quarta-feira, 11 de novembro de 2015

A ALFABETIZAÇÃO NA ROMA ANTIGA


Quintiliano
O método de alfabetização nas escolas Romanas era dos mais primitivos, chegando mesmo a ser condenado por Marco Fábio Quintiliano (35-96 d.C.), advogado, rétor e filólogo conceituado espanhol, no seu tratado de pedagogia Institutiones Oratoriae, com as seguintes advertências:
"Pelo menos a mim não agrada o que vejo praticar,isto é, ensinar o nome e a ordem das letras antes de saberem os alunos diferenciar bem as respectivas figuras.
Tal processo dificulta o conhecimento das letras, porquanto prestando os alunos atenção ao som de cada letra, deixam de atender à sua configuração.
 Daí resulta que os mestres, quando julgam já terem os alunos fixados na memória o alfabeto recitado na ordem natural, são obrigados a volver atrás, para exercitá-los a conhecer a forma das letras dispondo-as em ordem diferente.
A melhor maneira consiste em ensinar as letras simultaneamente quanto à forma e quanto a seu nome, como se aprende a conhecer as pessoas.
O sistema de se estudar as letras, que se condena, é, entretanto, aconselhável quando se trata de estudar as sílabas.
Para se estimular a criança a aprender a ler, julgo ser aconselhável o método conhecido de se formar um jogo com as figuras das letras feitas em marfim ou por outro qualquer processo que proporcione à criança um certo prazer em manejar as letras, indicando-as por seu próprio nome".
Óbvio que tais admoestações do grande filólogo espanhol - pois nasceu Quintilano em Calahorra - revelam uma admirável intuição sobre o valor da motivação e da importância do fator psicológico do ensino. 

Jérôme Carcopino
Jérôme Carcopino (1881-1970), historiador renomado francês, professor da Sorbonne, diretor da Escola Francesa de Roma, membro da cadeira número 3 da Academia Francesa, em sua excelente obra La Vie quotidienne à Rome, assevera o seguinte acerca do péssimo método de aprendizagem de leitura entre os Romanos:
"A ambição do mestre se limitava a ensinar mecanicamente seus alunos a ler, escrever e contar.
Dispondo de vários anos para o desempenho de sua missão, não se preocupava o professor com o aperfeiçoamento de seus métodos rotineiros".

Institutiones Oratoriae
Voltando a Quintiliano, vejamos, enfim, uma série de considerações sobre o ensino da leitura que foram dirigidas aos professores alfabetizadores romanos no primeiro século da era cristã:
"Deve-se ensinar a pronúncia de todas as sílabas, não se deixando para mais tarde a aprendizagem das mais difíceis, como se costuma fazer.
É conveniente repetir-se frequentemente o exercício sobre a pronúncia silábica, não forçando logo a leitura corrente, a não ser que já saibam os alunos unir as letras sem tropeçar, sem se deter ou sem pensar muito.
Então já poderão unir as sílabas, irão formando palavras e, em seguida, já lhes será possível formar a oração.
A pressa em fazer o aluno ler correntemente ocasiona muitas imperfeições na aprendizagem da leitura.
Tal açodamento pode ser para o aluno motivo de titubeação, de paradas e repetições dos vocábulos, levando-o até a desconfiar daquilo que já sabe, se, forçado além de suas possibilidades, vier ele a cometer algum erro na leitura.
Antes do mais, que aprendam a ler correntemente e sem interrupção, porém, durante muito tempo o façam com vagar, até que por meio de exercício consigam ler com destreza e desembaraço.
O olhar para diante e fixar a vista na palavra que vem depois - regra que dão todos os mestres - somente o ensinam o método e a prática, porque, ao mesmo tempo que se olha a palavra que segue, há de pronunciar-se a que lhe antecede e há de dividir-se a atenção do espírito, coisa aliás bem difícil, pois uma coisa farão os olhos e outra a voz.
Não será inútil, para que logrem uma pronúncia clara e desembaraçada, fazer com que os alunos repitam palavras difíceis e versos compostos de palavras ásperas, corrigindo-se assim, desde logo, vícios que mais tarde seriam dificilmente extirpados" (Institutiones Oratoriae, 1, 1, 5).   
Paulo Barbosa

OS PEDAGOGOS ROMANOS


A educação em Roma sempre foi considerada função da família, mesmo após a abertura de escolas pela Urbe, e devido a isso, nunca houve grandes pedagogos na Cidade Eterna, como também careceu de grandes filósofos. Outro fator também para esta carência era que os Romanos eram homens preocupados com assuntos de ordem prática, com estudos de utilidade imediata, como Agricultura, Direito, etc., e não se interessavam, portanto, pelos problemas de ordem especulativa, como são a Filosofia e a Pedagogia. No entanto, podemos destacar alguns exímios homens que contribuíram de alguma maneira para a arte do ensino, para a pedagogia, mais precisamente três ilustres sábios romanos, Catão, Cícero e Quintiliano.

 CATÃO

Catão, o Velho
MARCO PÓRCIO CATÃO, conhecido como CATÃO, O VELHO(234-149 a.C.), rigorosamente falando, não é um pedagogo, mas deve ser mencionado devido a ter sido o representante mais autêntico do velho espírito nacional dos romanos, na sua reação contra a influência dos gregos, como também um expoente do pensamento pedagógico romano antes da infiltração helênica.

INÍCIO OBSCURO E FUNÇÕES NA URBE

Os inícios da vida de Catão são obscuros, sabendo-se porém que foi soldado e que combateu contra Cartago. Após, exerceu vários cargos políticos, onde sua honradez, honestidade, brio e senso de civismo, tornaram-se proverbiais. Tornou-se um nacionalista extremado, sentimento este que o fez insurgir contra o progresso dos cartagineses, reclamando insistentemente, no Senado, a destruição de Cartago, e terminando todos os seus discursos com a máxima "Carthaginem esse delendam", "Deve ser destruída Cartago". Levantou-se também contra a influência grega nos costumes e na cultura romana, escrevendo: "Crede-me, minhas palavras são proféticas, quando essa raça nos der a sua literatura, tudo se corromperá".

Para se compreender o anti-helenismo de Catão é necessário ter em conta a severidade dos costumes morais dos romanos, sobretudo dos 'velhos romanos' em contraste com o dos gregos que, em geral, viviam uma vida leviana, sensual, dissoluta, o que traduzia na sua literatura.

DESPREZO DA LITERATURA E CONHECIMENTOS NECESSÁRIOS

A educação literária era menosprezada por Catão, afirmando que os únicos conhecimentos necessários ao bom cidadão eram os da lei, da arte da guerra, da Agricultura, da Oratória e da Medicina, medicina esta, no entanto, que não deveria ser a dos gregos que, segundo ele, estaria destinada a matar todos os romanos. 

ELOQUÊNCIA CATÔNICA: RUDE, MAS PERSUASIVA E SUAS OBRAS

Foi Catão o primeiro orador romano que publicou todos os seus discursos, embora sua eloquência estivesse muito longe da primorosa retórica de um Cícero, devido a sua rudeza e naturalidade. Mesmo assim Cícero teve por Catão a maior admiração.

Apesar desta eloquência rude e natural, era fortemente persuasiva, devendo-se a ela, por exemplo, a destruição de Cartago. A Retórica catônica era também diferente da Retórica grega, sobretudo por se dirigir para a realidade das coisas e não apenas para os artifícios oratórios. Catão dizia que o orador deveria ser antes de tudo homem bom - "Vir bonus dicendi peritus", "o homem bom, perito no falar" -, e acerca da verdadeira formação do orador, escreveu um compêndio dedicado ao seu filho Marco, sendo este o primeiro tratado romano sobre o assunto. Além deste tratado, escreveu também um manual prático sobre a Agricultura, denominado De re rustica, sendo este também o primeiro livro publicado em Roma sobre a matéria, e o único que chegou completo até os nossos dias. Muitos outros livros didáticos escreveu o Censor, sobre Moral, Economia, Direito, Artes militares, Medicina, etc., porém, perdidos.

EDUCAÇÃO DO FILHO E CAPITULAÇÃO DO PAI

Catão colocou em prática suas ideias pedagógicas ao educar seu filho Marco de acordo com o velho modelo da educação romana, encarregando-se ele próprio de ser o mestre. Alguns historiadores dizem que chegou mesmo a escrever um compêndio próprio para a educação do filho, intitulado "Preceitos para meu filho". Com o passar do tempo, no entanto, já na velhice, Catão teve de ceder às injunções da época, confessando-se derrotado na sua luta contra o helenismo, vindo ele mesmo a aprender grego, mas "apenas para dar uma olhadela na literatura grega, e nunca para estudá-la intensamente", como dizia.

CÍCERO

Cícero
MARCO TÚLIO CÍCERO (106-43 a.C.), o mais eminente orador romano, o representante mais típico, no dizer de Sêneca, da mentalidade romana, "coincidindo o espírito do povo romano com o de Cícero". Ao contrário de Catão, era um helenista perfeito, falando e escrevendo com toda proficiência a língua grega, versando com desenvoltura toda a cultura filosófica e retórica dos atenienses, mas desprezava a literatura decadente que, segundo ele, tornara-se objeto de comércio, voltando-se tão somente para os grandes mestres atenienses da áurea idade, apresentados por ele ao povo romano como sendo os únicos modelos dignos de imitação.

OBRAS

As idéias acerca da educação de Cícero estão expressas nos seus diálogos, sobretudo no "De Oratore". A base de sua pedagogia é inteiramente platônica e, como tal, de inspiração política, tanto que, ao tratar da teoria do Estado, fê-lo Cícero em diálogos que receberam os mesmos nomes dados por Platão aos seus tratados do mesmo assunto: "República" e "Leis".

OBJETIVOS DA EDUCAÇÃO

Para Cícero, o objetivo da obra educativa era o pleno desenvolvimento da natureza humana, o que estava condicionado pelas peculiaridades de cada indivíduo, pois competiria à educação formar o homem e formar o profissional, devendo este último aspecto da formação estar inteiramente de acordo com a vocação, traduzida nas aptidões naturais de cada um. O ideal de formação humana traduzia Cícero pela expressão "humanitas", expressão que ele teria sido o primeiro a empregar e que corresponderia à "paideia" dos gregos. A suprema vocação humana seria a do orador político, que deveria reunir em si, como atributos fundamentais, a agudeza do dialeto, as ideias do filósofo, a memória do jurista e os movimentos do ator trágico.

CURSO DE ORATÓRIA

Na pedagogia ciceroniana, o curso de oratória - com o Rhetor - deveria se dividir em duas partes: A "puerilis institutio", espécie de curso básico, e o "politior humanitas", correspondente ao curso superior. As matérias que deveriam estar na base da formação do orador seriam quase as mesmas da Enciclopédia grega: Filosofia (em lugar da dialética), Matemática, Retórica, Geometria e Astronomia. Estas disciplinas foram chamadas de "Artes Liberais" pela primeira vez por Cícero. Além destas matérias fundamentais, deveriam ser estudadas ainda a História e a Jurisprudência, disciplinas que, juntamente com a Filosofia, constituíam o ponto mais importante do currículo do orador, que, segundo Cícero, deveria ser filósofo antes de tudo com ampla perspectiva da História de seu povo e profundos conhecimentos das Leis que o regiam.

HABILIDADES NATURAIS DO INDIVÍDUO

O êxito, porém, da formação oratória, segundo Cícero, dependeria menos dos estudos realizados com esse objetivo, das regras e normas aprendidas nos tratados e nas escolas, do que da habilidade individual de cada um. Nesse particular, a sua pedagogia era radicalmente oposta à dos outros rétores, que pretendiam formar oradores partindo apenas das regras estabelecidas para esse fim. A Retórica tinha, portanto, para Cícero, uma utilidade relativa, pois dizia ele: "Não foi a Retórica que gerou a eloquência, mas a eloquência foi que gerou a Retórica".

QUINTILIANO

Quintiliano
MARCO FÁBIO QUINTILIANO (35-96 d.C.), natural da Espanha, foi para Roma ainda muito jovem, onde teve como professores o gramático Palemon e o rétor Domício Afer. Dedicou-se depois à advocacia e ao magistério. Tendo o Imperador Vespasiano estabelecido o ensinamento estatal oficial, foi Quintiliano o primeiro professor de Retórica a receber salário do Estado. Entre seus numerosos alunos figuravam Plínio, o Jovem, e o futuro imperador Adriano. 

OBRAS

Após vinte anos de estudos e de magistério, escreveu Quintiliano seu principal livro, o "De institutione oratoria", vasta obra de 12 volumes e que não é somente um compêndio de oratória, mas um verdadeiro tratado de Pedagogia, contendo muitos preceitos ainda hoje dignos de admiração e que sempre exerceram grande influência no domínio da educação, sobretudo na época do Renascimento.

A preocupação de Quintiliano ao escrever este livro era estabelecer as normas para a formação do perfeito orador, ideal supremo da pedagogia romana, imbuída de pragmatismo, conforme vimos já nos primeiros artigos. O tipo ideal de orador era, para o romano, ao mesmo tempo, o tipo ideal de homem, e é por isso que os preceitos da "Instituição Oratória" não eram apenas preceitos de Retórica, mas de formação geral do homem, preceitos pedagógicos estes muitas vezes fundados no mais sadio bom senso.

ESCOLA LÚDICA

A escola-brinquedo foi preconizada por Quintiliano, antecipando-se assim aos pedagogos modernos. Recomendava "que o estudo para o aluno seja como um jogo: interroguemo-lo, louvemo-lo, e que ele mesmo possa aplaudir seu próprio saber". De acordo com essa norma, o alfabeto deveria ser ensinado utilizando-se letras de marfim, com o intuito de se despertar o interesse das crianças.

PERFIL PSICOLÓGICO DO EDUCANDO

Quintiliano viu também a necessidade de se embasar o ensino nas peculiaridades psicológicas do educando, e por esse motivo ensinava: "O primeiro cuidado do mestre deve ser o conhecimento seguro do espírito e do caráter de seus alunos". Professava um grande respeito à personalidade infantil, o que se evidencia na sua maneira de discorrer sobre as relações entre alunos e mestres e sobre os castigos como fatores de disciplina, estabelecendo que deveriam os mesmos ser substituídos pela doçura e persuasão. Reconhecendo a importância das impressões da primeira infância, escreveu Quintiliano: "Os vasos conservam o gosto do primeiro licor nele vertido, e a lã, uma vez manchada, não adquire mais sua primitiva brancura".

DEFEITOS DA PEDAGOGIA

O defeito maior da doutrina pedagógica de Quintiliano, sem falar no seu estatismo, foi o formalismo da grande maioria de seus preceitos, que algumas vezes esqueciam o homem, para ver no educando apenas o futuro orador. No fundo, este esquecimento do homem era o vício de toda pedagogia pagã, e mutatis mutandis, também de boa parte da pedagogia moderna que visa não formar o orador, mas o pragmático das eras modernas, o homo-technicus de nossos dias. Com muita frequência, a pedagogia de Quintiliano se preocupava mais com as qualidades literárias que visava a desenvolver, do que com os atributos verdadeiramente humanos, cujo aperfeiçoamento constitui o fim essencial da educação.

Paulo Barbosa

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

"SENECTUS IPSA EST MORBUS"...

s

Está documentada em Terêncio, no "Phormio, 575", esta gnoma e existe uma sua variante em Sêneca: "Senectus enim insanabilis morbus est = a velhice é uma doença incurável".

A frase de Terêncio está calcada numa frase grega de mesmo conteúdo, presente em Apolodoro de Caristo, poeta cômico do século IV a.C., nascido na Eubea.

No mesmo sentido conceitual Cicero, na sua obra "De senectute", adverte que "pugnandum tamquam contra morbum, sic contra senectutem = deve-se lutar contra a velhice tanto quanto contra uma doença". Em outro lugar da mesma obra esclarece: "Quam senectutem ut adipiscantur omnes optant, eandem accusant adepti = todos desejam alcançá-la (a velhice), mas, uma vez que a alcançaram, acusam-na".

Diante dessas afirmações categóricas dos clássicos devemos pensar se realmente a velhice, antes chamada "terceira idade", realmente pode hoje se denominar "a melhor idade".

Paulo Barbosa

O SENADO ROMANO, UM POUCO DE SUA HISTÓRIA

SENADO ROMANO
A Tradição narra que o SENADO ROMANO foi instituído por Rômulo, fundador da cidade de Roma em 21 de abril de 753 a.C., e seu primeiro rei, composto a princípio por 100 senadores escolhidos entre os Patrícios, 3 por cada tribo e 3 por cúria, segundo informa Dionísio de Halicarnasso, historiador grego da Ásia Menor do século I a.C. O nome senadores provém da idade, pois eramseniores, mais velhos, capacitados assim a dar conselhos ao rei. Eram chamados também dePatres, pais, ou por causa da idade, ou pelos cuidados paternais que deviam ter pelo Estado, conforme Salústio, sendo, portanto, uma designação respeitosa.

AUMENTO DO NÚMERO DE SENADORES

Após o rapto das Sabinas, ocorrido no quarto ano da fundação de Roma, foram criados mais 100 senadores, e depois, Tarquínio Prisco, quinto rei romano do século VI a.C, determinou mais 100, e Sila, general romano do século I a.C, ainda acrescentou mais 100, chegando ao número de 400 senadores romanos. No tempo de Júlio Cesar (100 a.C-44 a.C) subiu o número até 900, e após sua morte chegou a 1000. O Imperador Augusto (63 a.C-14 d.C) reduziu-os para 600.

ORDENS SENATORIAIS

Os senadores estavam divididos em três ordens: a primeira ordem era dos senadores chamados ilustres; a segunda, dos respeitáveis, e a terceira, dos preclaros. Quem procedia de uma família senatorial, era considerado 'cavaleiro romano' até a idade que a lei assinalava; após essa idade, recebia a honra da dignidade de senador.

ORIGEM DA DENOMINAÇÃO "PATRES CONSCRIPTI"

Há duas vertentes para a denominação dos senadores de Patres Conscripti. Uma primeira conta que quando Rômulo criou 10 cúrias de senadores, escreveu o nome de cada um deles em tábuas de ouro, na presença do povo, e por causa disso foram denominados pais conscritos. 
Uma outra narrativa acusa que quando os reis foram expulsos de Roma, aqueles senadores que foram agregados, postos em listas, scripti, para estarem cum 'com' os outros senadores, substituindo os que Tarquínio Soberbo havia mandado matar, foram denominados Patres conscripti.

Paulo Barbosa

HISTÓRIA DO "NE SUTOR"


APELES foi um dos mais famosos pintores da Antiguidade, nascido em Cólofon, cidade grega, no ano de 352 a.C. Certa feita, segundo narra Plínio o Velho (35,36,85), escritor, naturalista e gramático romano, Apeles foi criticado com razão por um sapateiro pela maneira como pintara num de seus quadros um calçado. Porém, após esta crítica reconhecida pelo pintor grego como razoável, tomou liberdade o sapateiro de fazer novas censuras ao restante do quadro. Apeles permitia, no entanto, que o sapateiro desse apenas conselhos relativos ao que lhe era conhecido, as sandálias, e então lhe dirigiu a famosa resposta: Ne supra crepidam sutor iudicaret, Que o sapateiro não julgue mais do que sandália.

Essa resposta proverbial tem uma variante abreviada e mais popular: Ne sutor supra crepidam, não vá o sapateiro acima da sandalha, e hoje em dia pode ser usada para recomendar a consciência salutar que o homem deve possuir de suas limitações próprias, e mais que isso, que cada um deve executar o ofício que para tal é competente. 

Enfim, em Paulino de Nola (Epistola, 12,3) encontra-se uma variante que em vez do sapateiro aparece o oleiro: Figulo tantum in argillam suam ius est, O oleiro só tem direito sobre sua argila.

Quiçá fosse ouvido, entendido e seguido este provérbio, e não teríamos em diversos lugares, sobretudo nos estabelecimentos de ensino, nas escolas, nas faculdades, usurpadores incompetentes e insipientes, tentando ultrapassar o 'espírito de chinelo' que lhes são inerentes.

Paulo Barbosa

VISÃO GERAL DA LITERATURA LATINA


A Literatura Latina não foi construída com a mesma espontaneidade da grega, desenvolvendo-se muito tardiamente e mediante imitação dos gêneros literários que se formaram na Grécia. Após a absorção destes gêneros, no entanto, os romanos imprimiram sua maneira peculiar, de tal forma que, até mesmo transformaram muitos dos tipos helênicos adotados.

Costuma ser dividida em quatro épocas ou períodos:

1. PERÍODO PROTO-HISTÓRICO: do século VII a 240 a.C, onde figuram os primeiros documentos em língua latina, como a FIBULA PRENESTINA (século VII), o CIPO DO FORUM (século VI ou V), o VASO DE DUENOS (século IV), e alguns outros.

2. PERÍODO ARCAICO: de 240 a.C. até 81 a.C., onde se encontram tanto textos literários, como os de LÍVIO ANDRÔNICO que escreveu poesias épicas e dramáticas entre 240-207 a.C.; NÉVIO, também autor de épicas e dramáticas entre 235-204 a.C.; PLAUTO, autor de comédias, nascido em 254 e morto em 184 a.C.; ÊNIO, poeta épico, dramático e lírico, introdutor do hexâmetro datílico, nascido em 239 e falecido em 169 a.C.; TERÊNCIO, comediante, nascido em 190 e morto em 159 a.C.; LUCÍLIO, o criador da sátira, nascido em data desconhecida e morto em 103 a.C.; CATÃO, criador da prosa literária, nascido em 234 e falecido em 149 a.C., quanto textos epigráficos, como o EPITÁFIO DOS CIPIÕES, o SENATUS CONSULTUM DE BACCHANALIBUS (168 a.C.), a SENTENTIA MINUCIORUM (117 a.C.) e a LEX CORNELIA(81 a.C.).

3. PERÍODO CLÁSSICO: de 81a.C. a 17 p.C., dividido em Era de Cícero e Era de Augusto.

     Na Era de Cícero predominou os prosadores, chegando a prosa à sua máxima perfeição, destacando-se CÍCERO (106-43 a.C.), autor de várias obras e apogeu da eloquência e da prosa latina; CÉSAR (101-44 a.C.), que juntamente com Cícero é o padrão da prosa clássica, deixando Comentários sobre a guerra nas Gálias e sobre a Guerra civil, obra inconclusa; SALÚSTIO (86-35 a.C.), apogeu da historiografia, autor de histórias sobre a Guerra Jugurtina, a Conjuração de Catilina e outros mais; LUCRÉCIO (98?-35a.C.), apogeu da poesia filosófica, autor do De Rerum Natura, poema didático epicurista. Com Cícero, foi o criador do vocabulário filosófico; CATULO (87-55 a.C.), introdutor de vários metros gregos em latim, um dos poetas novos ou neoterói, autor de poesias de temáticas menores em relação aos poetas do passado romano, chegando mesmo ao obsceno e burlesco.

     Na Era de Augusto, primeiro Imperador Romano, predominaram os poetas, chegando a poesia ao máximo de perfeição, e destacando-se VERGÍLIO (71-19 a.C.), auge da poesia pastoril, épica e didática, autor das Bucólicas, Geórgicas e Eneida e de mais outros poemas menores; HORÁCIO (65-8 a.C.), aperfeiçoador dos metros gregos já existentes em Roma e introdutor de novos, poeta lírico e satírico e epicurista, autor de Odes ou Carminas, Sátiras,Epístolas e Epodos ou Jambos; CORNÉLIO GALO (69-26 a.C.), criador da elegia romana; TIBULO (50-19 a.C.), autor de poesias elegíacas; PROPÉRCIO (47?-15? a.C.), também autor de poesias elegíacas; OVÍDIO (43 a.C.-17 p.C.), último dos poetas clássicos, chegando com ele o hexâmetro à sua perfeição. Autor de vários poemas, entre eles Ars Amatória, Heroides, Amores, coleção de poesias eróticas, Metamorfoses, poema hexâmetro mitológico, Fastos, sobre o calendário romano, Tristia e Epistulae ex Ponto, coletâneas de poemas do exílio, além de vários outros poemas ou peças menores; TITO LÍVIO (64-17 a.C.), último dos prosadores clássicos, autor do Ab urbe condita, obra histórica que narra desde a fundação de Roma, em 753 a.C., até início do século I da Era Cristã.

4. PERÍODO PÓS-CLÁSSICO: de 17 p.C. até o século V, época da queda do Império Romano do Ocidente. Este período deve ser dividido em Século I e início do II e Séculos II ao V.

     No século I e início do II surgiram vários poetas e prosadores não italianos, cuja língua latina, então, começa a diferir dos moldes clássicos. Os principais foram: FEDRO, natural da Trácia e introdutor da fábula esópica; SÊNECA (?-65 p.C.), natural da Espanha, enriquecedor da linguagem filosófica, estóico, e autor de várias obras, dentre as quais De tranquillitate animi, De vita Beata, Epistolae Morales; LUCANO (39-65 p.C.), natural da Espanha, renovou a épica latina, autor da Pharsalia ou Gerra Civil; PETRÔNIO (?-65 p.C.), criador do romance satírico-picaresco na literatura latina, autor do Satiricon; PLÍNIO, O VELHO (23-95 p.C.), natural de Como, enriquecedor da linguagem científica, autor da História Natural, enciclopédia científica que abarcava todo conhecimento do gênero até sua época; QUINTILIANO (30?-95 d.C.), natural da Espanha, restabeleceu a eloquência ciceroniana, autor de Institutiones Oratoriae, já vista em artigos de nossa lavra; MARCIAL (40-104 d.C.), natural da Espanha, aperfeiçoador do epigrama, autor de O livro dos espetáculos e Xenia, entre outros; JUVENAL (65-128 d.C.), natural da Campânia, elevou a sátira ao apogeu, autor de várias máximas filosóficas, como a famosa mens sana in corpore sano, e do livro As Sátiras; TÁCITO (55-120 d.C.), grande estilista, historiador de peso, criador de uma nova literatura, autor de Annales e Historiae, livros que narram a História do Império Romano, e de outras obras, como Germania, que trata dos costumes dos povos da Germânia.

     Nos séculos II ao V, cada vez mais se acentuou a mistura da língua corrente, popular, à língua literária, desbotando, desta maneiro, o clássico latim. Nos séculos II, III e IV, a literatura se reduziu quase exclusivamente à historiografia, figurando SUETÔNIO (69-141 d.C.), autor de várias obras - De Ludis Graecorum, De Spectaculis et Certaminibus Romanorum, De Anno Romano, De Roma et eius Institutis etc -, e a HISTÓRIA AUGUSTA, coleção de biografias dos Imperadores Romanos, começando de Adriano (117-138) até o ano de 284. Apareceu neste interim a Literatura Cristã em língua latina, com TERTULIANO (150 ou 160-222), um dos criadores do latim eclesiástico, escritor mais vigoroso da época, autor de várias obras, dentre elas Contra os Judeus, Contra Escápula, Apologeticum, Scorpiace. O século IV é o período de ouro da Literatura Cristã, onde aos apologistas sucederam os seguintes doutores da Igreja:AMBRÓSIO (330-397), bispo de Milão, renovador do gênero da "Consolatio", com suas orações fúnebres, autor de muitas obras, dentre elas Cartas pastorais, Hexameron, e vários Hinos; JERÔNIMO (347-420), natural da Dalmácia, autor da Vulgata, documento precioso da língua falada do seu tempo; AGOSTINHO (354-430), natural de Tagaste, Numídia, escritor brilhante, autor de variadas obras, dentre elas Solilóquios, De Magistro, De Libero Arbitrio, Contra Academicos, para citar só as filosóficas. A literatura profana deste século - século IV - apresenta dois nomes dignos de destaque: AMIANO MARCELINO (325-391), natural de Antioquia, o último historiador notável em Roma, autor da "História de Roma", que ia desde a ascensão do Imperador Nerva, em 96 d.C., até a morte do Imperador Valente, em 378 d.C.; e CLÁUDIO CLAUDIANO (370-404), natural de Alexandria, no Egito, o último grande poeta a serviço da língua latina quase clássica, autor de De tercio Augusti consulatu Honra, Honra Epithalamium de Nuptiis et Mariae, e de muitas outras obras. 

No século V, ocorreram os últimos prosadores e poetas latinos, porém sem grande destaque e brilho. É o século das invasões bárbaras e do desmembramento do Império, abrindo-se, assim, a Idade Média.

Paulo Barbosa

A DIVISÃO ROMANA DO TEMPO


É antiquíssima a divisão do mês em ciclos de sete dias, vindo do Oriente, conforme registrado na Bíblia. Foram os Judeus de Alexandria os primeiros que traduziram a palavra hebraica schabuah pela grega hebdomás, que quer dizer semana. Os Romanos, que não tinham o costume de dividir os meses em ciclos de sete dias, adotaram a palavra hebdomas quando tinham de se referir a esse ciclo de sete dias, e a palavra septimana, com o sentido de semana, só apareceu pela primeira vez no Código Teodosiano, no século IV E.C.

COMO ERA A DIVISÃO ROMANA DO TEMPO? 

Os Romanos chamavam ao primeiro dia de cada mês de KALENDAE, CALENDAS, palavra derivada, segundo a maioria, de um antigo verbo latino, calo, derivado do grego kaleo, que significa chamar, convocar, reunir, e segundo outros, dentre estes Isidoro de Sevilha, do verbo coleo, celebrar, por se celebrar, entre os antigos, os princípios de todos os meses. É daí que vem o vocábulo calendário. 

A seguir às calendas, ao dia um, havia um período de 5 ou 7 dias, conforme os meses, e esses dias 5 e 7 eram chamados NONAE, NONAS, devido a esses dias serem os nonos antes do dia 13 ou do dia 15 de cada mês, e esses dias 13 e 15, por sua vez, eram chamados de IDUS, IDOS.

Outra versão narra que chamavam-se nonas por derivar de nundinae, feira ou mercado ao ar livre, que nestes dias ocorriam.

Quanto ao idus, deriva do verbo latino edo, comer, pois esses dias, entre os antigos, eram celebrados com opíparos banquetes.

Então, três eram os dias mais importantes do mês que os Romanos estabeleceram:KALENDAE, NONAE e IDUS, tomando em consideração ou os dias festivos ou, segundo outra tradição, os deveres dos magistrados que nestas datas costumavam se reunir nas cidades para resoluções de problemas.

NA PRÁTICA...

Nos meses de Janeiro, Fevereiro, Abril, Junho, Agosto, Setembro e Dezembro, as nonae caíam no dia 5;

Nos meses de Março, Maio, Julho e Outubro, caíam as nonae no dia 7.

Dia 1 de janeiro são as Calendas janeiras; 

O dia 2 de janeiro era IV Non. Jan., ou seja, o quarto dia antes das nonas de janeiro; 

O dia 3 de janeiro era III Non. Jan., isto é, o terceiro dia antes das nonas de janeiro.

Dias 5 ou 7 eram as Nonas.

O dia 6 de janeiro era VIII Id. Jan., ou seja, 8 dias antes dos idos de janeiro;

O dia 7 de janeiro era VII Id. Jan., isto é, 7 dias antes dos idos de janeiro, e assim até 13 ou 15.

Dias 13 ou 15 eram os Idos.

A 14 ou 16 começava a nova contagem segundo os mesmos agrupamentos de meses:

O dia 14 de janeiro era XIX kal. feb., ou seja,  19 dias antes das calendas de fevereiro, ou 1 de fevereiro;

O dia 15 de janeiro era XVIII kal. feb., isto é, 18 dias antes das calendas de fevereiro, e assim por diante.

Paulo Barbosa

O TRINÔMIO DE JÚLIO CÉSAR


VENI VIDI VICI foi o trinômio usado por Caio Júlio César, em 47, após a batalha de Zela, na Turquia atual, contra Farnaces II, rei do Ponto, e não após ter vencido diversas batalhas, conforme muitos dizem. Foi Plutarco quem legou à posteridade na sua obra Vida de César, 50, 3-4, que Júlio César após vencer Farnaces II, filho de Mitrídates VI, que havia matado muitos romanos, comunicou a notícia a Roma por meio do mensageiro Márcio, com esta mensagem lapidar e formalmente cativante. 

Este trinômio é realmente muito feliz, pois conseguiu, e ainda consegue em nossos dias quando usado por homens cultos, reproduzir a rapidez e a eficácia de uma ação por meio de sua estrutura assindética, ou seja, sem conectivos entre os termos.

Outros autores latinos, como Díon Cássio, Apiano e Suetônio, também refletem o contexto do lema ternário, sendo que o último, Suetônio, narra que o general César ordenou que alguém levasse para todos os lados um cartaz com a inscrição Veni Vidi Vici, para mostrar como era fulminante e rápida a sua execução contra os inimigos.

Paulo Barbosa