domingo, 20 de junho de 2021

PARALOGISMO E SOFISMA

 PARALOGISMO E SOFISMA são raciocínios falsos, argumentos viciosos e sutis, conclusões mal deduzidas ou em contradição com as regras da lógica. Entretanto, embora os dois induzam ao erro, há diferenças entre eles que passaremos a analisar.

O paralogismo peca contra as regas lógicas produzindo argumentação errada por ignorância, por falta de conhecimento ou por carência de aplicação, cuidado, zelo no raciocinar. Como vimos, aqui se transgride as regras do bem raciocinar por falta de conhecimento, enganando, levando ao erro, portanto, de boa fé.

O sofisma, por sua vez, induz ao erro por malícia, com conhecimento de causa, através do uso de sutilezas e artifícios mal intencionados. No sofisma existe oposição à retidão da intenção, ou seja, há no sofista má intenção, interesse explícito em enganar e iludir ao próximo. 

Enfim...

No paralogismo se produz raciocínio falso por desconhecimento das regras lógicas do raciocínio correto. Não há vontade em enganar ao próximo. 

No sofisma se produz raciocínio falso por saber e querer enganar e iludir ao próximo. Há uma explícita e desejada oposição à intenção correta. Há má intenção.

Paulo Barbosa



SOLECISMO OU DESVIO SINTÁTICO E LÉXICO

 SOLECISMO é palavra de origem curiosa, proveniente do grego 'sóloikos" - bárbaro, que fala mal e contra as regras gramaticais -, daí surgindo o verbo 'soloikizo' - falar incorretamente, faltar ao emprego das regras da língua. Pesquisadores derivam 'sólokois' e 'soloikizo' do nome próprio 'Sóloi", Solos, uma cidade da Cilícia, na Ásia Menor, mui antiga colônia de povos provenientes de Argos, cujos habitantes misturados com os nativos falavam um grego totalmente deformado e corrompido.

Solecismo, pois, é todo erro, toda falta cometido na sintaxe ou no léxico. É quando há uma invasão na norma culta com construções sintáticas que destoam da mesma, tais como erros de concordância, de regência, de colocação e a má construção de um período composto. Vamos aos exemplos:

1. Haviam muitas moças na casa em vez de: havia muitas moças na casa.

2. Fazem três dias que Maria viajou em vez de: faz três dias que Maria viajou.

3. Hão de me obedecerem em vez de: hão de me obedecer.

4. Custei muito a encontrá-lo em vez de: custou-me muito encontrá-lo.

5. Não lhe passou desapercebido o evento em vez de: não lhe passou despercebido o evento.

6. Preferir antes fazer uma coisa do que outra em vez de: preferir fazer uma coisa a fazer outra.

7. Não saia sem eu em vez de: não saia sem mim.

8. Entre eu e ele em vez de: entre mim e ele.

9. Entre vós e eu em vez de: entre mim e vós.

10. Entre João e eu em vez de: entre mim e João.

11. Não crede em vez de: não creiais.

12. Não suponde em vez de: não suponhais.

13. Homem intemerato em vez de: homem destemido.

14. A gente vamos para a rua em vez de: a gente vai para a rua.

15. Essas moças são inteligente mesmo em vez de: essas moças são inteligentes mesmo.

16. Meus vizinho são muito barulhentos em vez de: meus vizinhos são muito barulhentos.

17. Sobrou muitas frutas em vez de: sobraram muitas frutas.

18. Hoje assistiremos o filme em vez de: hoje assistiremos ao filme.

19. Me empresta a caneta? em vez de: empresta-me a caneta?

20. Adevogado em vez de: advogado.

21. Previlégio em vez de: privilégio.

22. Abisolutamente em vez de: absolutamente.

Enfim...

O solecismo é um vício de linguagem que dificulta ou desvirtua a clara manifestação do pensamento do orador produzido por um defeito na construção sintática ou no léxico que pode provir da ignorância ou do descuido.

Paulo Barbosa

sábado, 19 de junho de 2021

REDAÇÃO, EM QUE CONSISTE. HISTÓRIA DO VOCÁBULO.

 REDAÇÃO é vocábulo que vem do latim 'redactio' que por sua vez provém do verbo latino 'redigere'. Tal verbo - redigere - referia-se primitivamente a 'ação de recolher materiais para uma construção' e ao 'ato de empilhar lenhas para fazer uma fogueira'. Dessas duas acepções originárias, redigir ou 'redigere', passou a significar 'por em ordem, ordenar' tais materiais e, mais tarde, 'por em ordem as palavras de uma obra escrita'. 

Chegando, portanto, à ultima acepção, redigir é sinônimo de escrever ordenadamente, colocando as palavras bem dispostas e harmoniosamente no texto, ou seja, redigir é escrever bem. 

DOIS PILARES DA REDAÇÃO

Para se escrever bem, entretanto, são necessárias duas profundas qualificações no escritor sem as quais não poderá haver bela escrita, ou seja, não haverá uma produção íntegra, harmoniosa e clara. Para se redigir são necessários:

1º. conhecer muito bem o idioma, a língua em que se escreve. 

2º. conhecer, sentir e dominar em profundidade o assunto ou tema sobre que se redige.

São nesses dois fundamentos ou colunas em que se constrói toda e qualquer obra literária, só existindo redação firmada neles. E como se consegue ambos fundamentos?

O primeiro fundamento da redação, o conhecimento exímio do idioma, é adquirido mediante o estudo acurado da gramática e do vocabulário do idioma em que se vai redigir. E o vocabulário de uma língua se assimila com a leitura dos melhores autores.

A segunda coluna da redação, o conhecimento e domínio do assunto, é conseguida somente através da educação - formação humana -, da informação dos fatos ocorridos no mundo e da experiência. Eis os elementos necessários para se escrever com correção, proporção e claridade.

Resumo:

Gramática

Vocabulário

Primeiros passos para se redigir bem, o conhecimento profundo do idioma.

Educação

Informação

Experiência

Elementos necessários para conhecer e dominar os temas ou assuntos de uma redação.


Paulo Barbosa

segunda-feira, 20 de julho de 2020

PERSEGUIR O 'BIOS TEORETIKÓS', UM ELEVADO IDEAL HUMANO

Bios theoretikós - vida contemplativa - é o que Pitágoras (570-490 a.C.) ensinava ser o ideal mais elevado para o homem, suplantando, portanto, a vida ativa, a ação criadora de coisas e eventos. Ao homem, cabe-lhe primariamente contemplar, composto que é de inteligência e vontade, faculdades superiores e distintivas deste ser tão nobre na cadeia animal. 

Assistir, observar e contemplar são as três ações constitutivas da inteligência teórica, mais excelentes, segundo o filósofo de Samos, do que participar, agir e vivenciar, ações formadoras da práxis, da inteligência prática. Mais vale, portanto, dentro dessa perspectiva, ser um espectador em um jogo de futebol do que ser o atleta que participa e age em campo. Eis, enfim, a diferença entre o sábio e o homem de ação.

Paulo Barbosa.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

ASPECTOS MORFOLÓGICOS I: CLASSES DE PALAVRAS

MORFOLOGIA é a segunda parte da Gramática. A primeira é a Fonética, que estuda os sons da voz humana enquanto processo de formação, e a terceira é a Sintaxe, que estuda as palavras combinadas.

A Morfologia estuda:

a) a estrutura interna das palavras;

b) todos os elementos formadores de qualquer natureza que constituem as palavras;

c) todo o constituinte que configura a forma de uma palavra.

Como seu nome indica, morfologia é o estudo (logía) das formas (morfé).

A Morfologia trata das palavras em três níveis:

1. quanto a sua classificação;

2. quanto a sua flexão;

3. quanto a sua estrutura e formação.

CLASSIFICAÇÃO

Em nosso idioma, todas as palavras quanto à ideia que transmitem estão distribuídas em dez grandes classes ou grupos. 

Classes de palavras são, portanto, os dez grupos em que as palavras da língua portuguesa estão distribuídas segundo a ideia que indicam. 

Em latim são nove as classes de palavras por não existir artigo.

Eis as dez classes de palavras da língua portuguesa:

1. Substantivo - é a classe variável que designa os nomes de pessoas, divindades, lugares, coisas, seres vivos em geral, qualidades abstratas e seres em geral. Ou, em outros termos, substantivo é toda palavra que especifica substância, coisa que possua existência, podendo ser animada (homem, gato, parreira), inanimada (pedra, mesa, lápis), real (lua, caminhão), imaginária (sereia, saci), concreta (palácio), abstrata (honradez).

Aqui se faz uma subdivisão entre substantivos próprios, aqueles que designam nomes de pessoas, divindades e lugares: Cícero, Júpiter, Brasil, e substantivos comuns, os que designam nomes de coisas, qualidades abstratas e que são aplicáveis indistintamente a todos os seres: templo, mesa, fé, amor.

Substantivo vem do latim substantivus, palavra formada pelo prefixo sub, que significa debaixo, o verbo stare, que significa estar em pé, estar colocado ou parado, o sufixo -nt, que indica agente, mais o sufixo -tivo, do latim -tivus, que indica algo que é relativo ao que precede. É aquilo que permanece parado, estacionado, após ser retirado todo o supérfluo.

2. Artigo - é a classe de palavra variável que tem por objetivo individualizar a coisa, ou seja, cabe ao artigo determinar ao substantivo em relação a se é conhecido ou não, se é definido e determinado ou não. Os artigos são: o, a, um, uma. 

Na verdade, a individualização do substantivo através do artigo pode ser dupla: de maneira precisa e de maneira imprecisa. Por isso, há duas espécies de artigos, os definidos e os indefinidos.

Os definidos são: 

o (para masculino singular) - o animal.

a (para feminino singular) - a cabra.

os (para masculino plural) - os animais.

as (para feminino plural) - as cabras.

Os indefinidos são:

um (para masculino singular) - um animal.

uma (para feminino singular) - uma cabra.

uns (para masculino plural) - uns animais.

umas (para feminino plural) - umas cabras.

Artigo vem do latim articulus, diminutivo de artus, membro, pequena parte de um todo. Deste sentido de 'membro' é que passou à gramática para designar a pequena articulação de um nome, definindo-o ou não.

3. Adjetivo - é a classe variável que define o substantivo expressando-lhe uma qualidade ou atributo. Exemplos:

Casa alta.

Homem sábio.

Pão saboroso.

Livro grosso.

A palavra adjetivo é formada por ad, prefixo latino que significa 'aproximação, para, em direção a',  mais o verbo iacere, 'lançar', mais o sufixo -tivo, do latim -tivus, usado para indicar 'algo que é relativo ao que lhe precede'. Logo, um adjetivo está relacionado a algo que foi lançado próximo de uma coisa e, que por isso, lhe está junto. Ou, gramaticalmente é aquilo que se acrescenta ao substantivo.

4. Numeral - é a classe de palavra variável que encerra ideia de número: um, dois, primeiro, décimo.

Pode ser classificado em:

1. Cardinal - que indica quantidade: um, dois, oitenta, cem, mil.

2. Ordinal - que indica ordem, sequência, posição: primeiro, segundo, oitavo, décimo.

3. Multiplicativo - que indica o número de vezes: triplo, sêxtuplo.

4. Fracionário - que indica frações ou divisões da unidade: meia (laranja), (um) oitavo. (um) terço.

Em latim, além destas quatro classes, há também o distributivo e os advérbios numerais.

Numeral distributivo é aquele que indica como as coisas ou pessoas são agrupadas:

a) singuli = um a um ou um cada um.

b) bini = dois a dois ou dois cada um.

c) terni = três a três ou três cada um.

d) quaterni = quatro a quatro ou quatro cada um.

e) quini = cinco a cinco ou cinco cada um.

Advérbio numeral indica quantas vezes um fato se realizou ou uma multiplicação:

a) semel = uma vez.

b) bis = duas vezes.

c) ter = três vezes.

d) quater = quatro vezes.

e) quinquies = cinco vezes.

5. Pronome - é a classe variável que expressa uma determinação de pessoa, de lugar, de posse ou até mesmo uma certa determinação de maneira vaga, podendo acompanhar ou substituir o nome. 

É classificado em seis tipos:

1. Pessoal: eu, tu, ele/a   //   nós, vós, eles/as.

2. Possessivo: meu, teu, seu   //   nosso, vosso, seu.

3. Demonstrativo: este, esse, aquele.

4. Indefinido: algum, bastante, cada, certo, nenhum, mais, menos, outro, pouco, qualquer, todo.

5. Interrogativo: que, quem, qual, quanto.

6. Relativo: que, quem, o qual, cujo.

Pronome é vocábulo proveniente do latim pronomen, formado pelo prefixo pro, que significa 'diante, à vista de, em lugar de', e nomen, nome.

6. Verbo - é a classe variável que exprime essencialmente um processo, encerrando ideia de ação (falar, andar) ou estado (João é bom).

Obs.: O verbo, por ser matéria extensa, deve ser estudado pelo interessado diretamente em uma boa gramática.

Verbo é palavra que vem do latim verbum, que significa 'palavra'. Por sua vez, verbum é derivado de uma raiz indo-europeia *wer, que deu vrata = ordem, disposição adequada. Em gramática, entretanto, verbo não significa uma palavra qualquer, mas a palavra que expressa ação.

Palavra, por sua vez, vem do latim parabola, e esta tomada do grego παραβολη (parabolé), formada de παρα (ao lado de, à margem de) e βολη (com ideia de 'lançar, estabelecer um paralelo entre, comparar', do verbo βαλλειν = arrojar, lançar com veemência). É a palavra a menor unidade sonora e significativa que, lançada uma ao lado da outra, constitui um enunciado.

7. Advérbio - é a classe de palavra invariável que modifica o sentido principal dos verbos, mas também pode modificar um adjetivo ou um outro advérbio:

O professor falou bastante. (Modifica o verbo 'falou').

Vegetais muito verdes. (Modifica o adjetivo 'verdes').

José veio bastante cedo. (Modifica o advérbio 'cedo').


É classificado em:

1. De lugar: abaixo, acima, atrás, adiante, aqui, ali, cá, lá, dentro, fora, junto, além, aquém.

2. De tempo: agora, ora, antes, depois, ainda, cedo, tarde, logo.

3. De negação: não, nada.

4. De dúvida: porventura, quiçá, talvez, acaso.

5. De intensidade: assaz, algo, bastante, demais, muito, pouco, mais, menos, que.

6. De afirmação: sim, deveras, pois não, pois sim, certo, certamente.

7. De modo: ademais, ainda, apenas, assim, bem, mal, depressa, devagar, só, também.

Advérbio vem do latim adverbium, palavra formada pelo prefixo ad, que significa 'para, aproximação', a palavra 'verbum', que significa 'palavra', mais o sufixo -io, do latim -ium, que quer dizer 'relação, resultado'.

8. Preposição - é a classe invariável que serve para ligar palavras entre si. Via de regra a preposição é colocada antes do termo que acompanha para exprimir a relação em que se encontra este termo relativamente ao resto do enunciado.

É classificada em:

1. Essenciais: a, ante, após, até, com, contra, de, desde, em, entre, para, per, perante, por, sem, sob, sobre, trás.

2. Acidentais: conforme, consoante, durante, exceto, fora, afora, mediante, menos, salvante, salvo, segundo, tirante.

Preposição, do latim preaepositio, composto de prae, que significa 'antes, diante', e 'positio', posição, colocação, do verbo latino ponere. Por dedução etimológica, é um tipo de palavra criada para ser colocada antes de outra e regê-la. Isso faz com que a preposição seja inseparável, portanto, de seu regime, formando um todo significativo com ele.

9. Conjunção - é a classe de palavra invariável que serve para conectar palavras, frases ou orações. 

É classificada em:

1. Coordenativa - conjunção que liga orações da mesma espécie e da mesma ordem.

2. Subordinativa - conjunção que liga orações diferentes de espécie.

A conjunção coordenativa, por sua vez, pode ser de cinco espécies:

1) Aditiva: e, nem, também, não só... mas também..., assim... que...

2) Adversativa: mas, porém, contudo, todavia.

3) Alternativa: ou. ou...ou, já... já. seja... seja, ora... ora, quer... quer, quando... quando.

4) Conclusiva: logo, pois, então, portanto, assim, por isso, enfim, por fim, por conseguinte, donde.

5) Explicativa: ou, isto é, por exemplo, a saber, ou seja, na verdade, além disso, depois.

A conjunção subordinativa é distribuída em dez grupos conforme a ideia que passa à oração subordinada:

1) Integrante: que, se.

2) Causal: porque, que, pois que, porquanto, já que, por isso que, uma vez que, desde que.

3) Comparativa: que, do que, (tal) qual, (tanto) quanto, (tão) quão.

4. Concessiva: embora, quando, quer...quer, ainda que, dado que, se bem que, posto que, conquanto.

5. Condicional: se, salvo se, exceto se, contanto que, caso, a não ser que, a menos que, sem que.

6. Consecutiva: (tão) que, (de tal modo) que, (de forma) que.

7. Final: para que, que, a fim de que, porque.

8. Temporal: quando, enquanto, apenas, mal, desde que, até que, antes que, sempre que, depois que.

9. Proporcional: à medida que, à proporção que, quanto mais... tanto mais.

10. Conformativa: como, conforme, consoante, segundo, da mesma maneira que.

Conjunção vem do latim 'coiunctio', um nome de ação com sufixo -tio formado a partir do supino 'coiunctum', do verbo 'coniungere', ligar conjuntamente, relacionar, unir conjuntamente as partes. Foi usada por Cícero, século I a.C., já com valor de partícula gramatical de ligação, assim como de harmoniosa ligação das frases em um discurso.

10. Interjeição - é a classe invariável que exprime as súbitas manifestações do interior humano: 

Ai!

Oh! 

Interjeição é palavra que provém do latim - interiectio -, um nome de ação com sufixo -tio, do verbo interiicere, que significa 'intercalar, interpor, colocar no meio'. Significa, portanto, primariamente, intercalação, inserção, parênteses de algo em um discurso. Assim a empregou Quintiliano e o autor da Rethorica ad Herennium. Depois desta primeira acepção, o mesmo Quintiliano a usou com o valor que os gramáticos a conferem, ou seja, a de uma palavra meramente exclamativa, isolada, pelo fato destas palavras de admiração suporem uma intercalação ou um parêntese no discurso sem nenhuma ligação sintática com as frases que as cercam ou nas quais se inserem.

Paulo Barbosa

sábado, 30 de novembro de 2019

CONDIÇÕES TRANSCENDENTAIS DA LINGUAGEM

A linguagem, sistema de signos que permite a comunicação entre os homens, como define Lalande em seu Dizionario critico di filosofia, possui três condições transcendentais para a sua existência, ou seja, três componentes absolutos sem os quais é impossível existir, a saber:

1. o sujeito que fala - e se expressa falando;

2. o objeto de que se fala - e é representado mediante a palavra;

3. o interlocutor a quem se fala ou com quem se quer transmitir conhecimento falando.

Caso uma dessas condições falte, a linguagem não pode se dar, pois evidente é que não há sistema de signos se não há quem o manifeste, não há como falar sem objeto sobre o qual versar e sem alguém para quem dizer.

Mac Quarrie, com razão, em sua obra Ha senso parlare di Dio?, assevera ser a linguagem um sistema complexo de relações onde "os três termos são obviamente a pessoa que diz alguma coisa, a matéria de que se fala e a pessoa ou as pessoas às quais se fala". E ainda afirma que "é a linguagem que faz o papel de intermediário para a relação triádica, e é propriamente isso que a constitui" (J. MAC QUARRIE, Ha senso parlare di Dio?, Borla, Turim, 1969, pp. 66-67).

Paulo Barbosa

FÍSICA ARISTOTÉLICA: ELEMENTOS PERENES

A Física Aristotélica possui, pelo menos, três elementos perenes que merecem ser estudados por todo aquele que perfaz o caminho da sabedoria:

1. A análise dos vários tipos de movimentos, ou seja, das mudanças encontradas no mundo que consistem na passagem da potência ao ato, na realização de uma possibilidade.

2. Os estudos aprofundados sobre o tempo e o espaço, entes reais, porém relacionais.

3. A questão teleológica, ou seja, da finalidade, em relação à ordem da natureza. Tudo o que acontece tem uma finalidade ou causa final.

Paulo Barbosa

sábado, 26 de outubro de 2019

OS 'PREDICÁVEIS' OU 'QUINQUE VOCES'

O homem pode conhecer as coisas que o rodeiam de duas maneiras, a saber, por desmembramento e por classificação.

Desmembrar é tomar uma unidade e dividi-la em seus componentes essenciais, tal como quando ao ensinar a alguém o conceito de 'homem' dizemos ser 'animal' e 'racional'. 

Classificar é organizar em grupos que possuem qualidades semelhantes. Aqui se procede, então, do seguinte modo em relação às ideias ou conceitos: 'animal' é gênero, ou seja, pertence aquilo que se denomina gênero. Aqui se atribui ao conceito universal 'animal' o conceito universal 'gênero'; 'racional' é espécie, pertence à classe do que se denomina espécie. Aqui se predica ao conceito 'racional' o conceito 'espécie'.

A classificação das ideias pode também se dar mediante três modalidades:

a) inclusão de uns conceitos em outros. Assim, o conceito 'animal' é incluído no conceito 'homem' - o homem é um animal.

b) complementaridade de noções. Desta maneira, as noções 'metal' e 'amarelo' é 'ouro'.

c) oposição de noções. A noção de 'visão' é oposta à de 'cegueira'.

Esses diversos e distintos modos de se atribuir um conceito universal a um sujeito se chamam predicáveis. Os predicáveis, portanto, são relações lógicas entre os conceitos, são atribuições a um sujeito de conceitos ou noções que permitem fazer uma distinção mental. E são cinco - por isso mesmo denominados de 'quinque voces' e não mais que cinco os conceitos que a inteligência humana pode predicar de um ser, distintos em predicáveis essenciais e acidentais.

Os Predicáveis Essenciais são três, a saber:

1. Espécie - é o conceito ou ideia que representa a essência completa de um indivíduo. Exemplos: quando digo 'racional', digo 'espécie' do gênero animal; 'gato', é 'espécie' do gênero animal; 'rosa', é 'espécie' do gênero planta; 'feldspato', é espécie do gênero mineral; 'mofo' é espécie do gênero fungo; 'bactéria', é espécie do gênero monera. A espécie é um todo e uma parte.

2. Gênero - é o conceito que indica uma parte da essência, ou seja, não a essência completa, total, e é comum a outras espécies. O gênero, portanto, se predica de todas as coisas que estão submetidas à sua abrangência. Exemplos: 'animal' é 'gênero' em relação a 'homem', a 'gato', a 'cachorro', etc.; 'planta' é 'gênero' em relação à 'rosa', ao 'copo de leite', ao 'arroz', ao 'feijão', etc; 'mineral' é 'gênero' em relação ao 'ouro', ao 'diamante', ao 'quartzo', ao 'cobre', ao 'cristal', etc.; 'fungo' é gênero em relação ao 'bolor', ao 'champingon', à 'levedura', à 'orelha-de-pau', à 'tinha', etc.; 'monera' é gênero em relação à 'bactéria', à 'cianobactéria', etc. O gênero é um todo.

3. Diferença Específica - é aquilo que caracteriza de maneira peculiar, própria, a espécie, fazendo com que se distingua das demais. É, em realidade, o conceito determinante do gênero, aquilo que divide o gênero em suas espécies. [ Deve-se observar que existem dois tipos de diferenças: 1º. as intraespecíficas: aquelas que fazem duas coisas serem diferentes somente pela qualidade; 2º. as interespecíficas: aquelas que fazem que as coisas sejam outras. É a esse segundo tipo que pertence a diferença específica.] Exemplo: 'racional' é a diferença específica na definição de homem: animal racional. Toda definição real se faz pelo gênero e diferença específica.


Os Predicáveis Acidentais são dois, a saber:

1. Propriedade - é o conceito indicativo de algo ou alguma qualidade que não pertence à essência, mas que deriva necessariamente dela ou a tem por base. Exemplo: a 'faculdade de rir' é uma propriedade do ser humano. 

Há quatro espécies de propriedades:

a) quod convenit omni et soli, sed non semper = a que convém a todos os homens e somente aos homens, mas nem sempre está presente. Exemplo: 'encanecer'

b) quod convenit soli sed non omni = a que convém somente aos homens mas não a todos. Exemplo: 'ser médico'.

c) quod convenit omni sed non soli = a que convém a todos os homens, mas também às outras espécies. Exemplo: 'ser bípede'.

d) quod convenit omni et soli et semper = a que convém a todos os homens, somente aos homens e sempre está presente. Exemplo: 'a risibilidade'.

Porfírio diz ser esta última a propriedade por excelência, pois, somente nesta o sujeito e o atributo podem intercambiar-se.

2. Acidente - é o conceito que atribui uma característica a um sujeito, mas que não deriva necessariamente de sua essência. O acidente pode, portanto, aparecer e desaparecer sem que o sujeito se destrua. Exemplo: 'ser justo' em relação ao homem ou 'ser músico', etc. Este predicável é também denominado acidente lógico.

Notemos duas coisas, enfim:

As propriedades são acidentes que nos abrem caminho para chegarmos à essência das coisas, o que quer dizer que são necessárias, são decorrências naturais da essência.

Os acidentes lógicos, por sua vez, são dispensáveis à essência, ou são o propriamente acidental, contingencial das coisas, porém, distinguem os indivíduos entre si.

Paulo Barbosa