terça-feira, 8 de dezembro de 2015

CURSO DE LATIM NO RIO DE JANEIRO - 2016

CURSO DE LATIM

Ofereceremos um Curso de Latim em 2016 no Rio de Janeiro aos interessados em Cultura Clássica. A metodologia proporcionará um aprendizado real baseado na exposição teórica gramatical unida a atividades práticas de leituras, tradução, composição, exercícios e conversação.

Início já em fevereiro, com data a marcar, aos sábados.

Duração de dois anos passando por todos os tópicos essenciais da morfologia e sintaxe.

Mensalidade: R$ 150,00

Ao final será concedido Certificado.

Interessados entrar em contato:

E-mail: paulotomista@yahoo.com.br

Cel.: 21 - 98547-9945 (Oi)

         21 - 98095-6402 (Tim)


segunda-feira, 30 de novembro de 2015

PALAVRÕES EM LATIM

O PALAVRÃO ou aquele grupo de palavras consideradas vulgares e desqualificadas para se usar em meio à sociedade também existia no mundo dos romanos. Vejamos alguns dos "sordidi sermones" usuais na Roma Antiga:

A) Os romanos usavam uns palavrões ou xingamentos comuns, dentre os quais destacam-se estes:

1. CRUDELIS! = cruel! insensível! desumano! tosco! mau! truculento!

2. CRUDELISSIME! = muito cruel! - Insulto empregado contra quem fez algo monstruoso, gravíssimo.

3. PERFIDE! = traidor! enganador! traiçoeiro! falso!

Entre os Romanos a fides significava a credibilidade que alguém adquiria quando cumpria de maneira correta seus compromissos. Este insulto serve para alcunhar o marido ou a esposa infiel, o que sonega a pagar um empréstimo, ao político que não cumpriu suas promessas.

B) Os palavrões latinos que aludem à falta de sensatez, que demonstram a tolice, a insânia do oponente, são:

1. AMENS! = louco! perturbado! demente! doido! alienado! desvairado! insano! - Este insulto se dirige a quem é imprudente.

2. CAUDEX! = estúpido! bruto! burro! asno! - Este palavrão se dirige ao adversário que possui uma cabeça dura, um cérebro de consistência pétrea.

3. FANATICE! = delirante! extravagante! beato! supersticioso! desatinado! - Este é dirigido a quem se fixa num sistema doutrinário qualquer defendendo-o apaixonadamente.

4. IMBECILLIS! IMBECILLE! = fraco, débil, idiota, sem noção, estulto, estúpido, abobalhado. - Empregado contra quem sofre de firmeza intelectual, contra quem possui idade mental infantil. O étimo do termo é In + baculus = sem cajado, sem cetro, para se apoiar. Daí o sentido de fraco.

5. NEQUISSIME! = velhaco! perverso! injusto! corrupto! dissoluto! torpe! imoral! libertino! desregrado/ indolente! fraco! inábil! / tratante! pícaro! maroto! ímprobo! - Usado contra vários vícios e condutas desregradas, desde as de mau pagador até às de sem-vergonha.

6. STIPES! = tolo! simplório! tonto! parvo! pateta! basbaquebabaca! disparatado! - Usado na mesma linha do caudex.

Nota: Tanto caudex quanto stipes são substantivos que têm por acepção primária "tronco de árvore, raiz de árvore, pé de árvore, árvore". Ambos, devido a esta acepção mesmo, foram usados como interjeições insultuosas para denotar a consistência lígnea - dura como a lenha, o tronco da árvore - do cérebro do adversário.

7. STULTE! / STULTISSIME! =  inepto! sem juízo! insensato! sandeu! néscio! presunçoso! ignorante! - Palavrão dirigido a quem perdeu a capacidade normal de raciocinar. 

8. STOLIDE! = sem perspicácia! estólido! estúpido! desarrazoado! irracional! impertinente! inoportuno! molesto! enfadonho! incômodo! simplório! - Insulto dirigido ao adversário que não compreende ou que possui deficiência intelectual que o impossibilita a discorrer, raciocinar, argumentar.

9. STOLO! = fátuo! sem juízo! vaidoso! presunçoso! fugaz! pretensioso! - Usado contra quem se julga melhor que os outros, superior.

Nota: Stolo é um substantivo da área de botânica que tem a acepção primária de pimpolho, renovo, broto, vergôntea, que é a plantinha nova no seu estágio inicial de desenvolvimento, possuidora de um aspecto de fragilidade, fugacidade e, até mesmo, de pretensão, em relação à planta desenvolvida. Daí sua aplicação como interjeição injuriosa.

C) Os palavrões latinos que recorrem à metáforas do mundo animal são:

1. HIRCE! fedido! fedorento! imundo! / luxurioso! carnal! lascivo! - Palavrão dirigido a quem tem cheiro ruim e a quem é dado aos desregramentos sexuais. O termo de injúria provém de hircus = bode.

2. PECUS! = bruto! asno! besta! sem capacidade! estúpido! - Usado contra quem não possui virtude intelectual para receber conhecimentos e ou fornecer argumentos. Vem de pecus = animal doméstico, gado miúdo.

3. SUS! = porco! sujo! imundo! / ignorante! estúpido! - Palavrão que denota o ser sujo e sem capacidade intelectual. Sus, em latim, é porco, porca.

4. VERVEX! = estúpido! árido! pesado! insuportável! excessivo! exagerado! incivil! grosseiro! - Empregado para o desprovido de sensibilidade, educação e bons modos. O termo vervex significa carneiro castrado.

D) Os palavrões latinos que recorrem ao mundo dos insetos e dos batráquios são:

1. BUFO! = burlesco! farsesco! grotesco! cômico! ridículo! caricato! - Empregado para quem faz traquinagens ou provoca riso. Vem de bufo = sapo.

2. CIMEX! = explorador! gigolô! rufião! proxeneta! cafetão! - Usado contra quem vive na dependência de outro. Cimex é o percevejo, parasita que se hospeda em seres humanos.

3. HIRUDO! = sanguessuga! sugador! rapinador! vampiro psíquico! - Usado contra quem extenua, suga, rouba física ou psicologicamente valores dos outros. O nome hirudo é sanguessuga, animal anelídeo que se alimenta do sangue alheio.

E) Os palavrões que censuram costumes sexuais são:

1. CINAEDE! = obsceno! torpe! desonesto! lascivo! descarado! dissoluto! impudico! - Termo injurioso usado contra quem é luxurioso, lascivo, amante de vida sexual promíscua.

2. IMPUDICE! = desonesto! descarado! impudico! torpe! imoral! impudente! desavergonhado! devasso! - Palavrão empregado contra quem é moralmente dissoluto,

3. MENTULA! = cacete! porra! caralho! caramba! - Palavrão usado para expressar surpresa, sofrimento ou insatisfação. Vem de mentula = pênis, membro viril.

4. PATHICE! = torpe! obsceno! procaz! sórdido! soez! - Tem o mesmo uso de cinaede.

5. SPADO  = infértil! eunuco! gay! mole! broxa! impotente! castrado! - Palavrão dirigido a quem não consegue ingurgitar o pênis para manter relação sexual naturalmente.

F) Os palavrões de cunho escatológico ou obsceno são:

1. CACATE!  / CACATOR! = vá cagar! (primeiro termo) / cagão, medroso, fraco. covarde.

2. CUNNUS! = desonesta! prostituta! garota de programa! meretriz! rameira! - Palavrão usado contra as mulheres que oferecem sexo em troca de pagamento.

3. FUTUE TE IPSAM! / FUTUE TE IPSUM! = vá se foder! - É um xingamento para significar dane-se, vá se danar.

4. MERDA! MERDOSE! = merda! bosta! - É uma interjeição que expressa descontentamento.

5. SORDES! = sujo! imundo! esquálido! ignorante! imundo! mesquinho! - Termo usado contra quem é despudorado e ou vive na imoralidade.

G) Os palavrões que servem para desprezar um ser adversário são:

1. PUSILLE! = fraco! tímido! micróbio! acanhado! inseguro! medroso! inibido! - Empregado contra quem não tem disponibilidade e agilidade nas ações.

2. VETULE! =  antiquado! obsoleto! arcaico! anacrônico! ultrapassado! - Usado para quem não acompanhou as tendências da modernidade.

H) Finalmente, os nomes de partes do corpo humano usados como palavrões hoje em dia são:

1. CLUNES = bunda, nádegas, rabo, traseiro, é o nome de ambas partes carnudas e esféricas que ficam acima das coxas.

2. CULUS = cu, ânus, nome do orifício final do intestino. Em latim, intestino é colon, vindo daí culus. Cu, portanto, é o intestino em sua parte terminal. Outro nome é PODEX.

3. CUNNUS = buceta, xoxota, xana, pitrica, ximbica, chavascaxavasca, conas, nome da vulva ou vagina. Daqui o cunilingua, o nome oficial do sexo oral que um homem realiza em uma mulher. Note também que um dos nomes vulgares é conas, provindo de cunnus.

4. MAMMA = peito, teta, mama, seios, úbere, nome da parte do tronco entre o pescoço e o abdome. Outros nomes são: PECTUS / SINUS.

5. MENTULA = caralho, pênis, pica, nome do órgão sexual masculino. Outros nomes latinos são: PENIS / VERETRUM VERPA. Há, também, PHALLUS, nome de origem grega.

Paulo Barbosa

EXPRESSÕES CONSTANTES EM CÉSAR

Caio Júlio César (100 - 44 a.C.), patrício, militar e político romano, autor de duas monumentais obras denominadas Comentarii de Bello Gallico e Comentarii de Bello Civili, empregou algumas expressões constantes que devem ser estudadas por aquele que iniciará uma excursão nas obras deste autor para uma melhor compreensão de seus textos. 

1. FINEM FACERE + GENITIVO = literalmente significa: fazer o fim de, fazer ao final alguma coisa, terminar algo. Analogamente também há a expressão: initium facere + genitivo = fazer o início de.

     "Nec prius finem fugae fecerunt quam se in castra reciperent".

     "E não terminaram a fuga antes de se retirarem do acampamento".


2. REM SUSCIPERE = tomar uma coisa, encarregar-se de alguma coisa. 

     "Itaque rem suscipit et a Sequanis impetrat ut per fines suos Helvetios ire patiantur".

    "Assim, pois, se encarrega disso e conseguem dos séquanos que permitam aos helvécios ir pelos seus territórios"


3. IMPETUM FACERE IN = fazer um ataque contra, atacar.

     "In Helvetios impetum conatus est".

     "Decidiu atacar aos helvécios".


4. QUAM POTUIT reforçado por um superlativo = o mais possível. Muitas vezes o verbo não aparece; quam (potuit).

     "Constituerunt... carrorum quam maximum numerum coemere".

     "Decidiram reunir o maior número possível de carros".

Maximum quam potuit = o máximo que pode...


5. ITINERIBUS MAGNIS = à marchas forçadas, referindo-se ao exército. Junto à expressão costuma aparecer o verbo 'proficiscor = partir, por-se a caminho, fazer jornada' ou outros similares como contendo, eo, vado, gradior.

     "Ipse in Italiam magnis itineribus contendit".

     "Ele mesmo em marchas forçadas se dirigiu para a Itália".


6. CERTUM ALIQUEM FACERE, CERTIOREM ALIQUEM FACERE, CERTUS FIERI, CERTIOR FIERI = fazer alguém mais sabedor, informar a alguém. Pode requerer uma oração subordinada substantiva objetiva direta.

     "Cesar per exploratores certus fit ut hostis non abesse".

     "César foi informado pelos espiões de que o inimigo não estava longe".


7. CONSULE, CONSULIBUS = sendo cônsul, sendo cônsules. São ablativos absolutos que servem para expressar datas de um fato ocorrido. 

     "Is M. Messala et M. Pisone consulibus conjurationem  fecit".

     "Este, sendo cônsules M. Messala e M. Pisão, fez uma revolta".

M. Messala et M. Pisone consulibus = sendo cônsules Messala e Pisão = no ano 61 antes de Cristo.


8DUCE = sendo comandante, sendo chefe. É expressão análoga à anterior, um ablativo absoluto designador de data do fato ocorrido.

     "Omnes Nervii confertissimo agmine duce Boduognato, qui summam imperii tenebat, ad eum locum contenderunt".

     "Todos os nérvios em apertada fila, sendo seu comandante Boduognato, que possuía o mais alto comando, se dirigiram para esse lugar".

Duce Boduognato = no ano 57 a.C.

[OBS: Boduognato foi um comandante dos nérvios, povo gaulês de pujante vigor, derrotado na Batalha do Rio Sambre, em 57 a.C., pelos exércitos de Júlio César].


9. RES FRUMENTARIA = assunto sobre o trigo, provisões de trigo. 

   "Itaque re frumentaria quam celerrime potuit comparata, magnis intineribus ad Ariovistum contendit".

     "E assim preparado o abastecimento de trigo o mais rapidamente possível, se dirigiu à marchas forçadas até Ariovisto".


10. ALIQUEM ALICUI PRAEFICERE = colocar alguém para o camando de outro, estabelecer alguém como chefe de outro.

     "Praeficere legatos legionibus".

     "Colocar tenentes para comandar as legiões"


11. SE RECIPERE + ACUSATIVO = retirar-se a, ir para, tornar, voltar, recolher-se.

     "Recipere se ad ordines suos".

     "Retirar-se para suas fileiras".


12. CUM histórico - quando a conjunção 'cum' vem acompanhada do imperfeito ou mais-que-perfeito do subjuntivo nas obras históricas, visando assim narrar fatos ou acontecimentos.

     "Cum civitas ob eam rem incitata armis ius suum exsequi conaretur"...

     "Quando a cidade por esse fato irritada tentava fazer valer o seu direito pelas armas"


13. UT com valor completivo - quando a conjunção 'ut' introduz oração subordinada substantiva.

     "Sed Pompeius suis praedixerat ut Caesaris imperium exciperent"

     "Mas Pompeu dera ordens aos seus que suportassem os ataques de César"


14. ABLATIVOS ABSOLUTOS - são construções tipicamente latinas formadas por um substantivo no caso ablativo junto com um adjetivo ou particípio no mesmo caso. Estas construções não se referem nem ao sujeito nem ao complemento do verbo da oração principal, ou seja, são independentes dos termos essenciais da oração principal, daí o atributo 'absolutos', independentes.

     "Eo magis quod pridie, superioribus locis occupatis, proelium non commovissent"

    "E principalmente porque na véspera, embora tivessem ocupados os lugares mais elevados, não haviam travado o combate".

Paulo Barbosa

LATIM VISUAL II






Paulo Barbosa

LATIM VISUAL


Aqui uma série de quadros contendo palavras, nomes e verbos, latinas com suas respectivas representações gráficas. Uma forma lúdica de aquisição de vocabulário da língua tuliana.







Paulo Barbosa

terça-feira, 17 de novembro de 2015

CARMINA BURANA

Bura Sancti Benedicti, assim era chamado o hoje Mosteiro Beneditino de Beuren, na Alta Baviera, onde no ano de 1803 foi encontrada uma coleção de mais de 240 textos de música dos séculos XI e XIII. São canções compostas por vagantes ou andarilhos que naquelas épocas pertenciam ao grupo de estudantes e clérigos num latim tipicamente medieval e popular.

Esta coleção musical foi editada para publicação pelo linguista Schmeller, quando, então, passou a ser intitulada de:

CARMINA BURANA
CANÇÕES DE BEUREN

No século XX, entretanto, Carl Orff, compositor alemão dos mais eruditos do século, musicou algumas das canções da coleção produzindo, assim, uma cantata dramática e que pode ser acessada aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=QEllLECo4OM

Paulo Barbosa

TRAVA-LÍNGUAS LATINOS


Ave, ave, aves esse aves?
Salve, avô, desejas comer aves?

Tua neta, Maria, rosa
Teus vestidos, Maria, estão roídos

Pande locum vino
Abra lugar para o vinho

Uvas Athenas portas
Levas uvas para Atenas

Maria, an tu nes?
Maria, por acaso tu fias?

Luce, luce luce Lucas
Ó bosque, ilumina com a luz a Lucas

Napo leo non vivit
O leão não vive de nabo

Modicus cibi, medicus sibi
Moderado na comida, médico para si

Nix, nox, nux mihi fuerunt nex
A neve, a noite e a noz foram para mim a morte (a causa)

Paulo Barbosa

COMPOSIÇÃO DO NOME JÚPITER

JUPITER, o deus romano que presidia ao dia, pai de Marte e avô de Rômulo e Remo, fundadores de Roma, é palavra composta de DIES + PATER, Dia e Pai, ou, o Pai do dia.

O 'JU' é 'DIES' transformado, havendo a mudança do 'd'em 'j' e a supressão do 'i': DIU/JIU/JU.

Essa mudança do 'd' em 'j' (e em até em 'g')é comum, como, por exemplo, em:

Jornal, que vem de Diurnalis
Giorno (dia, italiano), de Diurnus
Jour (dia, francês), também de Diurnus.

(Na foto: Júpiter e Juno, de Anibale Carraci, pintor italiano do século XVII)

Paulo Barbosa

HETEROSSEMÂNTICOS LATINOS

HETEROSSEMÂNTICAS são palavras de grafia e às vezes de pronúncia iguais às de outra língua mas de significado diferente.

Há em latim vários heterossemânticos em relação ao português. Vejamos alguns exemplos:

BOA = Cobra aquática que suga leite no peito de vacas; perna inchada devido a muito caminhar; sarampo, doença do sistema respiratório causada pelo paramixovirus; nome de uma ilha da antiga Ilíria. (E não o adjetivo feminino para expressar algo bom).

BOCAS = Boga, nome comum a dez espécies de peixes teleósteos, marinhos e fluviais, tais como a Boga-portuguesa, a Boga-do-mar, a Boga-do-norte, a Boga-de-lisboa, etc.; boi-marinho ou peixe-boi. (E não o plural de boca).

BULE = O senado.

BURRA = Ruça, de cor ruça, avermelhada, corada (adjetivo); vaca de cabeça ruça (substantivo).

CANA = Cidade da Eólida; nome de um promontório da Eólida; cidade da Lícia; cidade da Arábia Feliz; nome de várias cidades palestinas.

DIAS = O número binário, dois.

LAGO = Escamonea, planta medicinal herbácea cuja resina é usada em farmácia como potente purgativo.

MALA = Mandíbula, queixo superior.

MESTRES = Nome de um antigo rei do Egito.

NEGRA = Nome de uma cidade da Arábia.

PELE = Nome de uma ilha de Clazomena, na Ásia Menor, terra de Anaxágoras.

PERA = Sacola, alforge.

VIOLA = Violeta, um gênero botânico de flor; a cor violeta.

Paulo Barbosa

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

LATIM BOTÂNICO

O Latim Botânico é usado por cientistas internacionais para nomear ou descrever plantas e ervas configurando-se num verdadeiro conjunto de termos especializados e técnicos.

Aqui daremos alguns nomes de plantas e ervas encontradas já nos autores arcaicos e clássicos assim como em Plínio, o Velho, naturalista romano do século I d.C.

1. ABIES = abeto, árvore conífera fonte de madeira para instrumentos musicais e de óleos medicinais. Conhecida de Plauto, Cícero, Vergílio.

2. ABIGA = iva-moscada, planta medicinal da família das labiadas.
Conhecida de Plínio, o Velho.

3. ABROTONUM = abrótano, planta medicinal e aromática com intenso odor de cânfora.
Conhecida de Lucrécio.

4. ACACIA = acácia, planta medicinal conhecida popularmente como angico usada em doenças do aparelho respiratório e em dermatologia.
Conhecida de Plínio.

5. ACANTHILIS = aspargo bravo ou silvestre cujos brotos são comestíveis em salada.
Conhecida de Apuleio.

6. ACER = bordo, arbusto muito encontrado na Ásia e Europa donde se extrai uma geléia comestível com torradas.
Conhecido de Ovídio.

7. ACHANTUM = acanto, planta medicinal usada como adstringente, antiinflamatório, analgésico. Suas folhas inspiraram a arte coríntia.
Conhecido de Vergílio.

8. ACHILEA = aquileia, erva medicinal usada contra febre e como bactericida.
Conhecida de Plínio.

9. ACONITUM = acônito, planta venenosa usada na farmacopeia homeopática.
Conhecido de Ovídio.

10. ARTEMISIA = artemísia, planta medicinal muito usada na medicina tradicional japonesa e chinesa.
Conhecida de Plínio.

11. CYNACANTHA = roseira-brava, arbusto.
Conhecida de Plínio.

12. GENTIANA = genciana, planta medicinal usada para alívio de diversos distúrbios digestivos.
Conhecida de Plínio e de Escribônio Largo.

13. LIGUSTRUM = alfeneiro, arbusto de flores brancas e cheirosas muito encontrado em jardins europeus.
Conhecido de Vergílio, Columela, Plínio.

14. RUMEX = labaça, arbusto cujas raízes e folhas são comestíveis como salada. Outro nome deste é OXALIS.
Conhecida de Plauto e Plínio.

15. SEDUM = sempre-viva, planta medicinal e ornamental de várias cores.
Conhecida de Columela e Plínio.

Paulo Barbosa

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

O PRECEPTOR E O MESTRE EM ROMA


O PRECEPTOR

Preceptor Romano
O menino, no terceiro período da educação Romana (100a.C-100d.C.), dos 7 aos 16 anos era confiado geralmente aos cuidados de um mestre que, além de lhe ensinar a falar corretamente, até mesmo o grego, prescrevia-lhe normas de bom tom e conselhos morais - era o PRECEPTOR. Este preceptor era chamado por vários nomes: PEDISEQUUSCUSTOSCOMES ou RECTOR, e tinha obrigação de acompanhar o aluno por toda parte, e quando o levava à escola, ali permanecia aguardando-lhe a saída.

O Imperador Augusto (63 a.C-14 d.C.), mandou reservar no teatro um recinto em que o referido preceptor, de um assento especial e um tanto elevado, pudesse vigiar seu pupilo durante os espetáculos.

O preceptor, então, era uma espécie de professor particular, que ensinava a gramática e dava preceitos - daí o nome genérico preceptor, de preceito - morais e de etiqueta para o pupilo.

O MESTRE-ESCOLA

Escola Romana
Além do preceptor, porém, havia o MESTRE-ESCOLA, aquele que apenas lecionava na escola, e que conforme o grau de ensino chamava-se LITTERATOR,GRAMMATICUS RHETOR.

Litterator era o professor primário que tinha por missão ensinar as primeiras letras, ou seja, era o alfabetizador, e sua escola era denominada de Ludus Litterarius, o que dá a entender que suas aulas eram divertidas, um passa-tempo, uma espécie de Jardim de Infância. O próprio Quintiliano (35-96 d.C.), orador, filósofo e retórico, era de parecer que no Ludus o ensino devia ter mesmo uma feição mais de jogo ou entretenimento do que de trabalho formal, para que o estudo não viesse cansar ou aborrecer a criança.

Aliás, a própria etimologia da palavra escola, que procede do grego, significa ócio ou lazer.

Grammaticus, logo em seguida, era o professor do ensino secundário, onde se ensinava a língua grega. Não devemos pensar ser apenas uma extensão do currículo primário, mas introdução de um aspecto de ensino mais elevado, de uma nova orientação didática, de um tipo de cultura geral, como que uma espécie de ensaio para a 'humanitas' que mais tarde seria objeto do curso superior. 

Ao se tornar adulto, o menino recebia a 'toga virilis', e estava, então, apto a ingressar na escola do grammaticus, onde se iniciava no estudo gramática e da literatura.

Esta escola era de caráter nitidamente helênico e por isto é que Catão (234-149 a.C.), político Romano cognominado O Censor, apesar de ter sentido a necessidade de estudar Demóstenes e Tucídides para consolidar seus conhecimentos oratórios, acautelava seu filho dos perigos da literatura grega, aconselhando-o a "inspicere, non perdiscere". Segundo o mesmo Catão, para a instrução de um 'vir bonus', de um bom cidadão, o essencial era a oratória, a agricultura, o direito, a medicina e a guerra, o que estava em flagrante constraste com a cultura literária exigida pelos professores de gramática de seu tempo.

Foi exatamente neste época catoniana que o Senado Romano acolheu na Urbe os primeiros professores de gramática e retórica, expulsos da Ásia e do Egito por Aristônico e Ptolomeu Fiscon. Todos estes mestres ensinavam o grego. 

Mais tarde, os mestres romanos, substituindo os estrangeiros, continuaram a seguir os mesmos métodos e a usar a mesma língua dos primeiros, o grego. Enquanto, porém, nas aulas de gramática o grego e o latim começam a se revezar, nas aulas de retórica só se falava em grego. 
Na escola de gramática o autor preferido era Homero, cujo comentário e interpretação foram sempre matéria obrigatória durante muitas gerações. Depois, a "Odisséia" traduzida por Andronico para o latim, figurava ao lado dos textos gregos, embora não fosse considerada como de igual importância.

Rhetor, por fim, era o mestre de retórica, a mais elevada das artes para o Romano, por ser mesmo o fim de toda educação. Enquanto a gramática habilitava o aluno a compreender a estrutura teórica do texto, a retórica estava destinada a habilitá-lo a produzir o texto em si como um todo. Era a escola de retórica de nível superior, último estágio do conhecimento pragmático do Romano.

O professor de retórica, segundo Quintiliano no A Formação do Orador, deve possuir algumas qualidades, como ser virtuoso e saber orientar o caráter do discípulo, saber discursar acerca do bom e do honesto, não possuir uma excessiva severidade, mas não deveriam ser negligentes. 

Paulo Barbosa

"PLAGOSUS" ORBILIUS, MESTRE DE HORÁCIO FLACO


Imagem de Orbílio Pupilo
LUCIO ORBÍLIO PUPILO nasceu em Benevento, na região da Campânia, Itália, em 112 a.C e faleceu em Roma, em 13 a.C.. Em tenra idade ficou órfão de pais - e pode ser que daí tenha vindo seu nome, pois contém a raiz ORB, do verbo latino ORBARE, ficar órfão ou privado do pai ou dos pais, e mais pupillus, que significa rapazinho, tutelado -, falecidos de morte violenta. Exerceu várias funções, chegando mesmo até ao ofício das armas, porém no ano 63 começou a ensinar a ars grammatica em Roma, ou seja, professou como grammaticus, professor secundário que ensinava as regras gramaticais para bem falar e escrever.

Como professor grammaticus estava Orbílio ainda ligado aos velhos métodos de ensino e aos velhos programas, de tal maneira que ainda impunha a seus alunos, e dentre estes o poeta Horácio (65-08 a.C.), a leitura da Odyssia de Lívio Andrônico, tradução latina da Odisséia de Homero, realizada em 240 a.C., ainda no período arcaico da língua latina, sem nenhuma padronização quanto a ortografia.

Seus alunos liam e copiavam a Odissya ao som de vergastadas quando erravam, conforme deixou consignado Horácio e Domício Marso, e este foi o motivo que o poeta o apelidou de PLAGOSUS ORBILIUS, que significa RUDE, BRUTAL ORBÍLIO, ou ORBÍLIO QUE MACHUCAQUE DÁ BORDOADAS, pois em latim plaga - donde vem o adjetivo plagosus - é pancada, golpe, ferida, chaga, lesão. 

Por causa da excessiva punição aos alunos faltosos, foi Orbílio processado pelos pais destes e pelos próprios colegas de profissão, ao que desabafou com um livro cujo título se presta a várias traduções: PERIALOGOS, que segundo Suetônio se traduz por "O MUITO ESTULTO", como se o grammaticus se orgulhasse da acusação que estava sendo lançada contra ele pelos seus detratoresoutra possibilidade é de ser traduzido como "O DOLORIDO" - como se o título original fosse PERI ALGÉS; enfim, outra ainda pode ser "SOBRE A DOR", tendo, então, sido o títuloPERI ALGEOS, talvez, caso tenha sido esse o título verdadeiro, se referindo à dor que causou a seus alunos através de suas vergastadas com a férula ou virga.

Viveu Orbílio quase cem anos, porém em extrema pobreza e afetado pela perda da memória, fato este que Fúrio Bibáculo celebrou em seus versos, segundo Suetônio, chamando-o de LITTERARUM OBLIVIO, tentando com isso identificá-lo como gramático inepto, defensor de arcaísmos, etc., etc.

Paulo Barbosa.

OS JOGOS NA ESCOLA ROMANA

A antiga pedagogia romana já revelava um espírito de observação sutil e perspicaz não só quanto aos interesses culturais, como também quanto aos interesses de caráter prático dotados de grande valor educacional. Como os didatas modernos, alguns pedagogos romanos eram de opinião de que nas horas de lazer tivessem os alunos uma ocupação condigna, porque tais horas representavam um ponderável elemento na economia da vida infantil. Aconselhavam por isto as distrações e os recreios que pudessem proporcionar algum proveito à formação moral e cultural dos alunos, retemperando-lhes o espírito pela mudança de atividade.

Julgavam os pedagogos romanos que os jogos eram um meio excelente de combater a tristeza e a melancolia, fatores estes que impedem uma boa disposição do espírito para o estudo. Preconizavam ainda brinquedos de maneira que, segundo Quintiliano, "nem a sua privação acarretasse aborrecimento do estudo, nem uma demasiada concessão para os mesmos, habituasse a criança à ociosidade".

Acreditavam, ainda, que alguns jogos serviam para aguçar o engenho do estudante e que a competição poderia dar margem à solução mesmo de certos problemas relacionados com as matérias estudadas. Viam ainda nos divertimentos um meio de se descobrir, às vezes, certas inclinações dos alunos, dando ensejo ao mestre de aproveitar as boas e corrigir as más. 

Paulo Barbosa

O SALÁRIO DO PROFESSOR ROMANO

Sestércio do tempo de Augusto

Os honorários do professor Romano, seja o "Litterator", o "Grammaticus" e o "Rhetor", eram pagos mensalmente, mas a quantia variava com o tempo, o lugar e a condição do mestre. Sabe-se, também, que o salário do professor primário nunca era elevado, a ponto de Horácio afirmar que, em sua cidade natal, qualquer criança tinha condições de pagá-los.

Mais tarde, no tempo do Imperador Diocleciano (244-311 d.C.), foram fixados um teto para os três níveis de mestres: o "Litterator" podia ganhar no máximo mensalmente cinquenta denários, equivalente a R$ 1,600,00 atuais; o "Grammaticus" podia chegar a duzentos denários, equivalente a R$ 6,400,00; e o "Rhetor" até duzentos e cinquenta denários, atuais R$ 8000,00.

Os bons professores de literatura e de retórica, no entanto, conseguiam obter maiores rendimentos. O gramático Remio Palemão, mestre de Quintiliano, ganhava em sua escola 400,000 sestércios por ano. O Imperador Vespasiano (9-79 d.C.) fixou o salário oficial dos rétores em 100,00 sestércios anuais. O erudito italiano Conrado Barbagallo assevera que foi Augusto quem estabeleceu tal estipêndio para o gramático Verrio Flaco, preceptor de seus dois netos Caio e Lúcio Agripa, a quem mandou que transferisse sua escola para a "Domus Catilinae", onde seus netos estudaram.

Quando os governantes permitiram que se instalassem escolas na cidade de Roma, a concorrência determinou a redução das mensalidades. Alguns mestres, então, preferiram fazer um contrato com os pais dos alunos para o pagamento anual, outros confiavam na generosidade destes e, quando não recebiam quotas elevadas, eram compensados com presentes em certas e determinadas épocas do ano. Desta maneira, no Quinquatrus, festas em honra de Minerva realizadas cinco dias após os idos de março, recebiam os mestres o "Minervale munus", presente de Minerva ou recebido nas festas desta deusa da razão e da inteligêncianas calendas de janeiro, ou seja, no dia 1 de janeiro, e segundo outros autores, em todos os primeiros dias de cada mês, recebiam o "Strena Kalendaria", presente que era tipo brinde para os mestres, e segundo alguns, chamado de 'strena' devido ao nome de uma deusa romana do mesmo nomeenfim, outras gratificações eram dadas aos mestres, em datas diversas, como no dia 22 de fevereiro, quando celebrava-se o dia da família, chamado de "Caristia" ou "Cara Cognatio" e no "Septimontium", festival romano dos sete montes, comemorado segundo alguns, em setembro, e segundo outros, em 11 de dezembro.

Paulo Barbosa

O ENSINO FUNDAMENTAL EM ROMA. ESCOLAS PRIMÁRIAS

PRIMEIRAS ESCOLAS: TABERNA OU PERGULA

Pérgula 
As primeiras escolas em Roma apareceram na vigência da República e estas não dispunham de edifícios próprios. Pode-se afirmar que a localização da escola, assim como da sala de aula, eram um verdadeiro atentado às mais comezinhas normas pedagógicas, pois se localizavam em um qualquer lugar disponível, como uma varanda contígua a uma taverna, ou um beiral aberto para a rua e apenas separado da via pública por uma cortina ou esteira. Este recinto de estudo era chamado "Taberna" ou "Pergula". 

Afrânio Peixoto, na História da Educação, diz que essas humildes escolas situavam-se na confluência das ruas, nos 'triviis, três caminhos', donde começaram a ser denominadas de 'triviales, triviais'.

O MOBILIÁRIO

O mobiliário era tosco e reduzido, não havendo mesas para os alunos, que sentados em bancos simples, pousavam sobre os joelhos suas tabuazinhas enceradas quando precisavam ler ou escrever alguma coisa. O mestre ocupava um assento mais elevado que se chamava "cathedra", cadeira do professor. Este assento repousava sobre um estrado ou palco chamado "pulpitum". Ao lado da "cathedra" do "magister", do mestre, havia um outro assento denominado "sella", onde se assentava o pedagogo assistente a que já vimos em anteriores artigos.

OS RUÍDOS DA RUA, A GRITARIA DO MESTRE

Não existia um sistema que interceptasse os ruídos da via pública nestas escolas, podendo bem se avaliar com quanto esforço de atenção deviam ter os alunos para ouvir as explicações do mestre ou com quanta dificuldade conseguiria, por sua vez, um mestre prender a atenção daqueles e motivar-lhes a aula. Foi por este motivo, pela tentativa de dominar os ruídos provenientes dos arredores da escola, que alguns poetas satíricos de Roma apresentam o mestre-escola  da Urbe como um "gritador". Marcial, poeta epigramático latino do século I d.C., alude a esta característica do mestre, referindo-se à tristeza que sente a criança quando chega à idade de trocar as brincadeiras da infância pelas atividades da escola, ao afirmar "jam tristis nucibus puer relictis clamoso revocatur a magistro" (EpigramasParis 1937). Em outra passagem, o mesmo autor narra que antes do canto do galo, já ressoa a voz do professor como um trovão, e que, tanto o professor quanto o padeiro, com os seus gritos, cerceavam aos Romanos o direito de viver em tranquilidade de manhã e à noite.

HORÁRIO ESCOLAR

O curso primário durava geralmente em torno de cinco horas. Jonh Sandys, em sua obra A Companion to Latin, Cambridge, 1938, diz que as aulas em Roma começavam habitualmente muito cedo, e que durante algum tempo, antes do canto do galo, saía o menino para a pérgula ou escola.

Se os pais do menino estudante eram ricos, possuíam um escravo para transportar a mochila cheia de livros e tabuazinhas enceradas. Este escravo era chamado "Capsarius", aquele que levava a "Capsa", a pasta escolar.
Se, ao contrário, eram pobres, os próprios alunos carregavam seu material escolar.

Em caminho para a escola, costumavam os meninos passar por uma padaria qualquer, onde compravam pães e doces que lhes serviriam de merenda. Voltavam para casa na hora do "prandium", retornando em seguida escola. A duração exata do dia escolar não é conhecida, sendo certo, porém, que passavam as crianças a maior parte do dia no colégio.

ESCOLAS MISTAS EM ROMA?

Não é certo que a co-educação ou sistema de escolas mistas - meninos e meninas na mesma classe - fosse adotado pelos Romanos, porém, talvez em alguns lugares, tivesse esse sistema educativo. É fato que em Cápua foi encontrada uma lápide do túmulo de um "litterator", um professor primário, em que aparecia o busto do mestre ladeado por um menino e uma menina. Disto, no entanto, apenas se pode concluir que meninos e meninas eram instruídos por um mesmo mestre, mas não obrigatoriamente ao mesmo tempo, na mesma classe.

Paulo Barbosa

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

A DISCIPLINA NAS ESCOLAS ROMANAS


Mestre castigando discípulo com a virga

A disciplina nas escolas romanas era severa, tanto nas primárias quanto nas secundárias. O instrumento regular da punição corporal era geralmente a palmatória ou vara, em latim ferula ou virga, que era aplicada em geral nas mãos. Um outro castigo mais severo era com açoite, em latim scutica, como aparece em um fresco de Herculano, antiga cidade romana na região da Campânia soterrada pelas cinzas do Vesúvio em 24 de agosto de 79.

É universalmente - não tanto assim, mas universalmente para os doutos - conhecido o professor Orbílio, de Horácio, poeta lírico e satírico romano, denominado "Orbilius plagosus" (Orbílio que dá bordoadas) e a seu respeito disse Suetônio, no seu De Grammatica, "Si quos Orbilius ferula scuticaque cecidit, Se Orbílio caiu sobre alguns com a palmatória e o açoite"...

Quintiliano, nas suas Institutiones Oratoriae, condenou com veemência tal processo de correção, diriam os modernosos, tal pelourinho pedagógico, como degradante e inútil, tecendo considerações de ordem moral e psicológica, como qualquer moderno pedagogo que reprova a penologia escolar. Para substituir os castigos corporais, preconizou a admoestação, o conselho pesuasivo, a vigilância do mestre que, se impondo aos alunos por um misto de bondade e energia, não precisaria usar da violência e do temor servil.

OS PRÊMIOS...

A concessão de prêmios, no entanto, era também praticada pelos romanos. Segundo o testemunho de Suetônio, Valerius Flaccus instituiu competições nas quais o vencedor, victor, recebia um prêmio. 

Quando a criança conseguia aprender todo o alfabeto, geralmente era recompensada com um jogo de letras de marfim, se seus pais tivessem posses, e caso contrário, recebiam doces, pastéis ou qualquer outro presente de menor importância.

Paulo Barbosa

A ARTE DA ESCRITA EM ROMA

Após a criança Romana conseguir ler com acerto, era iniciada na arte da escrita, encontrando então novas dificuldades em agrupar as letras em sílabas e estas em palavras, pois encontrava na aprendizagem da escrita os mesmos processos irracionais e retardatários adotados pela maioria dos mestres da época.

Algumas vezes, as letras eram modeladas em cera, outras vezes esculpidas em madeira. 

Quando começava a escrever propriamente, como o aluno não tivesse recebido anteriormente instruções sobre a maneira de manejar o estilete, sobre a posição da mão e a postura do corpo, tinha o mestre necessidade de tomar sua mão para ajudá-lo a seguir os contornos do modelo.

Deste processo resultava serem necessárias muitas aulas até que o aluno obtivesse a habilidade suficiente de, por si mesmo, executar a cópia das letras, conforme testemunha Sêneca nas suas Epistolae: "Pueri ad praescriptum discunt: digiti illorum tenentur, et aliena manu per litterarum simulacra ducuntur; deinde imitari iubentur proposita, et ad illa refomare chirographum".

Depois que haviam aprendido a reproduzir todas as letras do alfabeto,eram os discípulos obrigados a fazer repetidas cópias de máximas úteis, provérbios e sentenças que eram, em seguida, memorizados.

O exercício da memorização tinha, com efeito, grande importância na educação romana, na qual se aproveitavam os romanos inteligentemente da notável capacidade de retenção da memória infantil para confiar a esta um série de elementos indispensáveis à formação do que eles chamavam a "virilitas romana", que nada mais era senão a elaboração consciente da personalidade cívica e moral da futuro cidadão.

Acerca da escrita é interessante trazer aqui algumas normas, exaradas pelo grande Quintiliano em suas Institutiones Oratoriae, que no tempo eram aconselhadas ao professor primário, ao alfabetizador:

"O escrever com velocidade e bem é coisa digna de atenção, ainda que comumente seja desprezada por pessoas de posição";
"O principal exercício de gente de letras é escrever, mas se a pena anda lerda, serve de estorvo à imaginação, e se a letra é imperfeita e de má conformação, torna-se ilegível, sendo então preciso ditar-se o que tiver de ser copiado por outrem";
"Quando o menino começa a escrever, não perca tempo em copiar palavras vulgares e que ocorrem diariamente, mas, ao contrário, deverá copiar palavras raras e difíceis, para ir ao mesmo tempo conhecendo seu significado e aplicação";
"Desejaria que os versos, que fossem dados para cópia, não contivessem sentenças inúteis, mas sempre algo de útil, porque a recordação deste perdurará até a velhice";
"Fixando tais ensinamentos em um espírito despreocupado de outras ideias, serão de grande proveito para a formação dos costumes";
"Podem também, a título de diversão, aprender as sentenças de homens ilustres e trechos escolhidos, principalmente dos poetas, coisas estas que agradam muito àquela idade";
 "Nesta idade em que o menino não pode inventar nada, o exercício da memória, pela maneira indicada, é o único meio que resta ao professor para desenvolver o engenho do aluno".
Com certeza, a técnica moderna de leitura e de escrita não se negaria a endossar muitas dessas normas aconselhadas há mais de vinte séculos por um dos grandes precursores da ciência pedagógica.

Paulo Barbosa