quarta-feira, 6 de junho de 2012

'REDEMPTUS AB HOSTE' E 'REDEMPTOR' NA ROMA ANTIGA

REDEMPTUS AB HOSTE, como o próprio nome indica, era, na Roma antiga, o prisioneiro de guerra resgatado (= redemptus) do inimigo (= ab hoste) por um terceiro, que era denominado redemptor (= resgatador).

Havia à época uma ficção jurídica, o postliminium, por meio do qual o redemptus ab hoste ao entrar em território romano recuperava a liberdade, a cidadania e todos os demais direitos que tivesse no momento em que fora capturado; no entanto, caso não possuísse recursos para reembolsar quem lhe resgatara, o seu redemptor, não readquiria imediatamente e de maneira plena sua capacidade jurídica, pois ficava obrigado a serví-lo até solver o débito com o produto do seu trabalho. Quando o resgate fosse pago, recuperava a liberdade mediante o manumissio (= libertação), beneficiando-se, então, do postliminium.

A condição do redemptus ab hoste, entretanto, com o passar do tempo, foi melhorando: os imperadores Diocleciano e Maximiano (século IV d.C.) estabeleceram que o resgatado recuperava a liberdade sem necessidade de manumissão no mesmo instante em que pagasse o valor total do resgate ao redentor. Depois, em 409 d.C., Honório determinou que o período máximo durante o qual estaria o resgatado obrigado a servir ao redemptor, era de cinco anos. Por fim, no direito justiniano (século VI d.C.), o redemptus ab hoste recuperava, pelo postliminium apenas, todos os seus direitos civis desde o momento do resgate, ficando, porém, obrigado a trabalhar para o redemptor, que tinha sobre ele o que os textos jurídicos da época denominavam pignus.

Paulo Barbosa

terça-feira, 5 de junho de 2012

DATIVO DE POSSE

Já dissemos aqui que o dativo de posse é aquele que substitui o verbo habeo por est mihi = tenho, é meu, é para mim. Assim:

Tenho um livro, em latim fica: est mihi liber, que literalmente é: um livro para mim existe.

Porém, quando se tratar de uma qualidade do espírito possuída por alguém, o dativo é substituído pelo ablativo com in:

Cícero tinha grande eloquência, em latim: fuit in Cicerone magna eloquentia.

O nome próprio também se diz através do dativo de posse, com a expressão est mihi nomen = tenho o nome, chamo-me. O nome próprio, entretanto, pode concordar com 'nomen' e, por isso, ficar no nominativo, como pode concordar com 'mihi', e portanto ir para o dativo. Assim:

Eu me chamo Paulo, em latim fica: est mihi nomen Paulus, ou

                                                            est mihi nomen Paulo.

Paulo Barbosa

UM POUCO DE FILOSOFIA DO VOCÁBULO

A PALAVRA pode ser definida como sendo o sinal habitual da alma e consta de vocábulos metodicamente reunidos em compêndios que se chamam: vocabulários, dicionários, léxicos e glossários. Tem por complemento a mímica, que lhe serve de reforço ou comentário.

VOCÁBULOS, por sua vez, são sons articulados que o aparelho fonador humano profere, todo ouvido percebe, e têm determinada significação quase sempre convencional e regulada pelo uso. Outra definição de vocábulo é ser um sinal sonoro que lembra ora um objeto material, como cavalo, ora uma noção abastrata, como virtude, e isto por meio de uma associação de ideias.

A memória retém a impressão constante desta associação e quando o termo surge, lido ou ouvido, a ideia correspondente aparece, e vice-versa, a ideia não poderá aparecer sem o vocábulo que a exprime.

Quando se estuda uma língua estrangeira, como o latim por exemplo, a aprendizagem do léxico é de suma importância, e esta aprendizagem consiste em gravar na memória os sons articulados da língua estudada naquelas relações que têm eles com as imagens e as ideias respectivas.

Numa classificação antiga, mas muito racional, os vocábulos ou termos eram divididos em duas espécies: 1. Vocábulos ou termos pitorescos, e 2. Vocábulos ou termos abstratos.

O vocábulo pitoresco é aquele que designa o que os nossos sentidos percebem, dirigindo-se ao espírito e à imaginação.

O vocábulo abstrato é aquele que dirige-se quase que unicamente à razão, e por isso, na imaginação nada evoca, senão formas vagas e imprecisas.

A maior parte dos vocábulos têm mais de uma significação, porém, numa oração bem construída, devem ter unicamente o sentido determinado pelo autor. Óbvio que muitas vezes acontece ter o mesmo termo possibilidade de duas ou mais interprtações, como nos casos dos trocadilhos que não passam de burlas inocentes, ou no caso da crítica irônica. Exemplo desta duplicidade de interpretação encontramos em José de Alencar que dizendo Joaquina Buco, não designava nenhuma senhora chamada Joaquina, mas a Joaquim Nabuco, reprovando os modos efeminados do abolicionista.

Paulo Barbosa

segunda-feira, 4 de junho de 2012

CONJUNÇÕES COORDENATIVAS LATINAS

CONJUNÇÃO é palavra invariável que serve para unir as palavras ou para unir orações entre si. Há duas espécies de conjunções: coordenativas e subordinativas.

Vejamos as conjunções coordenativas latinas:

Et, ac, atque, -que = e - têm sentido aditivo

Aut, vel, ve = ou - têm sentido alternativo

Nam, namque, enim, etenim = pois, com efeito - têm sentido explicativo e demonstrativo

Sed, verum = mas - têm sentido adversativo menos forte

At, at vero = mas pelo contrário - têm sentido adversativo mais enérgico

Tamen, at tamen, verum tamen = todavia, contudo - introduz oração subordinada que vem acompanhada de at, sed ou verum

Ergo, igitur = logo, portanto - têm sentido conclusivo

Itaque, quare, quamobrem = é por isso que - têm sentido conclusivo

Paulo Barbosa

SUPERIORIDADE LITERÁRIA: GREGOS OU LATINOS?

A quem caberá a superioridade literária: aos gregos ou aos latinos? A esta pergunta deve-se responder sem medo algum de errar que aos gregos. A eles, incontestavelmente, se deve dar a preeminência. A literatura produzida pelo povo da Hélade possui tres predicados distintivos que nenhuma outra, nem mesmo a romana, possui no mesmo grau:

1. É primitiva, original, simples, enquanto nos romanos, a tragédia, a comédia, a elegia, a poesia lírica e até a oratória vinham da Grécia já organizadas e codificadas;

2. É completa, não lhe faltando, portanto, nenhum gênero literário;

3. Em todos os gêneros, produziu obras-primas, modelos perfeitos.

Horácio, grande poeta lírico e satírico romano, não se envergonhava de confessar a superioridade grega ao afirmar:


"Graecia capta ferum victorem cepit et artes

Intulit agresti Latio". (Epistola, 2,1,156)


"A Grécia conquistada conquistou o selvagem vencedor

e levou as artes para o Lácio agreste".


Noutra obra, aconselha o mesmo poeta aos jovens literatos:


"Vos, exemplaria Graeca

Nocturna versate manu, versate diurna". (Ad Pisones, 208)


"Vós, manejai com mão trabalhando à noite

os exemplares gregos; manejai durante o dia".


Paulo Barbosa

A POESIA DIDÁTICA

Hesíodo
POESIA DIDÁTICA, como o nome mesmo diz, é aquela que visa a ensinar, tendo por objeto a ciência, a moral e as artes. Exemplo deste gênero são a Teogonia de Hesíodo, tratado sobre teologia pagã; as Epístolas de Horácio, e as Geórgicas de Vergílio, que ensinam a arte da agricultura.

A história da poesia didática tem suas raízes nos povos primitivos, que tinham necessidade de facilitar, pelo ritmo e pela rima, a assimilação e a conservação das verdades científicas que não podiam ser comunicadas pela escrita que ainda não tinha sido inventada.

Em fins do século XVIII e princípios do XIX d.C., decai completamente o gênero didático, e isto por não existir mais cultores seu ou, se os há, são sem inspiração e sem poesia verdadeira: apenas versificadores.

Nos séculos XIX e XX começaram a propagar que o instrumento mais adequado para dissertações científicas ou transmissão de ensinamentos era a prosa e não o verso, e se nestes séculos aparecem ainda até gramáticas em verso, são excentricidades, casos esporádicos e isolados.

Paulo Barbosa


domingo, 3 de junho de 2012

CONCORDÂNCIA COM SUJEITO COMPOSTO DA MESMA PESSOA

Ensina a regra sintática que se numa oração há dois sujeitos da mesma pessoa, pode o verbo concordar somente com o mais próximo. Assim:

Teu pai e tua mãe te amam, em latim fica: Te diligit pater et mater - Veja que o verbo está no singular, diligit, concordando com pater, mais proximo.

Os anciãos têm sabedoria e prudência, em latim: Ratio et consilium in senibus est - Verbo est, singular, em vez de sunt, concordando com o substantivo mais próximo.

A casa e o templo foram queimados, em latim: Domus ac templum incensum est - O verbo incensum est, em vez do plural incensa sunt.

Paulo Barbosa

PERFEITOS SINCOPADOS

Os verbos latinos que nos perfeitos regulares fazem -avi, -evi, -ivi, e nos tempos formados por esses, podem ter a sílaba -vi suprimida diante de -s, e a sílava -ve diante de -r:

Amavisse pode ser amasse (infinito perfeito ativo: ter amado);

Implevisse pode ser implesse (infinito perfeito ativo: ter enchido);

Commovissem pode ser commossem (mais que perfeito subjuntivo ativo: eu tivesse comovido);

Amaverat pode ser amasse (mais que perfeito indicativo ativo: ele tinha amado);

Impleverat pode ser implerat (mais que perfeito indicativo ativo: ele tinha enchido).

Paulo Barbosa