sábado, 18 de outubro de 2014

LATIM MEDIEVAL E MODERNO


Durante toda a Idade Média (séculos V a XV) fora o latim a língua sábia usada por todos os eruditos. Meillet em sua obra magistral, Les Langues dans l'Europe Nouvelle, diz que quando da fundação das Universidades europeias o latim era em toda parte sua única língua. Todos os sábios, da Espanha à Polônia, da Escócia e Suécia à Sicília, possuíam essa única língua. Professores e alunos mudavam de uma Universidade à outra sem que experimentassem qualquer barreira linguística, pois havia a unidade de código e em toda parte liam-se e estudavam-se os mesmos escritos, discutiam-se o mesmo conjunto de teses fundamentais e orgânicas. E esse sistema durou até à época moderna.

Dante, o grande político e poeta italiano do século XIV, quando escrevia para o povão, para o grande público, usava a língua italiana, mas quando se dirigia ao corpus de letrados compunha em latim. A poesia e a épica, tanto a cortesã quanto a popular, eram vazadas também em língua vulgar, em italiano, e os primeiros textos em prosa a abstrair do latim foram narrativas de guerreiros, homens rudes e prosaicos, daquilo que fizeram e viram durante as peripécias bélicas, tais como os de Joinville e Villehardouin. Os eruditos, porém, continuavam a exarar e a ler na língua romana.

No século XVI todo o ensino universitário era transmitido através do latim, a língua dos cultos, dos clerici (clérigos) e dos litterati (letrados). Apesar disso, alguns homens à frente de seu tempo começaram a advogar a necessidade de se colocar na ordem do dia o vernáculo, a língua de cada nação ou povo.

No século XVII continua o latim a língua da ciência e da filosofia, o modo de expressão normal das ideias e conceitos. Descartes, entretanto, de maneira acessória, sim, produziu algumas de suas obras em francês.

Foi no século XVIII, todavia, que o latim deixou de ser a língua sapiencial, usada pelos sábios e filósofos, e isto se deve sobretudo à decadência das Universidades que se deu nesta época, onde o latim era a língua habitual na ministração das lições. 

A vitalidade desse latim pós medieval foi constatada também por Ernst Robert Curtius em sua obra de fôlego Literatura Europeia e Idade Média Latina, onde diz que durante muitos séculos permaneceu o latim como língua viva do ensino, da ciência, da administração, da justiça e da diplomacia. Acrescenta ainda o autor que só no século XVI, mais precisamente em 1539, foi o latim abolido na França como a língua dos tribunais por ordem de Francisco I. Entretanto, como língua literária, sobreviveu muito tempo ainda após o desaparecimento da Idade Média, tais como na pena de Dante, de Petrarca e Bocácio. Em seguida, o movimento chamado Humanismo, dentro do Renascimento, dá novo e poderoso impulso ao gosto pelo latim.

Enfim, essa duplicidade linguística, o latim e a língua vernácula, se deu devido, como já vimos acima, o povo não compreender mais a língua romana. Curtius diz que o homem comum sabia da existência das duas línguas, a vernácula popular e a dos letrados (clerici e litterati). Essa falta de entendimento do latim por parte do povo começou no século VIII, quando ainda se compreendia o que o padre rezava na missa. 

Paulo Barbosa


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