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terça-feira, 6 de julho de 2021

DISSERTAÇÃO, UM TIPO TEXTUAL

 DISSERTAÇÃO é o desenvolvimento de um pensamento, de uma tese, de uma opinião, de uma experiência ou de uma verdade teórica por meio do raciocínio, ou seja, da análise e síntese que chegam a uma conclusão. De todos os tipos textuais, de todos os exercícios de composição, é o mais complexo, o mais difícil, e também o mais importante, pois entra em todos os assuntos, podendo ser científica, filosófica, doutrinária, moral, pedagógica, legislativa, etc.

Requisitos da dissertação. Além das qualidades gerais que deve possuir um estilo - correção, concisão, naturalidade, variedade, elegância, harmonia -, a dissertação deve apresentar outras duas:

1. o rigor das definições. Por esta se dá a conhecer uma coisa expondo a sua natureza com grande exatidão, distinguindo-a das demais do mesmo gênero através das circunstâncias e qualidades que lhe são próprias e lhe constituem a diferença. 

2. a lógica da exposição. Os argumentos devem estar sempre concatenados metodicamente.

Evolução da dissertação. Esse tipo textual é o estilo mais antigo, pois o homem antes de referir aspectos e fatos teve a necessidade de argumentar, de expor suas análises, de defender suas ideias e divulgá-las em seguida. Pode-se afirmar mesmo que a narração e a descrição são mais ou menos facultativas enquanto a dissertação obrigatória, se impondo. Os textos mais remotos historicamente são os códigos, dissertação legislativa.

Em português a dissertação aparece nos séculos XIII e XIV com os forais, cartas régias que concediam privilégios a terras, corporações ou indivíduos. A Regra de São Bento, do século VI, conjunto de preceitos regulatórios de mosteiros beneditinos, é tipo de dissertação doutrinária e moral. A Arte de Bem Ensinar a Cavalgar ou Ensinança de Bem Cavalgar Toda Sela, do século XV, de autoria do rei português Dom Duarte I, um dos manuais mais antigo sobre hipismo, é modelo de dissertação pedagógica, assim como pedagógica é a Gramatica da Lingoagem Portuguesa, de Fernão de Oliveira, frade e gramático do século XVI, e a de João de Barros. Corte na Aldeia, do século XVII, obra em forma de diálogo que dá preceitos de vida na corte, de autoria de Rodrigues Lobo, é modelo de dissertação filosófica. Enfim, exemplar de dissertação científica são os Colóquios dos Simples e Drogas, do século XVI, tratado de medicina da autoria de Garcia da Orta, naturalista, médico português e pioneiro da medicina tropical.

A dissertação em Bernardes e Rui Barbosa. Manuel Bernardes, século XVIII, um dos maiores clássicos da prosa portuguesa, diferentemente do estilo discursivo dos antigos - estilo difuso pelo excesso de subordinação e acumulação - dissertava com clareza graças à sua concisão, sendo seu vocabulário muito rico e sempre apropriado, preciso, conferindo, portanto, singeleza, colorido e graça aos seus textos. Bernardo diz o que pensa direta e rapidamente, características da concisão, não se perdendo em rodeios como os seus antecessores.

Rui Barbosa, séculos XIX-XX, destacado advogado, filólogo e orador brasileiro, deve ser distinguido nos vários estilos que usou:

a) estilo polemista - predominante no seu jornalismo, onde se destacam os processos vigorosos como as antíteses, a adjetivação viva ou exagerada, as frases curtas e as coordenações.

b) estilo parlamentar - como no Ensaio Sobre Carlyle, Cartas da Inglaterra, a fraseologia é mais ornada, bem feita, com períodos harmoniosos e efeitos para o público como as acumulações ternárias.

c) estilo doutrinário - onde Rui usa de uma exposição calma, equilibrada, rica de vocabulário e metáforas.

d) estilo didático - de perfeita clareza e concisão, como se encontra na Réplica.

Paulo Barbosa

sábado, 3 de julho de 2021

NARRAÇÃO, UM TIPO TEXTUAL

 NARRAÇÃO é o tipo textual  em que se encontra uma animada pintura da vida humana, uma verdadeira sequência de fatos ou episódios sobre alguém. É mais do que a simples descrição na ordem crescente de complexidade e dificuldade.

Diferença entre descrição e narração. A descrição faz ver um objeto, uma pessoa, uma paisagem, até mesmo um ato, porém, não penetrando na sua essência, no seu íntimo, não conhecendo o seu fator psicológico, a sua causa. Já a narração deve fazer tudo isso que se omite na descrição, deve manifestar o estado de espírito, os sentimentos, a profundidade da alma, produzindo, por assim dizer, uma verdadeira sequência de atos humanos.

Evolução da prosa narrativa. Entre os gregos e romanos esse tipo textual teve pouca importância, pouco desenvolvimento, mas o encontramos, todavia, nas fábulas de Esopo, nos apólogos míticos e filosóficos de Platão, na História de Alexandre Magno por Quinto Cúrcio. Na Idade Média, aparecem os ciclos romanescos de Carlos Magno e seus pares, de Artur ou da Távola Redonda. No século XVII, a poesia bucólica começa a ser narrativa. No século XVIII, surge o romance de costumes, narração filosófica, péssima e perversa nas mãos de Voltaire, histórica e pesada com Marmontel, idílica e pastoral com Bernardin de Saint Pierre em "Paulo e Virgínia". No século XIX, a narração reveste todas as formas, investe em todos os campos, se torna presente em todos os desvarios políticos, morais e religiosos, porém, a sua técnica se apura. No século XX, alcançou o mais alto grau de perfeição.

As mais antigas narrações em português. Em português, as obras mais antigas em prosa narrativa são os denominados Nobiliários ou Livros de Linhagens, que são os registros e as crônicas da aristocracia lusitana. Encontra-se também no Fabulário conhecido como Livro de Esopo do século XIV.

A narração dessa época é caracterizada pela infantilidade da prosa, por períodos construídos com acúmulos de orações coordenadas continuamente presas pela conjunção e e a prosa se limitava a transmitir pura e simplesmente o modo de falar popular sem nenhum adorno literário.

A esse período se segue a chamada Escola Espanhola, que vai de 1383 a 1521, época dos cronistas nomeados pelos reis para escrever os feitos do reino. As crônicas, escritas por homens ilustrados, já possuem todo um trabalho literário. Em vez de construção simplista, de orações coordenadas, prepondera a construção latina, com períodos plenos de subordinadas. Fernão Lopes, pai da historiografia portuguesa, é o mais singelo da Escola por ser mais chegado ao modelo popular. Já Rui de Pina, diplomata e cronista português, produz períodos em que as subordinadas se sobrepõem de tal modo que se torna com muita frequência incompreensível e indigesto. Eanes de Zurara também abusava das construções subordinadas.

A Escola Quinhentista sucedeu à Espanhola, influenciada pela Renascença italiana. O estilo torna-se ornado, os escritores estudam a fundo a retórica de Cícero e imitam o estilo dos prosadores latinos. Até as mulheres estudam latim e grego, como Paula Vicente e outras. Entre os cronistas desta época sobressaem João de Barros com as "Décadas", concluídas por Diogo do Couto, e Fernão Lopes de Castanheda. Portugal lança-se ao mar fazendo-se descobridor de novas terras, aparecem viajantes com suas narrações de viagens. Fernão Mendes Pinto é um dos que se avulta no gênero. A prosa dos escritores é sincera e desperta interesse, pois narram o que viram e ouviram. Surge também a crônica pessoal com Bernardim Ribeiro, autor de "Menina e Moça", primeiro ensaio de prosa de romance, sempre com inclinação para o período subordinado.

A Escola Gongórica, século XVII, possui uma prosa narrativa cheia de afetação e, muitas vezes, com excesso de cultismos. Frei Luiz de Sousa se faz notável entre os historiadores ainda não contaminado e cuja expressão é bastante pura, sem floreios. Jacinto Freire de Andrade, pelo contrário, é exímio exemplo de afetação e ornamentos em sua "Vida de Dom João de Castro". Padre Manuel Bernardes, embora não abandonasse de todo o cultismo, é um narrador de gênio, narrando sobretudo milagres e lendas com uma prosa entre a clássica e a moderna onde se encontram as qualidades de concisão, clareza e precisão invulgares.

A Escola Romântica, nos séculos XVIII e XIX, cria um outro estilo narrativo, deixando de lado os períodos subordinados e o estilo indireto. Torna-se uma produção concisa e rápida, com a composição predominando mais pela coordenação do que pela subordinação. O novo estilo vai em busca de termos de reforço, procurando intensificar os fatos e dando vida às personagens. Se nas narrativas antigas os fatos se sucediam, nessa moderna, são as personagens que se sucedem realizando os fatos. No fundo, a escola romântica substituiu quase a narração por uma descrição com aspectos movimentados, sendo esse o característico da prosa narrativa de nossos dias nos romances e nas novelas.

Paulo Barbosa

sexta-feira, 2 de julho de 2021

DESCRIÇÃO, UM TIPO TEXTUAL

 A DESCRIÇÃO pode ser definida como a representação, a exposição, por meio da palavra oral ou escrita, dos aspectos de um ser. É, no fundo, uma sequência de aspectos. 

Três podem ser sua espécie: de interior, de paisagem e de indivíduo.

Exemplo da primeira podemos ver na seguinte descrição de uma casa nova:

"... Morava em uma casa nova, bem coberta de telhas coloniais, com esteios e portas de madeira lavrada e paredes bem ornamentadas por dentro e por fora".

Exemplo de descrição de paisagem sobre o céu:

"... De fato, para os lados de Ouro Preto, havia nuvens acasteladas entre os morros vagamente ameaçadoras na sua cor acinzentada e triste. Um gavião começou a circular por cima da mata, com preguiça, dois tucanos principiaram de uma banda a outra da estrada um diálogo em voz rachada e enfadonha, e o sol teve sombras intermitentes a cobrirem-lhe a face esfogueada".

Exemplo de descrição de indivíduo sobre um desembargador:

"Desembargador. Um metro e setenta e dois centímetros, culminando na cabeça calva todos os pensamentos nobres, desinteressados, equânimes. E o fraque? O fraque austero como convém a um substituto profano da toga. E os óculos? Sim, os óculos. E o anel de rubi? É verdade, um rutilante anel de rubi. O tronco levantado, os ombros horizontais, os braços a prumo. Que carrega na mão direita? A pasta. A divina Têmis não se vê. Mas está atrás. Naturalmente. Sustentando sua balança. O desembargador Lamartine de Campos. Aí vem ele. Paletó nobre, colarinho alto".

Modos de fazer uma descrição. A representação dos aspectos pode se fazer de três maneiras:

1. pela simples menção de todos eles, verdadeiro elenco do conjunto das qualidades de um ser.

2. seleção dos aspectos mais nobres, mais característicos.

3. intensificação dos aspectos na cor, na sombra, com variadas imagens, etc.

Evolução histórica do estilo descritivo. Homero, poeta épico da Grécia Antiga que viveu por volta do século VIII a.C., é o modelo incontestável do estilo descritivo. A seguir, os autores clássicos latinos começaram a imitar as obras-primas dos gregos, porém, sabendo imprimir uma originalidade própria. Camões (1524-1580) usou a descrição poética imitada de Homero e Vergílio, mas como processo independente. Padre Antônio Vieira (1608-1697) produziu célebres descrições em seus sermões, como a do polvo e a da estátua. No século XVIII, era do arcadismo, a descrição de paisagem torna-se sistemática, procurada, independente da narração, mas sempre imitação de Vergílio. Os tipos são geralmente retratos quase sempre satíricos. As descrições são gerais, como se pode constatar no soneto da tempestade de Gregório de Matos e em várias églogas de Bocage. No século XIX esse estilo foi aperfeiçoado por Chateaubriand (1768-1848), escritor e ensaísta francês, ao criar a descrição colorida com intensificação dos aspectos por meio da seleção, da metáfora e da comparação. No século XX nasce a descrição realista, impressionista, verdadeira, por assim dizer, que consegue produzir efeito análogo ao do pintor com as cores de sua paleta, representando o objeto material de modo que se perceba pelos olhos da imaginação. Flaubert (1821-1880) culminou na França com essa modalidade descritiva. No Brasil, a descrição local se inicia com Castro Alves (1847-1871), poeta brasileiro, baiano, que em sua obra póstuma "Os Escravos" descreve saborosamente a cachoeira de Paulo Afonso. Depois, segue-se Olavo Bilac e Euclides da Cunha em "Os Sertões".

Paulo Barbosa