segunda-feira, 16 de novembro de 2015

LATIM BOTÂNICO

O Latim Botânico é usado por cientistas internacionais para nomear ou descrever plantas e ervas configurando-se num verdadeiro conjunto de termos especializados e técnicos.

Aqui daremos alguns nomes de plantas e ervas encontradas já nos autores arcaicos e clássicos assim como em Plínio, o Velho, naturalista romano do século I d.C.

1. ABIES = abeto, árvore conífera fonte de madeira para instrumentos musicais e de óleos medicinais. Conhecida de Plauto, Cícero, Vergílio.

2. ABIGA = iva-moscada, planta medicinal da família das labiadas.
Conhecida de Plínio, o Velho.

3. ABROTONUM = abrótano, planta medicinal e aromática com intenso odor de cânfora.
Conhecida de Lucrécio.

4. ACACIA = acácia, planta medicinal conhecida popularmente como angico usada em doenças do aparelho respiratório e em dermatologia.
Conhecida de Plínio.

5. ACANTHILIS = aspargo bravo ou silvestre cujos brotos são comestíveis em salada.
Conhecida de Apuleio.

6. ACER = bordo, arbusto muito encontrado na Ásia e Europa donde se extrai uma geléia comestível com torradas.
Conhecido de Ovídio.

7. ACHANTUM = acanto, planta medicinal usada como adstringente, antiinflamatório, analgésico. Suas folhas inspiraram a arte coríntia.
Conhecido de Vergílio.

8. ACHILEA = aquileia, erva medicinal usada contra febre e como bactericida.
Conhecida de Plínio.

9. ACONITUM = acônito, planta venenosa usada na farmacopeia homeopática.
Conhecido de Ovídio.

10. ARTEMISIA = artemísia, planta medicinal muito usada na medicina tradicional japonesa e chinesa.
Conhecida de Plínio.

11. CYNACANTHA = roseira-brava, arbusto.
Conhecida de Plínio.

12. GENTIANA = genciana, planta medicinal usada para alívio de diversos distúrbios digestivos.
Conhecida de Plínio e de Escribônio Largo.

13. LIGUSTRUM = alfeneiro, arbusto de flores brancas e cheirosas muito encontrado em jardins europeus.
Conhecido de Vergílio, Columela, Plínio.

14. RUMEX = labaça, arbusto cujas raízes e folhas são comestíveis como salada. Outro nome deste é OXALIS.
Conhecida de Plauto e Plínio.

15. SEDUM = sempre-viva, planta medicinal e ornamental de várias cores.
Conhecida de Columela e Plínio.

Paulo Barbosa

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

O PRECEPTOR E O MESTRE EM ROMA


O PRECEPTOR

Preceptor Romano
O menino, no terceiro período da educação Romana (100a.C-100d.C.), dos 7 aos 16 anos era confiado geralmente aos cuidados de um mestre que, além de lhe ensinar a falar corretamente, até mesmo o grego, prescrevia-lhe normas de bom tom e conselhos morais - era o PRECEPTOR. Este preceptor era chamado por vários nomes: PEDISEQUUS, CUSTOS, COMES ou RECTOR, e tinha obrigação de acompanhar o aluno por toda parte, e quando o levava à escola, ali permanecia aguardando-lhe a saída.

O Imperador Augusto (63 a.C-14 d.C.), mandou reservar no teatro um recinto em que o referido preceptor, de um assento especial e um tanto elevado, pudesse vigiar seu pupilo durante os espetáculos.

O preceptor, então, era uma espécie de professor particular, que ensinava a gramática e dava preceitos - daí o nome genérico preceptor, de preceito - morais e de etiqueta para o pupilo.

O MESTRE-ESCOLA

Escola Romana
Além do preceptor, porém, havia o MESTRE-ESCOLA, aquele que apenas lecionava na escola, e que conforme o grau de ensino chamava-se LITTERATOR,GRAMMATICUS e RHETOR.

O Litterator era o professor primário que tinha por missão ensinar as primeiras letras, ou seja, era o alfabetizador, e sua escola era denominada de Ludus Litterarius, o que dá a entender que suas aulas eram divertidas, um passa-tempo, uma espécie de Jardim de Infância. O próprio Quintiliano (35-96 d.C.), orador, filósofo e retórico, era de parecer que no Ludus o ensino devia ter mesmo uma feição mais de jogo ou entretenimento do que de trabalho formal, para que o estudo não viesse cansar ou aborrecer a criança.

Aliás, a própria etimologia da palavra escola, que procede do grego, significa ócio ou lazer.

O Grammaticus, logo em seguida, era o professor do ensino secundário, onde se ensinava a língua grega. Não devemos pensar ser apenas uma extensão do currículo primário, mas introdução de um aspecto de ensino mais elevado, de uma nova orientação didática, de um tipo de cultura geral, como que uma espécie de ensaio para a 'humanitas' que mais tarde seria objeto do curso superior. 

Ao se tornar adulto, o menino recebia a 'toga virilis', e estava, então, apto a ingressar na escola do grammaticus, onde se iniciava no estudo gramática e da literatura.

Esta escola era de caráter nitidamente helênico e por isto é que Catão (234-149 a.C.), político Romano cognominado O Censor, apesar de ter sentido a necessidade de estudar Demóstenes e Tucídides para consolidar seus conhecimentos oratórios, acautelava seu filho dos perigos da literatura grega, aconselhando-o a "inspicere, non perdiscere". Segundo o mesmo Catão, para a instrução de um 'vir bonus', de um bom cidadão, o essencial era a oratória, a agricultura, o direito, a medicina e a guerra, o que estava em flagrante constraste com a cultura literária exigida pelos professores de gramática de seu tempo.

Foi exatamente neste época catoniana que o Senado Romano acolheu na Urbe os primeiros professores de gramática e retórica, expulsos da Ásia e do Egito por Aristônico e Ptolomeu Fiscon. Todos estes mestres ensinavam o grego. 

Mais tarde, os mestres romanos, substituindo os estrangeiros, continuaram a seguir os mesmos métodos e a usar a mesma língua dos primeiros, o grego. Enquanto, porém, nas aulas de gramática o grego e o latim começam a se revezar, nas aulas de retórica só se falava em grego. 
Na escola de gramática o autor preferido era Homero, cujo comentário e interpretação foram sempre matéria obrigatória durante muitas gerações. Depois, a "Odisséia" traduzida por Andronico para o latim, figurava ao lado dos textos gregos, embora não fosse considerada como de igual importância.

O Rhetor, por fim, era o mestre de retórica, a mais elevada das artes para o Romano, por ser mesmo o fim de toda educação. Enquanto a gramática habilitava o aluno a compreender a estrutura teórica do texto, a retórica estava destinada a habilitá-lo a produzir o texto em si como um todo. Era a escola de retórica de nível superior, último estágio do conhecimento pragmático do Romano.

O professor de retórica, segundo Quintiliano no A Formação do Orador, deve possuir algumas qualidades, como ser virtuoso e saber orientar o caráter do discípulo, saber discursar acerca do bom e do honesto, não possuir uma excessiva severidade, mas não deveriam ser negligentes. 

Paulo Barbosa

"PLAGOSUS" ORBILIUS, MESTRE DE HORÁCIO FLACO


Imagem de Orbílio Pupilo
LUCIO ORBÍLIO PUPILO nasceu em Benevento, na região da Campânia, Itália, em 112 a.C e faleceu em Roma, em 13 a.C.. Em tenra idade ficou órfão de pais - e pode ser que daí tenha vindo seu nome, pois contém a raiz ORB, do verbo latino ORBARE, ficar órfão ou privado do pai ou dos pais, e mais pupillus, que significa rapazinho, tutelado -, falecidos de morte violenta. Exerceu várias funções, chegando mesmo até ao ofício das armas, porém no ano 63 começou a ensinar a ars grammatica em Roma, ou seja, professou como grammaticus, professor secundário que ensinava as regras gramaticais para bem falar e escrever.

Como professor grammaticus estava Orbílio ainda ligado aos velhos métodos de ensino e aos velhos programas, de tal maneira que ainda impunha a seus alunos, e dentre estes o poeta Horácio (65-08 a.C.), a leitura da Odyssia de Lívio Andrônico, tradução latina da Odisséia de Homero, realizada em 240 a.C., ainda no período arcaico da língua latina, sem nenhuma padronização quanto a ortografia.

Seus alunos liam e copiavam a Odissya ao som de vergastadas quando erravam, conforme deixou consignado Horácio e Domício Marso, e este foi o motivo que o poeta o apelidou de PLAGOSUS ORBILIUS, que significa RUDE, BRUTAL ORBÍLIO, ou ORBÍLIO QUE MACHUCA, QUE DÁ BORDOADAS, pois em latim plaga - donde vem o adjetivo plagosus - é pancada, golpe, ferida, chaga, lesão. 

Por causa da excessiva punição aos alunos faltosos, foi Orbílio processado pelos pais destes e pelos próprios colegas de profissão, ao que desabafou com um livro cujo título se presta a várias traduções: PERIALOGOS, que segundo Suetônio se traduz por "O MUITO ESTULTO", como se o grammaticus se orgulhasse da acusação que estava sendo lançada contra ele pelos seus detratores; outra possibilidade é de ser traduzido como "O DOLORIDO" - como se o título original fosse PERI ALGÉS; enfim, outra ainda pode ser "SOBRE A DOR", tendo, então, sido o títuloPERI ALGEOS, talvez, caso tenha sido esse o título verdadeiro, se referindo à dor que causou a seus alunos através de suas vergastadas com a férula ou virga.

Viveu Orbílio quase cem anos, porém em extrema pobreza e afetado pela perda da memória, fato este que Fúrio Bibáculo celebrou em seus versos, segundo Suetônio, chamando-o de LITTERARUM OBLIVIO, tentando com isso identificá-lo como gramático inepto, defensor de arcaísmos, etc., etc.

Paulo Barbosa.

OS JOGOS NA ESCOLA ROMANA

A antiga pedagogia romana já revelava um espírito de observação sutil e perspicaz não só quanto aos interesses culturais, como também quanto aos interesses de caráter prático dotados de grande valor educacional. Como os didatas modernos, alguns pedagogos romanos eram de opinião de que nas horas de lazer tivessem os alunos uma ocupação condigna, porque tais horas representavam um ponderável elemento na economia da vida infantil. Aconselhavam por isto as distrações e os recreios que pudessem proporcionar algum proveito à formação moral e cultural dos alunos, retemperando-lhes o espírito pela mudança de atividade.

Julgavam os pedagogos romanos que os jogos eram um meio excelente de combater a tristeza e a melancolia, fatores estes que impedem uma boa disposição do espírito para o estudo. Preconizavam ainda brinquedos de maneira que, segundo Quintiliano, "nem a sua privação acarretasse aborrecimento do estudo, nem uma demasiada concessão para os mesmos, habituasse a criança à ociosidade".

Acreditavam, ainda, que alguns jogos serviam para aguçar o engenho do estudante e que a competição poderia dar margem à solução mesmo de certos problemas relacionados com as matérias estudadas. Viam ainda nos divertimentos um meio de se descobrir, às vezes, certas inclinações dos alunos, dando ensejo ao mestre de aproveitar as boas e corrigir as más. 

Paulo Barbosa

O SALÁRIO DO PROFESSOR ROMANO

Sestércio do tempo de Augusto

Os honorários do professor Romano, seja o "Litterator", o "Grammaticus" e o "Rhetor", eram pagos mensalmente, mas a quantia variava com o tempo, o lugar e a condição do mestre. Sabe-se, também, que o salário do professor primário nunca era elevado, a ponto de Horácio afirmar que, em sua cidade natal, qualquer criança tinha condições de pagá-los.

Mais tarde, no tempo do Imperador Diocleciano (244-311 d.C.), foram fixados um teto para os três níveis de mestres: o "Litterator" podia ganhar no máximo mensalmente cinquenta denários, equivalente a R$ 1,600,00 atuais; o "Grammaticus" podia chegar a duzentos denários, equivalente a R$ 6,400,00; e o "Rhetor" até duzentos e cinquenta denários, atuais R$ 8000,00.

Os bons professores de literatura e de retórica, no entanto, conseguiam obter maiores rendimentos. O gramático Remio Palemão, mestre de Quintiliano, ganhava em sua escola 400,000 sestércios por ano. O Imperador Vespasiano (9-79 d.C.) fixou o salário oficial dos rétores em 100,00 sestércios anuais. O erudito italiano Conrado Barbagallo assevera que foi Augusto quem estabeleceu tal estipêndio para o gramático Verrio Flaco, preceptor de seus dois netos Caio e Lúcio Agripa, a quem mandou que transferisse sua escola para a "Domus Catilinae", onde seus netos estudaram.

Quando os governantes permitiram que se instalassem escolas na cidade de Roma, a concorrência determinou a redução das mensalidades. Alguns mestres, então, preferiram fazer um contrato com os pais dos alunos para o pagamento anual, outros confiavam na generosidade destes e, quando não recebiam quotas elevadas, eram compensados com presentes em certas e determinadas épocas do ano. Desta maneira, no Quinquatrus, festas em honra de Minerva realizadas cinco dias após os idos de março, recebiam os mestres o "Minervale munus", presente de Minerva ou recebido nas festas desta deusa da razão e da inteligência; nas calendas de janeiro, ou seja, no dia 1 de janeiro, e segundo outros autores, em todos os primeiros dias de cada mês, recebiam o "Strena Kalendaria", presente que era tipo brinde para os mestres, e segundo alguns, chamado de 'strena' devido ao nome de uma deusa romana do mesmo nome; enfim, outras gratificações eram dadas aos mestres, em datas diversas, como no dia 22 de fevereiro, quando celebrava-se o dia da família, chamado de "Caristia" ou "Cara Cognatio" e no "Septimontium", festival romano dos sete montes, comemorado segundo alguns, em setembro, e segundo outros, em 11 de dezembro.

Paulo Barbosa

O ENSINO FUNDAMENTAL EM ROMA. ESCOLAS PRIMÁRIAS

PRIMEIRAS ESCOLAS: TABERNA OU PERGULA

Pérgula 
As primeiras escolas em Roma apareceram na vigência da República e estas não dispunham de edifícios próprios. Pode-se afirmar que a localização da escola, assim como da sala de aula, eram um verdadeiro atentado às mais comezinhas normas pedagógicas, pois se localizavam em um qualquer lugar disponível, como uma varanda contígua a uma taverna, ou um beiral aberto para a rua e apenas separado da via pública por uma cortina ou esteira. Este recinto de estudo era chamado "Taberna" ou "Pergula". 

Afrânio Peixoto, na História da Educação, diz que essas humildes escolas situavam-se na confluência das ruas, nos 'triviis, três caminhos', donde começaram a ser denominadas de 'triviales, triviais'.

O MOBILIÁRIO

O mobiliário era tosco e reduzido, não havendo mesas para os alunos, que sentados em bancos simples, pousavam sobre os joelhos suas tabuazinhas enceradas quando precisavam ler ou escrever alguma coisa. O mestre ocupava um assento mais elevado que se chamava "cathedra", cadeira do professor. Este assento repousava sobre um estrado ou palco chamado "pulpitum". Ao lado da "cathedra" do "magister", do mestre, havia um outro assento denominado "sella", onde se assentava o pedagogo assistente a que já vimos em anteriores artigos.

OS RUÍDOS DA RUA, A GRITARIA DO MESTRE

Não existia um sistema que interceptasse os ruídos da via pública nestas escolas, podendo bem se avaliar com quanto esforço de atenção deviam ter os alunos para ouvir as explicações do mestre ou com quanta dificuldade conseguiria, por sua vez, um mestre prender a atenção daqueles e motivar-lhes a aula. Foi por este motivo, pela tentativa de dominar os ruídos provenientes dos arredores da escola, que alguns poetas satíricos de Roma apresentam o mestre-escola  da Urbe como um "gritador". Marcial, poeta epigramático latino do século I d.C., alude a esta característica do mestre, referindo-se à tristeza que sente a criança quando chega à idade de trocar as brincadeiras da infância pelas atividades da escola, ao afirmar "jam tristis nucibus puer relictis clamoso revocatur a magistro" (Epigramas, Paris 1937). Em outra passagem, o mesmo autor narra que antes do canto do galo, já ressoa a voz do professor como um trovão, e que, tanto o professor quanto o padeiro, com os seus gritos, cerceavam aos Romanos o direito de viver em tranquilidade de manhã e à noite.

HORÁRIO ESCOLAR

O curso primário durava geralmente em torno de cinco horas. Jonh Sandys, em sua obra A Companion to Latin, Cambridge, 1938, diz que as aulas em Roma começavam habitualmente muito cedo, e que durante algum tempo, antes do canto do galo, saía o menino para a pérgula ou escola.

Se os pais do menino estudante eram ricos, possuíam um escravo para transportar a mochila cheia de livros e tabuazinhas enceradas. Este escravo era chamado "Capsarius", aquele que levava a "Capsa", a pasta escolar.
Se, ao contrário, eram pobres, os próprios alunos carregavam seu material escolar.

Em caminho para a escola, costumavam os meninos passar por uma padaria qualquer, onde compravam pães e doces que lhes serviriam de merenda. Voltavam para casa na hora do "prandium", retornando em seguida escola. A duração exata do dia escolar não é conhecida, sendo certo, porém, que passavam as crianças a maior parte do dia no colégio.

ESCOLAS MISTAS EM ROMA?

Não é certo que a co-educação ou sistema de escolas mistas - meninos e meninas na mesma classe - fosse adotado pelos Romanos, porém, talvez em alguns lugares, tivesse esse sistema educativo. É fato que em Cápua foi encontrada uma lápide do túmulo de um "litterator", um professor primário, em que aparecia o busto do mestre ladeado por um menino e uma menina. Disto, no entanto, apenas se pode concluir que meninos e meninas eram instruídos por um mesmo mestre, mas não obrigatoriamente ao mesmo tempo, na mesma classe.

Paulo Barbosa

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

A DISCIPLINA NAS ESCOLAS ROMANAS


Mestre castigando discípulo com a virga

A disciplina nas escolas romanas era severa, tanto nas primárias quanto nas secundárias. O instrumento regular da punição corporal era geralmente a palmatória ou vara, em latim ferula ou virga, que era aplicada em geral nas mãos. Um outro castigo mais severo era com açoite, em latim scutica, como aparece em um fresco de Herculano, antiga cidade romana na região da Campânia soterrada pelas cinzas do Vesúvio em 24 de agosto de 79.

É universalmente - não tanto assim, mas universalmente para os doutos - conhecido o professor Orbílio, de Horácio, poeta lírico e satírico romano, denominado "Orbilius plagosus" (Orbílio que dá bordoadas) e a seu respeito disse Suetônio, no seu De Grammatica, "Si quos Orbilius ferula scuticaque cecidit, Se Orbílio caiu sobre alguns com a palmatória e o açoite"...

Quintiliano, nas suas Institutiones Oratoriae, condenou com veemência tal processo de correção, diriam os modernosos, tal pelourinho pedagógico, como degradante e inútil, tecendo considerações de ordem moral e psicológica, como qualquer moderno pedagogo que reprova a penologia escolar. Para substituir os castigos corporais, preconizou a admoestação, o conselho pesuasivo, a vigilância do mestre que, se impondo aos alunos por um misto de bondade e energia, não precisaria usar da violência e do temor servil.

OS PRÊMIOS...

A concessão de prêmios, no entanto, era também praticada pelos romanos. Segundo o testemunho de Suetônio, Valerius Flaccus instituiu competições nas quais o vencedor, victor, recebia um prêmio. 

Quando a criança conseguia aprender todo o alfabeto, geralmente era recompensada com um jogo de letras de marfim, se seus pais tivessem posses, e caso contrário, recebiam doces, pastéis ou qualquer outro presente de menor importância.

Paulo Barbosa

A ARTE DA ESCRITA EM ROMA

Após a criança Romana conseguir ler com acerto, era iniciada na arte da escrita, encontrando então novas dificuldades em agrupar as letras em sílabas e estas em palavras, pois encontrava na aprendizagem da escrita os mesmos processos irracionais e retardatários adotados pela maioria dos mestres da época.

Algumas vezes, as letras eram modeladas em cera, outras vezes esculpidas em madeira. 

Quando começava a escrever propriamente, como o aluno não tivesse recebido anteriormente instruções sobre a maneira de manejar o estilete, sobre a posição da mão e a postura do corpo, tinha o mestre necessidade de tomar sua mão para ajudá-lo a seguir os contornos do modelo.

Deste processo resultava serem necessárias muitas aulas até que o aluno obtivesse a habilidade suficiente de, por si mesmo, executar a cópia das letras, conforme testemunha Sêneca nas suas Epistolae: "Pueri ad praescriptum discunt: digiti illorum tenentur, et aliena manu per litterarum simulacra ducuntur; deinde imitari iubentur proposita, et ad illa refomare chirographum".

Depois que haviam aprendido a reproduzir todas as letras do alfabeto,eram os discípulos obrigados a fazer repetidas cópias de máximas úteis, provérbios e sentenças que eram, em seguida, memorizados.

O exercício da memorização tinha, com efeito, grande importância na educação romana, na qual se aproveitavam os romanos inteligentemente da notável capacidade de retenção da memória infantil para confiar a esta um série de elementos indispensáveis à formação do que eles chamavam a "virilitas romana", que nada mais era senão a elaboração consciente da personalidade cívica e moral da futuro cidadão.

Acerca da escrita é interessante trazer aqui algumas normas, exaradas pelo grande Quintiliano em suas Institutiones Oratoriae, que no tempo eram aconselhadas ao professor primário, ao alfabetizador:

"O escrever com velocidade e bem é coisa digna de atenção, ainda que comumente seja desprezada por pessoas de posição";
"O principal exercício de gente de letras é escrever, mas se a pena anda lerda, serve de estorvo à imaginação, e se a letra é imperfeita e de má conformação, torna-se ilegível, sendo então preciso ditar-se o que tiver de ser copiado por outrem";
"Quando o menino começa a escrever, não perca tempo em copiar palavras vulgares e que ocorrem diariamente, mas, ao contrário, deverá copiar palavras raras e difíceis, para ir ao mesmo tempo conhecendo seu significado e aplicação";
"Desejaria que os versos, que fossem dados para cópia, não contivessem sentenças inúteis, mas sempre algo de útil, porque a recordação deste perdurará até a velhice";
"Fixando tais ensinamentos em um espírito despreocupado de outras ideias, serão de grande proveito para a formação dos costumes";
"Podem também, a título de diversão, aprender as sentenças de homens ilustres e trechos escolhidos, principalmente dos poetas, coisas estas que agradam muito àquela idade";
 "Nesta idade em que o menino não pode inventar nada, o exercício da memória, pela maneira indicada, é o único meio que resta ao professor para desenvolver o engenho do aluno".
Com certeza, a técnica moderna de leitura e de escrita não se negaria a endossar muitas dessas normas aconselhadas há mais de vinte séculos por um dos grandes precursores da ciência pedagógica.

Paulo Barbosa