sábado, 26 de outubro de 2019

OS 'PREDICÁVEIS' OU 'QUINQUE VOCES'

O homem pode conhecer as coisas que o rodeiam de duas maneiras, a saber, por desmembramento e por classificação.

Desmembrar é tomar uma unidade e dividi-la em seus componentes essenciais, tal como quando ao ensinar a alguém o conceito de 'homem' dizemos ser 'animal' e 'racional'. 

Classificar é organizar em grupos que possuem qualidades semelhantes. Aqui se procede, então, do seguinte modo em relação às ideias ou conceitos: 'animal' é gênero, ou seja, pertence aquilo que se denomina gênero. Aqui se atribui ao conceito universal 'animal' o conceito universal 'gênero'; 'racional' é espécie, pertence à classe do que se denomina espécie. Aqui se predica ao conceito 'racional' o conceito 'espécie'.

A classificação das ideias pode também se dar mediante três modalidades:

a) inclusão de uns conceitos em outros. Assim, o conceito 'animal' é incluído no conceito 'homem' - o homem é um animal.

b) complementaridade de noções. Desta maneira, as noções 'metal' e 'amarelo' é 'ouro'.

c) oposição de noções. A noção de 'visão' é oposta à de 'cegueira'.

Esses diversos e distintos modos de se atribuir um conceito universal a um sujeito se chamam predicáveis. Os predicáveis, portanto, são relações lógicas entre os conceitos, são atribuições a um sujeito de conceitos ou noções que permitem fazer uma distinção mental. E são cinco - por isso mesmo denominados de 'quinque voces' e não mais que cinco os conceitos que a inteligência humana pode predicar de um ser, distintos em predicáveis essenciais e acidentais.

Os Predicáveis Essenciais são três, a saber:

1. Espécie - é o conceito ou ideia que representa a essência completa de um indivíduo. Exemplos: quando digo 'racional', digo 'espécie' do gênero animal; 'gato', é 'espécie' do gênero animal; 'rosa', é 'espécie' do gênero planta; 'feldspato', é espécie do gênero mineral; 'mofo' é espécie do gênero fungo; 'bactéria', é espécie do gênero monera. A espécie é um todo e uma parte.

2. Gênero - é o conceito que indica uma parte da essência, ou seja, não a essência completa, total, e é comum a outras espécies. O gênero, portanto, se predica de todas as coisas que estão submetidas à sua abrangência. Exemplos: 'animal' é 'gênero' em relação a 'homem', a 'gato', a 'cachorro', etc.; 'planta' é 'gênero' em relação à 'rosa', ao 'copo de leite', ao 'arroz', ao 'feijão', etc; 'mineral' é 'gênero' em relação ao 'ouro', ao 'diamante', ao 'quartzo', ao 'cobre', ao 'cristal', etc.; 'fungo' é gênero em relação ao 'bolor', ao 'champingon', à 'levedura', à 'orelha-de-pau', à 'tinha', etc.; 'monera' é gênero em relação à 'bactéria', à 'cianobactéria', etc. O gênero é um todo.

3. Diferença Específica - é aquilo que caracteriza de maneira peculiar, própria, a espécie, fazendo com que se distingua das demais. É, em realidade, o conceito determinante do gênero, aquilo que divide o gênero em suas espécies. [ Deve-se observar que existem dois tipos de diferenças: . as intraespecíficas: aquelas que fazem duas coisas serem diferentes somente pela qualidade; . as interespecíficas: aquelas que fazem que as coisas sejam outras. É a esse segundo tipo que pertence a diferença específica.] Exemplo: 'racional' é a diferença específica na definição de homem: animal racional. Toda definição real se faz pelo gênero e diferença específica.


Os Predicáveis Acidentais são dois, a saber:

1. Propriedade - é o conceito indicativo de algo ou alguma qualidade que não pertence à essência, mas que deriva necessariamente dela ou a tem por base. Exemplo: a 'faculdade de rir' é uma propriedade do ser humano. 

Há quatro espécies de propriedades:

a) quod convenit omni et soli, sed non semper = a que convém a todos os homens e somente aos homens, mas nem sempre está presente. Exemplo: 'encanecer'

b) quod convenit soli sed non omni = a que convém somente aos homens mas não a todos. Exemplo: 'ser médico'.

c) quod convenit omni sed non soli = a que convém a todos os homens, mas também às outras espécies. Exemplo: 'ser bípede'.

d) quod convenit omni et soli et semper = a que convém a todos os homens, somente aos homens e sempre está presente. Exemplo: 'a risibilidade'.

Porfírio diz ser esta última a propriedade por excelência, pois, somente nesta o sujeito e o atributo podem intercambiar-se.

2. Acidente - é o conceito que atribui uma característica a um sujeito, mas que não deriva necessariamente de sua essência. O acidente pode, portanto, aparecer e desaparecer sem que o sujeito se destrua. Exemplo: 'ser justo' em relação ao homem ou 'ser músico', etc. Este predicável é também denominado acidente lógico.

Notemos duas coisas, enfim:

As propriedades são acidentes que nos abrem caminho para chegarmos à essência das coisas, o que quer dizer que são necessárias, são decorrências naturais da essência.

Os acidentes lógicos, por sua vez, são dispensáveis à essência, ou são o propriamente acidental, contingencial das coisas, porém, distinguem os indivíduos entre si.

Paulo Barbosa

sábado, 14 de setembro de 2019

MANEIRISMO, ESTILO ARTÍSTICO DE UMA ERA TURBULENTA

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"O Enterro do Conde de Orgaz", El Greco

MANEIRISMO é o nome do estilo artístico surgido nos séculos XVI-XVII, na Itália, no período que mediou entre a Renascença e o Barroco. Devido às transformações profundas que a sociedade de então passava -  religiosa, política, econômica e social - uma estética extraviada, que fugia dos moldes canônicos, também se construiu, haja vista a arte ser uma cosmovisão posta em símbolos. 

Como se pode notar no "O Enterro do Conde de Orgaz", o estilo maneirista se caracteriza pela dissonância, rejeitando, assim, a harmonia, tão presente na arte clássica e renascentista. Os corpos são distorcidos, deformados e alongados e a iluminação é irreal. As emoções intensas estão presentes, mostrando, desta maneira, a grande turbulência do tempo, os pecados do clero reinante, as vendas de indulgências e todos os erros teológicos da igreja imperante de então, erros que motivaram a Reforma Protestante com o fito de restaurar a simplicidade do Evangelho de Cristo.

Obs: Gonzalo Ruiz de Toledo, conhecido como Senhor Orgaz, viveu no século XIV, tendo falecido em 1323, e era uma personagem ilustre da cidade de Toledo, Espanha. Seu enterro foi eternizado por Doménikos Theotokópoulos, artista grego conhecido por El Greco.

Paulo Barbosa

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

ADORAR, UMA PALAVRA CURIOSA

ADORAR é uma palavra de origem e história curiosas, tendo o verbo latino adorare aparecido em cena desde o ano 450 a.C. nas afamadas Leis das XII Tábuas. O significado original, primário, foi o de 'dirigir a palavra a alguém, interpelar', haja vista ser composto dos seguintes elementos léxicos:

    ad = prefixo que significa 'para, a';

   orare = verbo latino que significa 'dizer, falar, pronunciar, discursar como orador, suplicar'. 

Com o correr do tempo, entretanto, passou também a significar 'implorar com orações aos deuses, dirigir súplicas a eles', e é com este sentido que aparece no escritor latino Suetônio, nos séculos I-II d.C., usado para descrever a prosternação e a rendição de culto às divindades, desenvolvendo-se, daí, mais tarde, o valor metafórico de venerar, honrar, amar a uma pessoa, pátria, ou virtudes.

Os gramáticos romanos afirmavam ser o verbo orare denominativo de os, oris (boca), porém, estudiosos atuais cogitam ser etimologia popular por 'orare' estar presente em grupos de palavras ocorridos no grego e no sânscrito e relacionados com a ação de pronunciar palavras de caráter solene e público, matiz este detectado no verbo latino desde seu nascimento.

Paulo Barbosa

terça-feira, 10 de setembro de 2019

O HEPTÂMETRO DE QUINTILIANO, FERRAMENTA PARA ELUCIDAR FATOS

CIRCUNSTÂNCIA é uma palavra proveniente do latim formada pelas seguintes partes:

    Circum, prefixo latino que significa 'ao redor';

    Stare, verbo latino que significa 'estar parado, estacionado, estar colocado, estar em pé firme';

    Nt, sufixo indicativo de agente;

    Ia, sufixo indicativo de qualidade.

Significa, portanto, circunstância, a qualidade (ia) do agente (nt) que está parado (stare) ao redor (circum).

Esta qualidade - chamada circunstância - modifica a ação de um sujeito, ou seja, está parada ao redor de uma ação, possuindo, destarte, a capacidade de em relação à tal ação voluntária de uma pessoa aumentar ou diminuir a sua bondade ou maldade e até mesmo alterar a sua natureza de boa para má. 

Algumas são, pois, as circunstâncias ou qualidades que, companheiras de uma ação dada, conseguem apurar de maneira lúcida, caso respondidas, o fato decorrente desta ação. Tais circunstâncias, quais ferramentas de apurar fatos, são denominadas de Heptâmetro de Quintiliano, usadas em formas interrogativas para evidenciar ou esclarecer alguma ocorrência. Ei-las:

    "quis" = quem agiu para produzir tal fato? 

    "quid" = o que foi produzido? - compreendendo sua qualidade e quantidade.

    "ubi" = onde foi o lugar da ação?

    "quando" = em que tempo foi realizada a ação?

    "quibus auxiliis" = quais foram os meios empregados na ação?

    "quomodo" = como a ação foi produzida? com advertência e consentimento?

    "cur" = o que motivou o agente a realizar a ação?

A resposta, então, a essas 7 perguntas, que são circunstanciais de toda ação, elucida qualquer fato ou ocorrência. A pessoa, o fato, o lugar, o tempo, o meio, o modo e os motivos são propostos em forma de perguntas diante de qualquer ação praticada, chegando-se, assim, ao serem respondidas corretamente, reafirmo, ao resultado final, esgotando, portanto, o assunto.

Paulo Barbosa

sexta-feira, 5 de julho de 2019

APETITES SENSITIVOS NO HOMEM

APETITE é palavra proveniente do latim, appetitus, do verbo appetere, que significa tendência ou força que se dirige para algo. Pois bem, os homens possuem aquilo que se denomina Apetite Sensível, a saber, inclinação voltada para as formas que o conhecimento sensível - aquele que resulta da ação dos objetos sensíveis sobre os sentidos - apreende como bens ou como formas boas.

Há, entretanto, duas espécies de apetites, o concupiscível e o irascível.

Apetite Concupiscível, também denominado Desejo, é a atração que sentimos pelos bens desejáveis quando os conhecemos através dos nossos sentidos. O oposto a isso é a Aversão por tudo aquilo que nossos sentidos conhecem como indesejáveis ou destrutivos. 

Os sentimentos pertencentes a esta espécie de apetite são: Amor ou Ódio; Desejo ou Fuga; Alegria e Tristeza. Em tais sentimentos, conhecemos sensivelmente as coisas e, conforme se nos apresentam, atrativas ou repulsivas, as amamos ou odiamos, as desejamos ou fugimos, nos alegramos ou nos entristecemos. 

Esta espécie se chama concupiscível por sua busca, inclinação ou aversão serem sem nenhum esforço da parte do homem.

Apetite Irascível, também chamado Impulso, é a atração que o homem possui pelos bens árduos, difíceis, devido ao conhecimento dos valores existentes nesses bens, valores perenes, conhecidos através da estimativa ou do pensamento valorativo humano. O oposto da atração é a Aversão ou Fuga dos males difíceis de serem evitados.

Os sentimentos pertencentes a esta espécie de apetite são: Esperança ou Desespero; Medo ou Audácia; Cólera. Nestes sentimentos somos atraídos por algo que possui valor, mas que ainda não o temos, como na esperança, ou desistimos, perdendo a esperança, quando nos sentimos impotentes para alcançar tal bem. Ante algo que nos ameaça, tememos, ou tentamos destruí-lo com ousadia. E contra aquilo que nos contraria nos insurgimos com fúria ou ira desmedida.

Esta espécie se denomina irascível por causar no homem certo arroubo ou paixão na consecução ou desistência do bem.

Paulo Barbosa

sábado, 18 de maio de 2019

FIGURAS DE PALAVRAS NA BÍBLIA

[Publico aqui um plano de aula do Curso de Humanidades que ministro com o fito de aproveitamento por maior números de pessoas].


CURSO DE HUMANIDADES

Paulo Barbosa
Ano: 2019

ESTILÍSTICA

Figura de linguagem são aspectos assumidos pela linguagem com o propósito de expressividade, ou seja, chamar a atenção do público a quem é dirigida. Quando presente a figura, há afastamento do valor linguístico original, denotativo, normalmente aceito. 

Há três espécies de figuras: 1. de palavras ou tropos; 2. de sintaxe; 3. de pensamento.

Aqui somente as figuras de palavras serão estudadas, isto é, aquelas figuras que desviam as palavras de seu significado original, normal.

FIGURAS DE PALAVRAS

1. Metonímia / Sinédoque:

a) Substituição entre palavras de significação correlata, de modo que uma evoca a outra.
b) Substituição de um termo por outro de extensão desigual.

"Vinde, firamo-lo com a LÍNGUA" (Jr. 18,18).

"Não podeis beber o CÁLICE do Senhor" (I Cor. 10,21).

"Os seus PÉS correm para o mal" (Sl. 139,2).

"O PÃO nosso de cada dia dá-nos hoje" (Mt. 6,11).

2. Comparação ou Símile:

Cotejo de dois seres e ou objetos destacando-se as suas semelhanças, características ou traços comuns de maneira explícita, ou seja, mediante o uso de partículas comparativas: como, tal qual, assim, quanto, que nem, feito, parece, etc.

"Será COMO a árvore plantada junto a ribeiros de água;

Os ímpios são COMO a moinha que o vento espalha" (Sl. 1,3-4).

"Eu vos envio COMO cordeiros para o meio de lobos" (Lc. 10,3).

"Toda carne é COMO a erva" (1.Pe. 1,24).

OBS: além desta comparação assimilativa há ainda a comparação gradual, por grau implícito (usando: muito, pouco, grande, pequeno; diminutivos; aumentativos; verbos iterativos) ou explícito (usando: mais, menos; acima, abaixo, antes, depois).

3. Metáfora:

Translação de sentido fundada na semelhança entre ideias. Por este modo, pode-se afirmar de maneira inconfundível que uma coisa é outra.

"Pois o Senhor Deus é SOL e ESCUDO" (Sl. 84,11).

"Ele é meu REFÚGIO e minha FORTALEZA" (Sl.9,12).

"Vós sois o SAL da terra" (Mt. 5,13).

"Eu sou a PORTA" (Jo. 10, 9).

"Eu sou o CAMINHO" (Jo. 14, 6).

4. Catacrese:

É a aplicação de um termo figurado a algo por falta de um termo apropriado, porém com o esquecimento da significação primitiva da palavra que passa a exprimir conceito diverso do original. É uma metáfora desgastada que se torna consagrada pelo uso frequente.

"E saía um rio do Éden para regar o jardim e dali se dividia, repartindo-se em QUATRO BRAÇOS" (Gn. 2,10).

"E tomou a mulher a tampa, e a estendeu sobre a BOCA DO POÇO, e ESPALHOU grão descascado sobre ela; assim nada se soube" (II Sm.17, 19).

"São estes, ó Israel, os teus DEUSES, que te tiraram da terra do Egito" (Ex. 32, 4).

5. Antonomásia ou Perífrase:

É a metonímia que consiste em substituir o nome próprio por outro nome ou por uma expressão ou frase que dê a entendê-lo.

"Disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós outros" (Ex. 3,14).

"Vós, porém, negastes o SANTO e o JUSTO e pedistes que vos concedessem um homicida" (At. 3, 14).

"Estendeu ela a sua ramagem até ao MAR" (Sl. 80,11).

"E por um PROFETA Deus fez subir Israel do Egito" (Os. 12,13).

"O ALTÍSSIMO"; "O SENHOR" (Mt. 21,3); "O MESTRE" (Mt. 26,18); "O FILHO DO HOMEM", etc.

6. Sinestesia:

É a união de termos que expressam diferentes percepções sensoriais. Nesta figura há uma mescla numa mesma expressão de sensações percebidas por diferentes órgãos dos sentidos, tipo em 'um GRITO ÁSPERO', onde grito refere-se ao ouvido e áspero ao tato.

"E todo o povo VIU os trovões" (Ex. 20,18).

"Deixa-me ouvir tua voz; tão DOCE a tua voz" (Ct. 2,14).



quarta-feira, 15 de maio de 2019

CONECTIVOS NAS SUBSTANTIVAS INFINITIVAS LATINAS

O conectivo vem oculto e o sujeito vai para o acusativo nas orações substantivas infinitivas em que entram os verbos saber, conhecer, pensar, sentir, dizer, perceber e semelhantes:

Legati dixerunt reliquos omnes Belgas in armis esse (César, B.G. II, 3).

Os embaixadores disseram QUE todos os Belgas restantes estavam em armas.


Entretanto, o conectivo vem expresso e o modo é o subjuntivo quando os verbos são rogar, pedir, querer e seus contrários:

Obsecro UT attentes bona. 

Peço-te QUE procedas bem.

Paulo Barbosa

A MORFOLOGIA DO CARDINAL 'UNUS'

A morfologia do numeral cardinal UNUS provém de uma antiga forma - οinos -, correspondente ao grego οινος (oinos). 

Νο período arcaico da língua latina era muito comum o ditongo οι, como, por exemplo, em comoine em vez de communem (comum), oinvorsei em lugar de universi. Entre as formas oinos e unus ainda existiu a intermediária oenus.

O renomado latinista Henri Goelzer observa que em Lucílio, satirista latino do século II a.C., aparece a forma noenu como contração de ne oenum, ou seja, ne unem = nenhum.

Não confunda, porém, a forma arcaica do cardinal com o substantivo οινος, vinho.

Paulo Barbosa