quarta-feira, 14 de março de 2012

CONHECENDO O 'QUIDAM'

QUIDAM é um pronome indefinido que serve para indicar que a palavra a que se refere é indeterminada, mas até certo ponto para a pessoa que fala, ou seja, não é um pronome tão indefinido assim, embora para quem ouve o seja totalmente. Geralmente, na latinidade posterior, era substituído por CERTUS, que, entretanto, era já usado por Cícero, como em Insolentia certorum hominum (Marc., 16) "A intransigência de certos homens".

Vejamos também alguns usos de quidam em Cícero:

Habuit quamdam ille infamiam (Flac., 95) "Teve aquele uma certa infâmia" (infâmia esta que eu conheço, mas não declaro).

Video esse hic in senatu quosdam qui tecum una fuerunt (Cat., 1,18) "Vejo estarem aqui no senado certos indivíduos que estiveram juntamente contigo" (indivíduos que bem sei quais são, mas no momento não me convém dizer).

Paulo Barbosa

MARIANO BASSOLS DE CLIMENT

CapaMARIANO BASSOLS DE CLIMENT é um latinista espanhol, catedrático de Filologia Clássica na Universidade de Barcelona, muito dedicado ao estudo da fonética e sintaxe latinas. Suas obras hoje são referências obrigatórias no ensino da língua latina no mundo hispânico e luso. Foi membro da Academia de Boas Letras de Barcelona e tradutor da Vida dos doze Césares, de Salústio, saída pela Alma Mater, 1964, Barcelona.

Dentre as obras mestras dele, destaca-se a Sintaxis historica de la lengua latina, I. Introducción, Género, Número, Casos, Barcelona, 1945; II. Las formas personales del verbo, Barcelona, 1948. 

Nesta obra o autor ordenou uma grande quantidade de doutrinas da sintaxe latina, oferecendo, todavia, em alguns tópicos, hipóteses e ideias próprias, assim como fazendo referências e exemplificando com fenômenos das línguas neolatinas. A estes dois volumes, que inicialmente formavam parte de um monumental tratado projetado em sete volumes, seguiu-se uma Sintaxis latina, Madri, 1956, que compreende a totalidade da matéria e traz mais comparações com as línguas romances, sobretudo com o espanhol.

Paulo Barbosa

segunda-feira, 12 de março de 2012

AUTORES ROMANOS E HELENISMOS SINTÁTICOS

Exemplos de HELENISMOS SINTÁTICOS são o nominativo pelo vocativo; o genitivo exclamativo, como O mercis malae; o genitivo absoluto; o emprego do quod com verbos de entendimento; o emprego de si como partícula interrogativa; o uso de ille como artigo, dentre muitos outros.

Pois bem, os autores da boa latinidade que mais empregaram tais construções sintáticas próprias do grego em suas obras foram, entre os prosistas, Salústio, Tito Livio e Tácito, e entre os poetas, Catulo, Propércio, Tibulo, Horácio, Vergílio e Ovídio. Mais tarde também Estácio, Valério Flaco e Sílio Itálico.

Paulo Barbosa

segunda-feira, 5 de março de 2012

ADJETIVOS EPÍTETOS E DISTINTIVOS

O linguista francês Juret, em seu Système de la Syntaxe Latine, dividiu os adjetivos em duas classes, divisão esta bastante didática, a saber: adjetivos EPÍTETOS e adjetivos DISTINTIVOS.

ADJETIVOS EPÍTETOS, aqueles que exprimem qualidades que dizem respeito à imaginação ou ao sentimento, ou seja, qualidades que provém da subjetividade humana, afirmadas de um ser nos momentos de elogio ou censura. Por isso, é suscetível de gradação. De um modo geral, este adjetivo precede ao substantivo, sendo esta a sua posição normal. Acompanha qualquer substantivo comum para o qualificar, embora o próprio substantivo o dispense. Vejamos alguns exemplos destes adjetivos:

Ut mortalis inlucescat luce clara et candida (Amph. 547) = 'para iluminar os mortais com sua luz clara e brilhante'.

Mens sana in corpore sano (Juv. 10, 356) = 'mente sã em corpo são'.


Na prosa clássica, porém, o adjetivo epíteto não pode vir diretamente ligado a um nome próprio. Por esse motivo, é costume juntar ao nome próprio um substantivo comum, como vir, homo, mulier, urbs, civitas, etc.

In his primipilo P. Sextio Baculo fortissimo viro ( César, B. Gal., 2, 25, 1) = 'entre estes, o primípilo P. Sextio  Báculo, varão de extraordinária coragem'.

Aristoteles vir summo ingenio (Cícero, Tusc., 1,7) = 'Aristóteles, homem de extraordinário talento'.

Urbem pulcherrimam atque ornatissimam Corinthum sustulit (Cícero, Verr., 1,55) = 'destruiu Corinto, cidade belíssima e ornadíssima'.


ADJETIVOS DISTINTIVOS, aqueles que exprimem um traço de um ser que o distingue do ponto de vista intelectual, ou seja, fundado na inteligência, e não mais no sentimento ou imaginação. A função destes é individualizar o substantivo, caracterizá-lo, delimitá-lo, e é por esse motivo mesmo que não comporta os graus de comparação. Tais adjetivos podem, geralmente, ser substituídos por um genitivo, ou mais raramente, por outros casos. Já os epítetos jamais admitem tal substituição. Vejamos alguns exemplos de adjetivos distintivos:

Moeror patrius (Cícero, Flac.,106) = ' a aflição do pai'.

Aeneia nutrix (Vergílio, En., 7,1) = 'a ama de Enéias'.

Ostium Tiberinum ( Cícero, Imp. Pomp.,33) = 'a foz do Tibre'.

Manilianae leges (Cícero, De Or., 1,246) = 'as leia de Manílio'

Metus Parthicus (Cícero, Fam.,2,17,1) = 'o medo dos Partos'.

Familia gladiatoria (Cícero, Sest., 134) = 'grupo de gladiadores'.

Pelos exemplos dados acima, vê-se que as principais relações expressas pelos adjetivos distintivos são de dependência ou posse (1º, 2º e 3º), autoria (4º), sujeito ou objeto (5º) e espécie (6º).

Paulo Barbosa

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

VERBO 'ESSE'... VERBO ABUNDANTE

O verbo ESSE (SER, ESTAR) latino é abundante, ou seja, possui algumas formas semelhantes às do verbo EDERE (COMER). Assim:

                   Singular                                                                    Plural

Sum, ES, EST = sou, és, é                       Sumus, ESTIS, sunt = somos, sois, são

Edo, ES, EST = como, comes, come       Edimus, ESTIS, edunt = comemos, comeis, comem

As formas es, est e estis, do verbo edo, têm também as paralelas edis, edit e editis.

No subjuntivo imperfeito também as formas semelhantes se dão e em todas as pessoas: ederem e essem, ederes e esses, ederet e esset, ederemus e essemus, ederetis e essetis, ederent e essent. 

Enfim, no imperativo também o fenômeno se dá: ede ou es; edito ou esto; edite ou este; editote ou estote.

Por causa disso, deve-se ter cautela na tradução de orações em que entrem as formas verbais abundantes, como por exemplo na seguinte:

MUS EST IN MURO SED DEUS NON EST IN CAELO

que à primeira vista pode parecer: O rato está no muro, mas Deus não está no céu. Na realidade, a tradução correta é:

O RATO COME NO MURO, MAS DEUS NÃO COME NO CÉU

Paulo Barbosa


terça-feira, 3 de janeiro de 2012

ETIMOLOGIA ISIDORIANA DO SOL, DA LUA E DAS ESTRELAS

Isidoro de Sevilha em sua obra magna, Etimologias, trata acerca dos nomes dos corpos celestes procurando dar a etimologia. Assim, por exemplo, diz que 

O SOL é assim denominado porque aparece sempre "só", obscurecendo, com seu resplendor, a todos os demais astros - "Sol appellatus eo quod solus appareat, obscuratis fulgore suo cunctis sideribus".

A LUA recebe este nome como se se dissesse "Lucina", suprimindo-se a sílaba medial - "Luna dicta quasi Lucina, ablata media syllaba". Lucina é palavra que contém lux, luz em sua composição e na mitologia era um dos epítetos da deusa Juno, que presidia aos partos, e de Diana.

AS ESTRELAS assim se denominam por 'estarem', ou seja, por se encontrarem fixas no céu e nunca se ocultarem - "Stellae dictae a stando, quia fixae stant semper in caelo nec cadunt".

Paulo Barbosa


segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

OS ESPÍRITOS SOBRENATURAIS ENTRE OS ROMANOS


Entre os Romanos existiam também a crença nos espíritos sobrenaturais e benfazejos e estes eram designados por diversos nomes, tais como:

1. PENATES que eram os espíritos tutelares honrados pelo Estado inteiro ou apenas por uma família. No primeiro caso, eram denominados PENATES PUBLICI, e no segundo, PENATES PRIVATI. Protegiam o Estado ou o Lar concedendo a subsistência e é devido a isso que o nome vem de penus, penoris = víveres, comestíveis, dispensa. As estátuas dos Penates eram colocadas no lugar descoberto que havia no centro das casas romanas, chamado impluvium, destinado a receber luz solar e a chuva dos telhados.

2. LARES eram as almas dos antepassados ou dos homens divinizados que velavam pelo bem-estar da família. Cada família tinha o seu LAR DOMESTICUS, não podendo ser mais do que um, diferentemente dos Penates, que podiam ser muitos. Além do Lar Domesticus, existiam Lares destinados a livrar todo um povo de seus inimigos, a cuidar dos caminhos, dos campos, das encruzilhadas. Daí as várias denominações de LARES HOSTILES, LARES RURALES, LARES COMPITALES, etc. As imagens dos Lares Domestici ficavam no átrio ou num oratório chamado lararium ou sacrarium. O nome Lar parece derivar do estrusco, larua = fantasma.

3. GENIUS é a divindade que concede a vida, tendo sido Júpiter, o pai supremo dos deuses, denominado GENIUS JOVIALIS, por ser ele o autor do mundo e de todos os demais gênios. Era crença entre os Romanos que cada homem possuía o seu gênio, que o acompanhava por toda a vida e só o abandonava quando morria. É o correspondente do anjo da guarda no cristianismo. Além do gênio tutelar dos indivíduos, havia também aqueles que guardavam os lugares, os povoados e até os povos. O nome vem do verbo latino gignere = gerar, pois, como visto, cabia ao gênio conceder a vida, assim como presidir aos nascimentos dos homens.

4. DAEMONES era palavra genérica que ora designa os Lares, ora os Genii. A palavra vem do grego.

5. SEMONES eram uma espécie de deuses que os Romanos não souberam determinar precisamente. Sabe-se, entretanto, que eram divindades itálicas de segunda classe ou de ordem inferior, tipo semideuses, e que, ao que parece, protegiam os homens na lavoura. A palavra é derivada de semen, seminis = semente, sementeira.

Paulo Barbosa

ANO-NOVO E ANO NOVO: QUAL A DIFERENÇA?


Muitos não percebem, mas existe diferença entre ANO-NOVO e ANO NOVO, o primeiro com hífen e o segundo sem o pequeno traço de união. 

ANO-NOVO é o mesmo que ANO-BOM significando este o dia primeiro de janeiro e o voto de prosperidade que é formulado no início de cada ano, ou seja, em 1 de janeiro. Então, a expressão correta é Feliz Ano-Novo, isto é, que haja felicidade e prosperidade no primeiro dia de janeiro e, por extensão, em todos os demais dias do ano que se inicia.

ANO NOVO, porém, sem hifen, significa o outro ano, o ano seguinte ou o novo ano. Assim, dizemos: Quero mudar de vida no ano novo, ou seja, no ano que vem.

Paulo Barbosa