domingo, 18 de março de 2012

A MÚSICA SEGUNDO ISIDORO DE SEVILHA

Isidoro de Sevilha, em suas Etimologias, assim disserta sobre a Música:

Musica est peritia modulationis sono cantuque consistens. Et dicta Musica per derivationem a Musis. Musae autem appellatae 'apo tou masai', id est a quaerendo, quod per eas, sicut antiqui voluerunt, vis carminum et vocis modulatio quaereretur. Quarum sonus, quia sensibilis res est, et praeterfluit in praeteritum tempus inprimiturque memoriae. Inde a poetis Iovis et Memoriae filias Musas esse confictum est. Nisi enim ab homine memoria teneantur soni, pereunt, quia scribi non possunt.

"A Música é a destreza na modulação, consistente no som e no canto. Se chama música por derivar de 'musa'. O nome das Musas, por sua vez, tem sua origem em másai, quer dizer, 'buscar', já que por elas, segundo creram os antigos, se buscava a vitalidade dos poemas e a modulação da voz. Seus cantos, sendo coisa que entra pelos sentidos, remontam à noite dos tempos e se imprimem na memória. Daí que os poetas tenham imaginado as Musas como filhas de Júpiter e de Memória, pois se seus sons não se gravassem na memória, se perderiam, porque não podem ser recolhidos por escrito".

Paulo Barbosa

sexta-feira, 16 de março de 2012

LATIM MEDIEVAL: LÍNGUA VIVA OU MORTA?

O LATIM MEDIEVAL é aquele latim que foi se formando e desenvolvendo a partir do século IV d.C. na Europa. Era uma língua viva ou morta? Quanto a esta questão, os autores divergem, e esta divergência foi recolhida por Christine Mohrmann em seu célebre artigo Le dualisme  de la latinité medíevále.

Karl Strecker afirma que o latim medieval seria desenvolvimento normal do latim clássico utilizado como meio de expressão pelos escrivães da Baixa Latinidade.

M. E. Lofstedt, porém, julga ser o latim medieval uma língua viva em curso normal e orgânico durante a Idade Média.

Franz Blatt considera toda latinidade, e com isso, o latim medieval, uma só unidade, concluindo daí que tanto o latim tardio quanto o medieval formam um continuum.

M. Bieler vê no latim medieval uma 'comunidade de ideias' - Ideengemeinschaft -, uma língua viva sem nacionalidade, sem povo, não sendo, por isso mesmo, universal, mas sendo usado na Idade Média como língua auxiliar internacional.

Richard Meister considera o latim medieval como uma língua de tradição - Traditionssprache - preponderantemente falada, que evoluiu graças aos impulsos espontâneos dos falantes.

Ludwig Traube, por sua vez, considera o latim medieval como língua morta, embora ainda apresentasse possíveis modificações, evoluções.

Karl Vossler é de opinião que tal latim seria uma forma intermediária entre uma língua viva - latim vulgar - e uma língua morta - latim clássico.

P. Lehmann entende ser o latim medieval uma língua viva, mas limitada por certas conjunturas.

Paulo Barbosa

VOCATIVO NÃO É CASO

O VOCATIVO LATINO rigorosamente falando não é um caso, e isso devido a ser morfologicamente uma variante pura e simples do nominativo indicando o ser a quem se dirige. Esse é o motivo pelo qual apresenta-se isolado no início, meio ou fim da proposição. 

Como forma dotada de elemento próprio que o individualiza, o vocativo só subsiste em latim no singular dos temas em -o  / -e, masculinos e femininos, com exceção do tipo puer. Mesmo aí, o vocativo - domine - não é outra coisa senão o tema puro, com a evidente alternância vocálica do -o temático.

Paulo Barbosa

SUPINO

O SUPINO é uma forma arcaica, pouco encontrada nos autores da época clássica. É um nome verbal que, em latim, conservou três casos: o dativo, o ablativo e o acusativo. O dativo, porém, é muito raramente atestado. E mais, devido ao conflito morfológico que se deu na declinação dos temas em -u, entre o dativo e o ablativo, e também à possibilidade do emprego depois de adjetivos como facilis, ou de um 'dativo de destinação': facilis dictu, o latim optou pela construção com o ablativo.

Os dois casos empregados, portanto, são o acusativo e o ablativo. O acusativo é usado com os verbos indicativos de movimento, direção, tendência, e possui valor ativo: "venerunt postulatum auxilium" (vieram para pedir auxílio). Veja que este acusativo, assim como o ablativo, é usado sem nenhuma preposição, o que atesta a antiguidade da forma.

Já o ablativo do supino possui valor passivo: "visu mirabilis" (admirável de ver, isto é, de ser visto).

O supino é formado com o sufixo *-tu, e, segundo alguns indo-europeístas, é uma sobrevivência de um verbo indo-europeu *tu "encher, fazer, realizar". Assim, postulatum seria = para realizar o pedido, para fazer o pedido.

Interessante notar que muitos verbos importantes em latim não têm supino, como sum, volo e seus compostos; os impessoais, a maioria dos verbos em -eo (timeo, paveo,etc.), e os depoentes, com exclusão de ulcisci, que perderam na época clássica.

Paulo Barbosa

ORAÇÕES SUBSTANTIVAS INTRODUZIDAS POR 'UT'

As expressões impessoais bonum est, melius est, optimum est, tempus est, ius est, iustum est, opus est, usus est (usust no latim arcaico), necesse est, bem como os verbos também impessoais placet, conuenit, accedit e outros, e os que indicam manifestação da atividade, como facio, eficio, perficio, assequor, consequor, curo, consulor, cogo, compello, video, são, geralmente, construídos com a conjunção ut, formando oração substantiva, completiva do sentido de tais expressões e verbos.

Vejamos exemplos destas em Plauto, comediante úmbrio, autor de várias peças, e representante maior do latim arcaico.


Justum est ut serviat (Plauto, Rud., 220) = "É justo que sirva, isto é, que seja escravo".

Usust ut pudeat (Plauto, Epid., 167) = "É costume que se envergonhe".

Faxo ut scias (Plauto, As., 897) = "Farei com que saibas".

Cogam ut mendicet (Plauto, Bacch., 508) = "Obrigarei a mendigar".

Faciam ut cupias (Plauto, Capt., 856) = "Farei com que desejes".

Cura ut curetur (Plauto, Pers., 527) = "Cuida que se cuide".

Videtur tempus esse ut eamus (Plauto, M. Glor., 72) = "Parece ser tempos de nos irmos".

Paulo Barbosa


quinta-feira, 15 de março de 2012

PERFEITO HISTÓRICO OU AORÍSTICO

PERFEITO HISTÓRICO OU AORÍSTICO é aquele que indica uma simples ação passada sem nenhuma relação com o presente. É muito usado para indicar uma verdade conhecida por experiência comprovada, e por isso mesmo, é o tempo por excelência da narração histórica. O verbo neste tempo vem geralmente acompanhado das palavras interdum "entrementes", saepe "frequentemente", multi "muitos", nemo "ninguém", plerique "a maior parte", etc. Nos poetas, entretanto, por vezes, vem sem estas palavras.

Vejamos alguns exemplos:

Homerus fuit et Hesiodus ante Romam conditam, Archilochus regnante Romulo (Cícero, Tusc., 1.3) "Homero e Hesíodo existiram antes da fundação de Roma, Arquíloco, durante o reinado de Rômulo".

Ob eamque debilitatem animi multi parentes, multi amicos, non nulli patriam, plerique autem se ipsos penitus perdiderunt (Cícero, Fin., 1,49) "Por essa fraqueza de ânimo [o medo da morte] muitos perderam irremediavelmente os parentes, muitos os amigos, alguns a pátria, a maioria a si mesmos".

Felix qui potuit rerum cognoscere causas (Vergilio, Geo., 2,490) "Feliz quem pode conhecer as causas das coisas".

Paulo Barbosa


quarta-feira, 14 de março de 2012

EXTRAVIO EM CONCORDÂNCIA

TYRRHENUS TUBAE CLANGOR (Vergílio, En., 8, 526) "O CLANGOR DA TIRRENA TROMBETA".

FONTIUM GELIDAS PERENNITATES (Cícero, Nat., 2, 98) "A PERENIDADE DAS GÉLIDAS FONTES".

O que se vê nestes dois exemplos acima é uma excepcionalidade em latim, ou seja, os adjetivos tyrrhenus e gelidas referem-se a um grupo formado de substantivo mais complemento - tubae clangor e fontium perennitates -, mas em vez de concordar com o complemento ao qual qualificam, concordam com o substantivo. O normal seria tyrrheni tubae clangor e fontium gelidarum perennitates.

A razão desta derrogação à regra é que o grupo substantivo mais complemento é considerado como uma única unidade, e a concordância, então, é feita com a palavra predominante do grupo, ou seja, o substantivo, que no caso é o regente. Tal extravio é também encontrado somente em poesia ou em prosa poética.

Paulo Barbosa




O ADVÉRBIO NEGATIVO 'HAUD'

HAUD é advérbio de negação que se traduz por NÃO, sendo, porém, de se notar que é uma negação que se refere a uma palavra e não a uma frase, como fazem os dois outros advérbios NON e NE. Por esse motivo que o seu emprego normal é sempre antes dos adjetivos e advérbios. 

Vejamos alguns exemplos em Cícero:

Haud mediocris vir (Rep., 2,55) "Homem não medíocre".

Quod haud procul absit a morte (C.M., 15) "Porque não longe diste a morte".

Haud procul maior scriptor (Or., 151) "Escritor não pouco maior".

Apesar de seu uso normal ser antes dos adjetivos e advérbios, encontra-se usado antes do verbo scire, saber, como em Cícero:

Haud scio, inquit (Tusc., 5,35) "Não sei, disse ele".

A origem deste advérbio parece ser a forma sincopada de uma palavra que significava hilum (= um quase nada, uma pouca coisa, uma coisa sem valor) e que se juntaria a uma negação para a reforçar, passando depois a ser considerado como partícula negativa.

Paulo Barbosa