domingo, 1 de abril de 2012

SINTAXE DO PRESENTE

O presente indica, geralmente, que a ação verbal está em curso ou representa o estado no momento em que se fala. Assim:

"Virtutis enim laus omnis in actione consistit"

"Todo preço da virtude consiste na ação" (Cícero, De. Off., I,6,19)


Mas pode também tal tempo verbal ser empregado para aludir ao passado ou ao futuro.

Quando se refere ao passado, é denominado presente histórico, e isto porque se transporta para a época em que os fatos relatados ocorreram, como no exemplo seguinte:

"Duas ibi legiones conscribit"

"Ele convocou ali duas legiões"


Quando se refere ao futuro, o presente do indicativo é usado nas frases em que se pergunta o que se deve realizar ou fazer:

"Quid ago?"

"Que faço? [ou: que farei?]" (Vergílio, En., IV,534)


"Imusne sessum?"

"Porventura vamos (ou: iremos) nos sentar?" (Cícero, De. Or. III,17)



É também o presente usado junto a uma partícula ou advérbio servindo, então, para indicar que a coisa teve sua origem no passado:

"Patimur multos iam annos"

"Nós sofremos isto já há muitos anos" (Cícero, Verr. V. 126)


"Te iam dudum hortor"

"Eu te exorto há muito tempo" (Cícero, Cat. I,12)



Finalmente, o presente é usado com valor atemporal em provérbios e máximas:

"Audentis Fortuna adiuvat"

"A sorte ajuda os ousados" 


Paulo Barbosa

NOMINA DEFECTIVA NUMERIS ET CASIBUS

Uma das anomalias encontradas na declinação latina dos nomes são os NOMINA DEFECTIVA, ou seja, nomes aos quais faltam um número, e por isso, podem ser ou declinados somente no singular - singularia tantum - ou declinados somente no plural - pluralia tantum - e casos, quando não possuem todos os casos - defectiva casibus. Assim:

1. SINGULARIA TANTUM: 

a) Nomes próprios: Cicero, Horatium, Italia

b) Nomes abstratos: fortitudo

c) Nomes de coisas não susceptíveis de serem contadas: aurum, argentum, aer


2. PLURALIA TANTUM:

Acta, orum = as ações

Adversaria, orum = o diário, o livro de anotações

Aedes, ium = palácio, casas

Bigae, arum = carroça de dois cavalos

Castra, orum = acampamento

Cibaria, orum = alimentos, víveres

Copiae, arum = tropas

Dapes, um = banquetes

Epulae, arum = banquete, iguarias

Nuptiae, arum = núpcias, casamento

Opes, um = riquezas

Tenebrae, arum = trevas


3. DEFECTIVA CASIBUS, que podem ser monoptota, diptota, triptota, tetraptota, conforme possuam, respectivamente, um, dois, três ou quatro casos.

Monoptota:

a) inguies = o desassossego [só possui nominativo singular]

b) dicis = de falar [só possui genitivo singular]

c) divisui = partilha [só possui dativo singular]

d) amussim = cordel, régua [só possui acusativo singular]

e) pondo = libra, peso [só possui ablativo singular]


Diptota:

a) astu = a cidade por excelência, Atenas [só têm nominativo e acusativo singulares]

b) fors, forte = forte e acaso [só têm nominativo e ablativo singulares, sendo que neste significa acaso]

c) pedum = cajado de pastor [só têm nominativo e acusativo singulares]

d) dicam, dicas = citação [só têm acustivo singular e plural]


Triptota:

a) spontis, spontem, sponte = vontade [só têm genitivo, acusativo e ablativo plurais]

b) grates, gratibus = graças, agradecimentos [só têm nominativo, dativo e ablativo plurais]


Tetraptota:

a) lues, luis, luem, lue = peste [só têm nominativo, genitivo, acusativo e ablativo singulares]

b) tabes, tabis, tabem, tabe = podridão, corrimento [só têm nominativo, genitivo, acusativo e ablativo singulares]


Somente a titulo de esclarecimento, a palavra caso - casus - em grego é ptose - ptosis. Monoptota, portanto, é composto de monos = um + ptose = caso, e assim com os demais: di+ptota, tri+ptota, etc.

Paulo Barbosa

LETRAS RAMISTAS


O J e o V não eram conhecidos dos romanos e somente foram introduzidos no alfabeto no século XVI pelo humanista Petrus Ramus, originando daí o nome de 'letras ramistas'. O símbolo I era usado tanto como consoante quanto como vogal, ou seja, representava o j e o i. O gramático Nigídio Fígulo, segundo Aulo Gélio, diz que o j e o v iniciais não devem ser considerados vogais:

"Si quis putat praeire u in verbis Valerius, Verronius, Volusius, aut i in his: iampridem, iecur, iocus, iucundum, errabit, quod hae litterae, cum praeunt, ne vocales sunt" (Noites Áticas, XIX, 14,6).

"Se alguém pensa que o u que vai na frente nestas palavras: Valerius, Verronius, Volusius, ou o i nestas: iampridem (desde há muito), iecur (fígado), iocus (gracejo), iucundum (agradável), errará, porque essas letras, quando vão adiante, não são vogais".

Entre os poetas, o i seguido de vogal tornava-se, muitas vezes, consoante. Assim: abietis,ariete, etc.

O u, como já dissemos, era usado para consoante e vogal. Não era considerada vogal em início de palavra, conforme Nigídio, mas no meio, ora tinha valor consonantal, ora vocálico.

Paulo Barbosa

quinta-feira, 29 de março de 2012

CURSO DE LATIM NA UERJ I

O sujeito numa oração pode ser representado por substantivo, pronome ou outra palavra, até mesmo frase, que o substitua:

Caesar eius dextram prendit (César, B. Gal. 1,20,5)

Historia est testis temporum (Cícero, De. Or. 2,9)

Impedimentis castrisque nostri potiti sunt (César, B. Gal. 1,26,4)

Non sentire mala sua non est hominis (Sêneca, Cons. Pol., 36)

Dulce et decorum est pro pro patria mori (Horácio, Od. 3,2,13)

Pater huc me misit... meus (Plauto, Amph., 20)

Di me servant (Plauto, Aul., 207)

Is ex se hunc reliquit qui hic nunc habitat filium (Plauto, Aul. 22)

Illa illum nescit (Plauto, Aul. 30)


Os verbos que significam 'dizer', 'relatar', 'contar', empregados na terceira pessoa do plural indeterminam o sujeito:

Aiunt hominem respondisse (Cícero, Amer.,33)

Se Massiliam, ut aiunt, conferet (Cícero, Cat. 2,14)

Noluit, inquiunt, hodie agere Roscius (Cícero, De Or.,1,124)

Paulo Barbosa

quarta-feira, 21 de março de 2012

PROGRAMA DO CURSO DE LATIM NA UERJ


O CURSO DE LATIM que se iniciará na UERJ em 24 de março, aos sábados, abordará a gramática morfossintaticamente. Os textos para tradução serão os do livro do latinista brasileiro, Prof. Ernesto Faria, "O Latim pelos textos", trechos escolhidos e graduados para o estudo do latim.

O primeiro texto de leitura será de Sexto Rufo, autor do século IV da era cristã, que compôs o "Breviarium De Victoriis et Provinciis Populi Romani", "Breviário sobre as Vitórias e Províncias do Povo Romano". Este livro foi muito estimado pelos contemporâneos, muitos dos quais o copiaram e, desde a Renascença, foi muitas vezes reeditado, aliás com muitos títulos diferentes.

O latim de Rufo, ainda que com alguns deslizes e imperfeições comuns a todos os escritores do século IV, possui notáveis qualidades de clareza e precisão. Contudo, é sempre um latim de escritor romano autêntico e por esse motivo mesmo é mais recomendável para os principiantes no latim do que qualquer outro mau latim criado no século XIX ou XX.


O segundo texto será de Eutropio, que viveu também no século IV da era cristã e foi autor do "Breviarium Historiae Romanae", "Breviário da História de Roma", dedicada ao Imperador Valente, que reinou de 353 até sua morte, em 378. Esta obra, desde a antiguidade e durante toda a Idade Média, gozou de grande renome, tendo até merecido várias traduções em grego.

O latim de Eutrópio é como que especialmente indicado para a iniciação do estudo do latim por suas extraordinárias qualidades de clareza, precisão, simplicidade e pureza, qualidades estas reconhecidas unanimemente por todos os latinistas.


O terceiro texto será de Fedro, fabulista latino do século I da era cristã. Foi autor de Fábulas, em cinco livros, abrangendo 90 fábulas em versos senários iâmbicos. A maioria dos assuntos foi tomado de Esopo, fabulista grego, acrescentando Fedro mais algumas fábulas, provenientes de outras fontes ou inventadas por ele para criticar os contemporâneos.

A língua e o estilo de Fedro, no dizer de Laurand, são clássicos, primando pela pureza do gosto, semelhante ao latim da época de Augusto.


O quarto texto será de Cornélio Nepos, também do século I da era cristã. Foi autor do "De Viris Illustribus", "Sobre os homens ilustres", obra biográfica acerca de homens de grande monta dos idos tempos. Era amigo dos mais eminentes representantes do mundo literário clássico, tais como Cícero, Hortênsio, Pompônio, Ático e Catulo. Este último dedicou a ele seu livro de poesia.

O latim de Nepos é bom, não se encontrando deslizes ingentes e seu estilo é de primeira ordem. É verdade que se acha construções arcaicas e outras de cunho familiar e em alguns períodos, vocábulos de emprego raro na língua latina, mas nem por isso há demérito em sua obra.


O quinto texto será excertos de César, nascido em Roma, em 100 antes de Cristo, autor dos "Comentarii De Bello Gallico", "Comentários sobre a Guerra Gauleza", narrativa viva e ágil, sem pormenores inúteis, composta com frase sempre natural, seja curta, seja um longo período, onde os fatos são perfeitamente bem coordenados, de modo que nada pode ser retirado nem posto.

O latim de César é autenticamente clássico, possuindo grande pureza, sem palavras vulgares, obsoletas ou poéticas. É um latim de uma precisão quase absoluta, conciso e de simplicidade na construção, levado muitas vezes a um apuro que nem mesmo sequer Cícero conheceu. Tudo fez de César um mestre ao qual, em toda a língua latina, só Cícero poderá ser comparado e manter-se em situação de igualdade, sem ser relegado para a penumbra de um segundo plano.


O sexto texto será excertos de Cícero, nascido em 106 antes de Cristo, autor de inúmeras obras de variados gêneros.

O latim de Cícero é absolutamente clássico, de extrema correção e pureza. O estilo é, por excelência, natural, verdadeiro, sem constrangimento nem rigidez. Conseguiu Cícero imprimir à língua musicalidade, harmonia, como nenhum outro autor latino, ultrapassando, mesmo, os prosadores gregos, com excessão de Isócrates.


Além da gramática e dos textos graduados, os alunos deverão, por esforço próprio, estudar aspectos da Cultura Romana, grande auxilar no estudo de qualquer idioma para sua melhor compreensão.

Paulo Barbosa

segunda-feira, 19 de março de 2012

ROMÂNIA

ROMÂNIA é o nome pelo qual se convencionou denominar toda a área geográfica que, em virtude das conquistas romanas, foi latinizada.

Sabe-se que nem sempre onde chegaram as legiões romanas, a língua latina se impôs, haja vista, por exemplo, a Grécia que, por sua cultura sedimentada e forte, jamais cedeu ao idioma dos romanos. Entretanto, regiões houve que foram latinizadas, mas devido a fatores históricos, perderam o lastro romano, como, por exemplo, o norte da África, onde hoje em dia só se encontram vestígios arqueológicos da antiga conquista, mesmo tendo, em tempos passados, tido inegável fastígio.
O norte africano, no século II da era cristã, estava completamente romanizado e possuía até mesmo um vasto centro literário, cuja tradição vai de Apuleio a Tertuliano e Agostinho de Hipona, o santo. Este latim falado na África teve estreitas relações com obras cristãs que constituindo a única literatura notável da decadência romana se tornaram os verdadeiros agentes da formação do latim medieval. Isso quer dizer que existiu também uma România africana.

Os vestígios dessa romanidade africana florescente foram dispersos e apagados pelo tufão das invasões dos Vândalos, em 439, sob o comando de Genserico; em seguida, pelos bizantinos que, sob Justiniano, na Batalha de Tricameron, em 533, anexaram todo o território setentrinal da África ao Império Bizantino; e, por fim, pela invasão árabe começada por volta de 640, onde os últimos clarões do antigo império romano foram extintos.
Numa grande extensão da Europa, entretanto, os romanos deixaram gravados, de modo indelével, na tradição linguística, a antiga conquista. Isso pode ser atestado ainda hoje nas línguas românicas, cheias de vigor e viço.
Tal romanização não foi, porém, obra apenas de um povo guerreiro. Acima de tudo, os romanos foram hábeis colonizadores e sabiam conduzir os povos conquistados, respeitando os seus direitos, suas religiões, prerrogativas e interesses.
Assim, no tempo de Vespasiano (41 e.C.), a Espanha possuía já direito de cidadania; Caracalla (197) promulgou o famoso edito pelo qual concedia igual direito a todos os súditos imperiais. Ulpiano, famoso jurista romano do século III, deixou-nos a versão de tal edito:

"In orbe romano qui sunt ex constitutione Imperatoris Antonini cives romani effecti sunt"
Este fato de enorme alcance político fez o poeta Rutílio Namaziano escrever o seguinte dístico:

"Fecisti patriam diversis gentibus unam

Urbem fecisti quae prius orbis erat".

O prestígio de Roma, além de dominar quase todo o Ocidente da Europa, deixou, no próprio Oriente europeu, o rumeno como 'lontana voce romana', no dizer de Savj-Lopez.
Não se pode esquecer, todavia, que a România, abrangendo todo esse enorme território, não constituiu, jamais, substrato étnico uniforme. Foi apenas um substrato linguístico, fruto de um fato histórico: a conquista romana.
Em termos estritos, então, esta é a conceituação da România. De romani tirou-se o vocábulo România para designar o mundo romanizado.

Paulo Barbosa

APÓCOPE DA SIBILANTE EM LATIM

A queda do S final é fato antigo na língua latina. Já Quintiliano (35-95 e.C.) observara que os antigos romanos omitiam constantemente o S no fim dos vocábulos. Documentos, também, colhidos em inscrições, evidenciam a antiguidade deste fato. Por exemplo, nas inscrições primitivas, notam-se estes exemplos:

BONU por BONUS

CORNELIO por CORNELIOS

NEPOTI por NEPOTIS

PIETA por PIETAS

MATRONA por MATRONAS

Esta apócópe não era somente observada no latim, pois o mesmo fenômeno foi frequente no úmbrio e, em algumas vezes, também documentado no falisco.

Nas línguas românicas ocorreram fatos análogos. No italiano, por exemplo, pode-se averiguar:

AMATIS que deu AMATE

SENTIS que deu SENTI

DAS que deu DAI

TRÊS que deu TREI (arcaico) e TRE

Paulo Barbosa

LÍNGUA ROMÂNICA I: FRANCÊS

O FRANCÊS é o idioma que resultou do latim vulgar que era falado no norte da França e era denominado 'langue d'oil'. 'Oil' era um advérbio afirmativo derivado de hoc illic ou hoc ille.

No século IX, chamava-se 'língua francisca', e isso para fazer oposição à 'língua theodisca', ou seja, alemã. E é de 'francisca' que se deriva 'françoise' e, desta forma, 'française'.

O francês foi a primeira língua românica que teve documento literário: o famoso 'Le Serment de Strasbourg"  'O Juramento de Estrasburgo", texto firmado em 14 de fevereiro de 842, onde os filhos de Carlos Magno, Carlos o Calvo e Luis o Germânico fizeram promessa solenizando aliança contra o irmão Lotário I, Imperador.

A 'langue d'oil' possuía vários dialetos:

- o da Normandia, que foi levado à Inglaterra, onde se conservou até o século XIV.

- o da Picardia.

- o Valônico, que fazia fronteira com a Flândria.

- o da Champagne.

- o da Borgonha.

- o de Angers.

- o da Isle de France, que preponderou como idioma e deu o francês de hoje.

Todos estes dialetos, no século XV, perderam a tradição literária e passaram a ser falares puramente regionais. Somente o dialeto central, o da Isle de France, adquiriu foros de língua.

Os principais monumentos literários produzidos na 'langue d'oil' são:

- Cantilena de Santa Eulália, do ano 900.

- La passion du Christ, século X.

- Vie de Saint Léger, do mesmo século X.

- Chanson de Roland, do século XI. Este poema teve larga difusão durante toda a Idade Média.

Paulo Barbosa