturgos, porém, contentaram-se muitas vezes com três ou quatro atos, e são até frequentes as comédias de um só ato.

Quanto às cenas, não há número determinado e nem extensão, mas é necessário que estejam bem concatenadas, que o palco nunca fique sem ator e que ninguém entre ou saia sem que a plateia compreenda o motivo.

EVOLUÇÃO DA TRAGÉDIA

Três gênios contemporâneos levaram ao apogeu o gênero teatral na Grécia: Ésquilo (525-456 a.C.); Sófocles (495-406 a.C.) e Eurípides (480-406 a.C.). O primeiro é mais lírico; o segundo acentua a responsabilidade do homem, e o terceiro diminui o papel do Destino, do Fatum.

A tragédia grega é caracterizada pelos coros, parte essencial, e pelo lirismo muito abundante ou preponderante. É uma tragédia eminentemente religiosa.

Na tragédia clássica, os coros desapareceram, assim como o caráter sacro, hierático, misterioso, e o final sempre é feliz.

VARIEDADES DA COMÉDIA

A comédia distingue-se em: 1. comédia de costumes; 2. comédia de caráter; 3. comédia séria ou tragicomédia.

Comédia de costumes é aquela que expõe, particularmente, algum defeito, vício ou mania da sociedade em determinada época.

Comédia de caráter é a que salienta algum defeito, vício ou mania de algum indivíduo.

Comédia séria é a que mescla elementos da tragédia e da comédia, sempre com final feliz.

Além destas, há ainda os tipos: alta comédia, baixa comédia, comédia burguesa e comédia de enredo.

Alta comédia é a que pinta os defeitos, vícios ou manias de personagens importantes, intelectuais, da alta sociedade.

Baixa comédia é a que retrata os defeitos, vícios ou manias da pebe, do povo.

Comédia burguesa é a que põe à mostra o lado ridículo da sociedade burguesa, de condição mediana.

Comédia de enredo é a que complica as situações de modo mais engraçado, imprevisto e emaranhando para, no fim, resolver muito bem o caso.

Paulo Barbosa


quarta-feira, 6 de junho de 2012

'REDEMPTUS AB HOSTE' E 'REDEMPTOR' NA ROMA ANTIGA

REDEMPTUS AB HOSTE, como o próprio nome indica, era, na Roma antiga, o prisioneiro de guerra resgatado (= redemptus) do inimigo (= ab hoste) por um terceiro, que era denominado redemptor (= resgatador).

Havia à época uma ficção jurídica, o postliminium, por meio do qual o redemptus ab hoste ao entrar em território romano recuperava a liberdade, a cidadania e todos os demais direitos que tivesse no momento em que fora capturado; no entanto, caso não possuísse recursos para reembolsar quem lhe resgatara, o seu redemptor, não readquiria imediatamente e de maneira plena sua capacidade jurídica, pois ficava obrigado a serví-lo até solver o débito com o produto do seu trabalho. Quando o resgate fosse pago, recuperava a liberdade mediante o manumissio (= libertação), beneficiando-se, então, do postliminium.

A condição do redemptus ab hoste, entretanto, com o passar do tempo, foi melhorando: os imperadores Diocleciano e Maximiano (século IV d.C.) estabeleceram que o resgatado recuperava a liberdade sem necessidade de manumissão no mesmo instante em que pagasse o valor total do resgate ao redentor. Depois, em 409 d.C., Honório determinou que o período máximo durante o qual estaria o resgatado obrigado a servir ao redemptor, era de cinco anos. Por fim, no direito justiniano (século VI d.C.), o redemptus ab hoste recuperava, pelo postliminium apenas, todos os seus direitos civis desde o momento do resgate, ficando, porém, obrigado a trabalhar para o redemptor, que tinha sobre ele o que os textos jurídicos da época denominavam pignus.

Paulo Barbosa

terça-feira, 5 de junho de 2012

DATIVO DE POSSE

Já dissemos aqui que o dativo de posse é aquele que substitui o verbo habeo por est mihi = tenho, é meu, é para mim. Assim:

Tenho um livro, em latim fica: est mihi liber, que literalmente é: um livro para mim existe.

Porém, quando se tratar de uma qualidade do espírito possuída por alguém, o dativo é substituído pelo ablativo com in:

Cícero tinha grande eloquência, em latim: fuit in Cicerone magna eloquentia.

O nome próprio também se diz através do dativo de posse, com a expressão est mihi nomen = tenho o nome, chamo-me. O nome próprio, entretanto, pode concordar com 'nomen' e, por isso, ficar no nominativo, como pode concordar com 'mihi', e portanto ir para o dativo. Assim:

Eu me chamo Paulo, em latim fica: est mihi nomen Paulus, ou

                                                            est mihi nomen Paulo.

Paulo Barbosa

UM POUCO DE FILOSOFIA DO VOCÁBULO

A PALAVRA pode ser definida como sendo o sinal habitual da alma e consta de vocábulos metodicamente reunidos em compêndios que se chamam: vocabulários, dicionários, léxicos e glossários. Tem por complemento a mímica, que lhe serve de reforço ou comentário.

VOCÁBULOS, por sua vez, são sons articulados que o aparelho fonador humano profere, todo ouvido percebe, e têm determinada significação quase sempre convencional e regulada pelo uso. Outra definição de vocábulo é ser um sinal sonoro que lembra ora um objeto material, como cavalo, ora uma noção abastrata, como virtude, e isto por meio de uma associação de ideias.

A memória retém a impressão constante desta associação e quando o termo surge, lido ou ouvido, a ideia correspondente aparece, e vice-versa, a ideia não poderá aparecer sem o vocábulo que a exprime.

Quando se estuda uma língua estrangeira, como o latim por exemplo, a aprendizagem do léxico é de suma importância, e esta aprendizagem consiste em gravar na memória os sons articulados da língua estudada naquelas relações que têm eles com as imagens e as ideias respectivas.

Numa classificação antiga, mas muito racional, os vocábulos ou termos eram divididos em duas espécies: 1. Vocábulos ou termos pitorescos, e 2. Vocábulos ou termos abstratos.

O vocábulo pitoresco é aquele que designa o que os nossos sentidos percebem, dirigindo-se ao espírito e à imaginação.

O vocábulo abstrato é aquele que dirige-se quase que unicamente à razão, e por isso, na imaginação nada evoca, senão formas vagas e imprecisas.

A maior parte dos vocábulos têm mais de uma significação, porém, numa oração bem construída, devem ter unicamente o sentido determinado pelo autor. Óbvio que muitas vezes acontece ter o mesmo termo possibilidade de duas ou mais interprtações, como nos casos dos trocadilhos que não passam de burlas inocentes, ou no caso da crítica irônica. Exemplo desta duplicidade de interpretação encontramos em José de Alencar que dizendo Joaquina Buco, não designava nenhuma senhora chamada Joaquina, mas a Joaquim Nabuco, reprovando os modos efeminados do abolicionista.

Paulo Barbosa

segunda-feira, 4 de junho de 2012

CONJUNÇÕES COORDENATIVAS LATINAS

CONJUNÇÃO é palavra invariável que serve para unir as palavras ou para unir orações entre si. Há duas espécies de conjunções: coordenativas e subordinativas.

Vejamos as conjunções coordenativas latinas:

Et, ac, atque, -que = e - têm sentido aditivo

Aut, vel, ve = ou - têm sentido alternativo

Nam, namque, enim, etenim = pois, com efeito - têm sentido explicativo e demonstrativo

Sed, verum = mas - têm sentido adversativo menos forte

At, at vero = mas pelo contrário - têm sentido adversativo mais enérgico

Tamen, at tamen, verum tamen = todavia, contudo - introduz oração subordinada que vem acompanhada de at, sed ou verum

Ergo, igitur = logo, portanto - têm sentido conclusivo

Itaque, quare, quamobrem = é por isso que - têm sentido conclusivo

Paulo Barbosa

SUPERIORIDADE LITERÁRIA: GREGOS OU LATINOS?

A quem caberá a superioridade literária: aos gregos ou aos latinos? A esta pergunta deve-se responder sem medo algum de errar que aos gregos. A eles, incontestavelmente, se deve dar a preeminência. A literatura produzida pelo povo da Hélade possui tres predicados distintivos que nenhuma outra, nem mesmo a romana, possui no mesmo grau:

1. É primitiva, original, simples, enquanto nos romanos, a tragédia, a comédia, a elegia, a poesia lírica e até a oratória vinham da Grécia já organizadas e codificadas;

2. É completa, não lhe faltando, portanto, nenhum gênero literário;

3. Em todos os gêneros, produziu obras-primas, modelos perfeitos.

Horácio, grande poeta lírico e satírico romano, não se envergonhava de confessar a superioridade grega ao afirmar:


"Graecia capta ferum victorem cepit et artes

Intulit agresti Latio". (Epistola, 2,1,156)


"A Grécia conquistada conquistou o selvagem vencedor

e levou as artes para o Lácio agreste".


Noutra obra, aconselha o mesmo poeta aos jovens literatos:


"Vos, exemplaria Graeca

Nocturna versate manu, versate diurna". (Ad Pisones, 208)


"Vós, manejai com mão trabalhando à noite

os exemplares gregos; manejai durante o dia".


Paulo Barbosa

A POESIA DIDÁTICA

Hesíodo
POESIA DIDÁTICA, como o nome mesmo diz, é aquela que visa a ensinar, tendo por objeto a ciência, a moral e as artes. Exemplo deste gênero são a Teogonia de Hesíodo, tratado sobre teologia pagã; as Epístolas de Horácio, e as Geórgicas de Vergílio, que ensinam a arte da agricultura.

A história da poesia didática tem suas raízes nos povos primitivos, que tinham necessidade de facilitar, pelo ritmo e pela rima, a assimilação e a conservação das verdades científicas que não podiam ser comunicadas pela escrita que ainda não tinha sido inventada.

Em fins do século XVIII e princípios do XIX d.C., decai completamente o gênero didático, e isto por não existir mais cultores seu ou, se os há, são sem inspiração e sem poesia verdadeira: apenas versificadores.

Nos séculos XIX e XX começaram a propagar que o instrumento mais adequado para dissertações científicas ou transmissão de ensinamentos era a prosa e não o verso, e se nestes séculos aparecem ainda até gramáticas em verso, são excentricidades, casos esporádicos e isolados.

Paulo Barbosa