domingo, 3 de junho de 2012

CIRCUSNTÂNCIAS: O QUE SÃO?

DO ADVÉRBIO sempre, ao ser definido, é dito funcinar na frase quando determina um verbo como complemento circunstancial.

Ora, mas o que são CIRCUNSTÂNCIAS? São as particularidades que rodeiam um fato dando-lhe feição própria. É por estas particularidades rodearem um fato que são denominadas circunstâncias, do latim 'circum + stare', 'estar ao redor'.

O seguinte verso menemônico latino enumera as possíveis circunstâncias que podem acompanhar um fato, seja incidentalmente, seja como condição essencial ou fator determinante:

Quis? Quid? Ubi? Per quos? Quotiens? Cur? Quomodo? Quando?


Quis? -  Procura saber sobre a pessoa que agiu e seus predicados: quem é a pessoa?

Quid? - Pergunta pela natureza do fato material, moral, etc.: que coisa é? que natureza tem?

Ubi? - Indaga sobre o lugar onde se realizou, se sagrado, profano, reservado, público: em que lugar?

Per quos? - Interroga sobre os agentes secundários, auxiliares, cúmplices, obstáculos, etc.: por quem?

Quotiens? - Inquire sobre quantas vezes se deu o fato, se houve recidiva, etc.: quantas vezes?

Cur? - Solicita a causa, o motivo pelo qual a ação de realizou: por que razão?

Quomodo? - Quer saber de que maneira sucedeu o fato: de que modo?

Quando? - É a indagação sobre a época, a estação, se de dia, de noite, na infância, adolescência, velhice, etc.: em que tempo, época?

Paulo Barbosa

A POESIA LÍRICA

LIRISMO é o nome que se dá à expressão espontânea, poética e ritmada de um sentimento sincero.

Sabe-se que um sentimento, desde que seja vivo, seja qual for o seu objeto e a sua natureza, tende a exteriorizar-se por meio de um grito, de uma lágrima, de um soluço ou de qualquer outra forma análoga. Isso é uma necessidade inegável e inelutável do organismo humano, capaz até de causar distúrbios psicológicos enquanto não for satisfeito.

Pois bem, quando tal sentimento vivo vibra na alma do artista, do poeta, este externa-o naturalmente pelo canto, ou seja, pela linguagem a um tempo cheia de imagens e de ritmo forte.

O lirismo, entretanto, não consiste unicamente no sentimento pessoal. Brunetiere diz que não basta ser egoísta para ser poeta lírico, pois assim seria muito fácil e teríamos uma plêiade deste. Não se nega, também, com esta asserção, que o sentimento pessoal seja a base psicológica do lirismo, a sua substância. O poeta lírico, muitas vezes, interpretará os sentimentos alheios, e mesmo aí, deve apropriar-se das emoções que descreve e nelas tomar parte íntima.

O lirismo obedece, mais que qualquer outro tipo de manifestação da alma, à inspiração, ao gênio, ao dom inato - ingenium - que o estudo e o trabalho aperfeiçoa, mas não substitui. A inspiração é absolutamente indispensável ao lirismo.

O lirismo aproveita muito os recursos musicais, tais como a melodia, a harmonia, a cadência e o ritmo, chegando, mesmo, não raramente, a pedir o auxílio do canto e dos instrumentos de corda ou sopro. A expressão comum do lirismo é o verso.

Poemas líricos escritos em outra língua nunca são traduzidos de forma correta e boa, pois, por melhor que seja a tradução, a ela se há de aplicar sempre o dito: traduttore, traditore. Fatalmente, ao se traduzir uma poesia lírica, o ritmo será alterado.

LEIS DO LIRISMO

O lirismo possui as seguintes leis:

1. Ser sincero e espontâneo, e, por isso mesmo, é intolerável o sentimento de encomenda, pois o tom, com certeza, descerá à declamação, ou seja, ao discurso afetado, exageradamente solene e pomposo.

2. Obervar a ordem dos sentimentos. Deve esta poesia ser a expressão completa de um sentimento único, e o guia deve ser mais o coração que a inteligência, sem, claro, que a razão e o bom senso deixem de coordenar tudo.

3. Adaptar os ritmos aos sentimentos e às ideias, e é por isso mesmo que este gênero apresenta maior variedade do que os demais.

4. Apresentar vivo colorido e movimento. Sabe-se que sempre andam juntas a sensibilidade e a imaginação, e logo, haverá profusão de figuras de palavras e de pensamento nas poesias líricas.

5. Ser breve,  até mesmo como uma exigência psicomotora.

6. Condensar o pensamento e a sua expressão. O lirismo não admite muito desenvolvimento, visto que uma única palavra é o suficiente para dizer o que em outras circunstâncias pedira extensas considerações.

O NOME

Esta poesia é assim denominada porque na Grécia era acompanhada com o instrumento de cordas chamado lira. A lira é um instrumento semelhante a uma harpa, mas de dimensões menores, e foi conhecida dos fenícios, hebreus, egípcios, assírios, gregos e romanos.

POESIA LÍRICA GREGA

Esta nunca era cantada sem o respectivo acompanhamento musical, executado com instrumentos de corda tipo cítara, ou de sopro, tipo flauta. É o acompanhamento coreográfico, com dansas sempre expressivas, muitas vezes imitativas, como na pírrica, dança guerreira em que os dançarinos executavam movimentos simulando o combate.

As grandes manifestações desta poesia são: o grande lirismo, que abarca o lirismo perfeito dos epinícios de Píndaro e das seguintes odes pindárias: Olímpicas, Píticas, Nemeias, Istmicas, que são hinos celebrando os respectivos jogos; os coros das tragédias, que abarcam o lirismo trágico, como os 12 grupos nas tragédias de Ésquilo; os 15 nas de Sófocles e Eurípides; e enfim, as elegias e canções, com Alceu, Safo e Anacreonte.

POESIA LÍRICA LATINA

O maior lírico latino, o lírico clássico por excelência, é Horácio (65-8 a.C.), sendo ele o modelo primeiro para quem quiser iniciar-se nos segredos da poesia lírica. Imitou diretamente o lirismo grego, sobretudo o lirismo lésbio. Entretanto, entre o lirismo grego e o lirismo latino há a seguinte diferença radical: a poesia lírica grega era para ser cantada, enquanto as odes de Horácio destinavam-se a serem declamadas, ou seja, recitadas em alta voz, com gestos e entoação próprios, ou lidas privadamente. Outro lirico foi também Vergílio (70-19 a.C.), autor das Bucólicas, em dez éclogas.

Paulo Barbosa

BREVE EXCURSO SOBRE A FIGURA DE PENSAMENTO

A FIGURA DE PENSAMENTO pode ser definida como sendo o aspecto que a linguagem assume para fim expressivo afastando-se do valor linguístico normalmente aceito. Ou: é a alteração da forma, mas que não influencia no sentido. Tal alteração, também chamada metaplasmo, aumenta, diminui, e transpõe as palavras.

FINALIDADE DA FIGURA DE PENSAMENTO

Muito satisfaz ao espírito humano o uso das figuras ou variedades na expressão. Nelas encontra-se o meio de romper a monotonia que tanto flagela e atormenta à inteligência. O papel principal, então, das figuras de pensamento é surpreender o espírito, é despertá-lo, é provocar sua atenção e tornar as ideias mais nítidas e eficientes.

Os críticos dos séculos XVII e XVIII e os rétores em geral, entretanto, atribuíam diversa finalidade às figuras, exagerando o prazer que o espírito delas colhia, assim como considerando menos a primitiva e inata razão de ser das mesmas. Eram consideradas, por isso, mais como adorno do discurso, que, óbvio, támbém é fruto do esforço acurado. Daí o estudo minucioso e a catalogação escrupulosa por eles confeccionados.

CLASSIFICAÇÃO DAS FIGURAS DE PENSAMENTO


O velho Quintiliano (35 - 95 d.C.), professor de Retórica na Roma Antiga, estabeleceu duas classes:

 1Figuras de palavras, que consistem unicamente no som material ou na disposição local dos vocábulos.

 2Figuras de pensamento, que são dependentes do racional da expressão. Esta classe é subdividida em três partes:

       a) Figuras para provar, que são oito: interrogação; resposta; preterição; prolepse; perplexidade; comunicação; suspensão e permissão.

      b) Figuras para mover, são sete: exclamação; parrhesia; prosopopeia; apóstrofe; hipotipose; aposiopese; etopeia.


Na parrhesia, também chamada licença, o autor finge repreender, mas é para elogiar.

A prosopopeia é a denominada personificação.

Hipotipose é também chamada Enargueia ou Representação ocular, como Cícero lhe denomina. É uma pintura muito vivaz.

Aposiopese é a Reticência, a Interrupção.

Etopeia é a Mímesis, a pintura de costumes.


      c) Figuras para recrear, duas: correção e anamnese.

A anamnese finge lembrar-se de uma coisa que se ia esquecendo.


Estas figuras podem ser agrupadas em três categorias segundo o fim particular que se propõem: 1.ª Figuras que se propõem a realçar uma ideia; 2.ª Figuras que se propõem a suavizar uma ideia; 3.ª Figuras que se propõem a concretizar sentimentos fortes, como convicção, excitação, comoção, perturbação, etc.

Na realidade, somente às duas primeiras categorias caberia o nome de figuras, pois a terceira apresenta a verdade pura, tal como é, com feição própria, enquanto as outras duas a apresenta revestida de roupagens adequadas, desviada de sua significação normal. Os autores que estudam a terceira categoria lhe enumeram: a comunicação, a interrogação, a apóstrofe, o anacoluto, a mudança repentina dos tempos, o desleixo proposital, como fazendo parte dela.

A SUAVIZAÇÃO DA IDEIA
A suavização de uma ideia é feita mediante a perífrase abastrata, a alusão e a litotes, que são eufemismos.

A perífrase abstrata consiste na substituição da palavra por circunlóquios, como quando Bossuet, para dizer 'luxúria', disse: "essas paixões que vitimaram o rei Salomão e tantos outros infelizes".

A alusão faz a apreciação de uma pessoa ou do ato dela referindo-se a outra pessoa bem conhecida e a respeito da qual existe um bem firmado julgamento geral. Assim, 'estar sob a espada de Dâmocles', para se referir a um perigo iminente; 'achar-se num leito de Procusto', referindo-se à medida única, à tortura para que se obtenha conformidade a um único modelo de pensamento, são alusões a pessoas conhecidas na história que apreciam outras pessoas ou atividades.

A litotes é a afirmação do positivo por meio do negativo, como quando dizemos: 'Flora não está no seu juízo perfeito', para dizer que 'Flora está louca'.


A BASE DAS FIGURAS

A COMPARAÇÃO é a base de todas as verdadeiras figuras de pensamento, consistindo em dois termos, onde o segundo tem por finalidade esclarecer o primeiro. O segundo sempre vem expresso, enquanto o primeiro, muitas vezes, está oculto, ainda que presente ao espírito.

Paulo Barbosa

UM GIRO SOBRE O BUCOLISMO


À POESIA BUCÓLICA pertencem as éclogas e os idílios, com as primeiras tratando de foma dramática acerca da vida pastoril ou campestre, e os idílios evocando cenas da natureza. O caráter do bucolismo é predominantemente lírico, isto é, expressa os mais delicados sentimentos d'alma do poeta. Este gênero poético é, também, denominado pastoril.

Tres são os tipos estilísticos que aparecem na poesia bucólica: a descrição dos campos e montanhas, do gado e pastores; a narração de episódios e cenas da vida no campo, e a dissertação, frequentemente, sobre a felicidade humana. Mas o que realmente humaniza os quadros é a realização de um amor entre os pastores ou até mesmo o desengano sentimental.

As mais célebres poesias bucólicas são as éclogas de Vergílio, poemas pastoris pequenos, em número de dez, que na maioria das vezes apresentam a forma de díálogo entre pastores, ou mesmo solilóquio. Foram compostas entre 42 e 37 a.C.

O Renascimento, movimento de redescoberta e revalorização da antiguidade clássica, surgido na região italiana da Toscana, no século XIV, reviveu o gosto pela écloga. Até em Portugal encontram-se as seguintes famosas éclogas de Bernardim Ribeiro, em número de cinco: 1. Pérsio e Fauno; 2. Jano e Franco; 3. Silvestre e Amador; 4. Jano; 5. Ribeiro e Agrestes.

Camões, célebre poeta português, nascido em 1524 e falecido em 1580, também produziu poesias bucólicas, todas elas repassadas de lirismo e cheias de estilo apurado, mas sem nenhuma afetação clássica.

No Brasil, o verdadeiro poeta bucólico foi Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), autor de Marília de Dirceu, versos feitos para sua amada. Na verdade, os dons reais de impressão e invenção de Antônio Gonzaga foram um tanto prejudicados pelo seu estilo arcádico, explicitamente visível nos versos, porém, diz Oiticica, mau grado a roupagem, sente-se ainda o poeta. Nas suas poesias há pastores e ovelhas convencionais, mas Marília, a sua Marília, soube inspirar surtos vibrantes. Ao que parece, foi o último bucólico apreciável do Brasil.
Paulo Barbosa

sexta-feira, 1 de junho de 2012

VERBOS CAUSATIVOS

VERBOS CAUSATIVOS, também denominados FACTITIVOS, são os verbos transitivos diretos cujo objeto é um ser que age ou recebe uma qualidade por força do sujeito, ou seja, o objeto só é um ser agente sob a influência dominante do ser sujeito, conforme ensina Mattoso Câmara.

Em português, os verbos que possuem o sufixo lexical -ent-, são causativos. Assim, os verbos afugentar; apascentar; adormentar; acalentar. Exemplos:

Maria afugentou o gato. - O gato, objeto direto de afugentar. Este ser, o gato, só fugiu pela ação de Maria, sujeito da oração.

Pedro apascenta as ovelhas. - As ovelhas, objeto direto de apascentar. Estas só são apascentadas pela ação de Pedro, o sujeito.

Também os verbos que possuem o sufixo -iz- expressam, por parte do objeto, aquisição de uma qualidade, e esta aquisição é devida à iniciativa do sujeito, ou seja, são causativos. Tais são os verbos: civilizar; cristianizaramenizar; realizar; robotizar; galvanizar e outros. Exemplos:

Roma civilizou a Penísula Ibérica. - A Penísula Ibérica é objeto direto de civilizou, e só se tornou civilizada pela ação de Roma, que é sujeito na oração.

Os portugueses cristianizaram o Brasil. - O Brasil, objeto direto de cristianizaram, e só foi cristianizado devido à ação dos portugueses, que é sujeito na oração.

A força causativa pode também ser indicada mediante uma locução verbal com os seguintes verbos:

a) Fazer, como auxiliar, mais infinitivo: Faz andar; faz correr; faz nascer; faz comparecer. Note que o objeto direto, neste caso aqui, passa a ser sujeito do infinitivo: O médico faz a menina andar; o peão faz o boi correr.

b) Tornar, fazer mais um adjetivo como predicativo do objeto: Tornou-o feliz; fê-lo inteligente.

Os mesmos verbos, em latim, possuem virtude causativa. Assim:

Abigere, afugentar - Muscas abigere (Sêneca) = afugentar as moscas.

Pascere, apascentar - Pascere sues (Cícero) = apascentar os porcos.

Excolere, civilizar - Humanum genus excolere (Cícero) = civilizar o gênero humano.

Mitigare, amenizar - Mitigare dolorem (Cícero) = amenizar a dor.

Paulo Barbosa

LATIM ARCAICO: O QUE É?

LATIM ARCAICO, também denominado LATIM ANTIGO, LATIM PRIMITIVO ou PRISCA LATINITAS é a forma do latim usada no período anterior à era do latim clássico, ou seja, anterior ao ano 75 a.C. Esta forma latina possui convenções ortográficas, vocábulos, particularidades fonéticas e morfológicas que não foram usados em obras escritas em latim clássico.

 John Wordsworth, classissita inglês, em 1874, definiu o latim arcaico:

"Por latim antigo eu compreendo o latim de todo o período da República, que é distinto de forma muito contundente, tanto em sua tonalidade quanto na sua forma externa, daquele do Império".

Então, considerando o surgimento do latim simultaneamente ao nascimento da cidade de Roma, no século VIII a.C., mais precisamente em 753 a.C., até o ano 75 a.C., temos o que se convencionou denominar latim antigo ou arcaico, tendo uma vida de, teoricamente, 678 anos. O ano limite do latim arcaico, 75 a.C., foi estabelecido pelos estudiosos por ser o ano em que Cícero, voltando de sua formação na Grécia, com 30 anos, começa sua carreira política como questor na Sicília ocidental. O estudioso Bennet propôs o ano 100 a.C. para o fim do latim arcaico, mas tal data não foi aceita.

O corpus ou conjunto de obras escritas nesta forma latina, cujos autores são conhecidos, começaram a surgir a partir do século III a.C. Algumas obras chegaram na íntegra até nossos dias, em forma de manuscritos que foram copiados de outros manuscritos, enquanto outras só chegaram até nós em fragmentos e citações de segunda mão por outros autores. Estes, os fragmentos e incrições sobreviventes, parecem que são datados, os mais antigos, do século VI a.C.

AUTORES E OBRAS

Alguns dos autores mais importantes com suas obras que escreveram em latim arcaico são:

1. Lívio Andrônico (280 - 200 a.C.), grego de Tarento que foi levado para Roma em 272 a.C. e vendido como escravo. Tendo sido comprado por um romano de nome Lívio, foi preceptor de seus filhos e mais tarde concedeu-lhe a liberdade. Andrônico abriu uma escola onde ensinou o grego e o latim, e traduziu a Odisséia, poema épico de Homero escrito em grego, para o latim.

2. Cneu Névio (264 - 201 a.C.), nascido na Campânia, de raça latina, foi soldado antes de se tornar poeta, e participou da primeira guerra púnica.Compôs contra os Metelos o verso saturnino: "Fato Metelli Romae fiunt consules", ao que os Metelos responderam: "Dabunt malum Metelli Naevio poetae", mandando-o para a prisão. Foi autor de tragédias, como Alimonia Romuli et Remi, A educação de Rômulo e Remo; Clastidium; assim como das comédias Colax, Dementes, etc., superior ao número de trinta, e uma epopéia, Bellum punicum, em versos saturninos, sobre as guerras púnicas.

3. Tito Mácio Plauto (254? - 184 a.C.), natural da Úmbria, Sársina, desconhecendo-se a data certa de seu nascimento. A única coisa que se sabe é que era idoso - senex - em 191 a.C. Autor de cerca de 130 peças, mas reconhecidas autênticas por Varrão apenas 21 e 19 duvidosas. Escreveu as seguintes comédias: Amphitruo; Asinaria; Aulularia; Bacchides; Captivi; Casina; Cistellaria; Curculio; Epidicus; Menaechmi; Mercator; Miles gloriosus; Mostellaria; Persa; Poenulus; Pseudolus; Rudens; Stichus; Trinummus; Truculentus e Vidularia.

4. Quinto Ênio (239 - 169 a.C.), nascido em Rúdias, Calábria, e passou alguns anos em Tarento servindo aos exércitos romanos, vindo, depois, se fixar em Roma, onde lecionou grego e angariou muitos amigos aristocratas, como Cipião, Flamínio, etc. Produziu obras para o teatro e escreveu poesias épicas. Cerca de 20 tragédias traduzidas do grego e pertencentes a assuntos troianos são de sua lavra, tais como Andrómaca em cativeiro; Hécuba. Ifigênia, etc. Outras obras também foram escritas por Ênio, tais como Hedyphagetica, sobre gastronomia; tradução da História Sagrada, de Evêmero, em prosa; Cipião, poema épico sobre Cipião Africano e Annales, Anais, em 18 livros, epopéia em hexêmetros onde se narra toda a história romana.

5. Marco Pacúvio (220 - 130 a.C.), natural de Brindes, sobrinho e discípulo de Ênio, foi levado pelo tio a Roma. Era poeta e pintor. Viveu em Roma, mas no fim da vida, foi morar em Tarento, onde morreu. Escreveu doze tragédias imitadas dos gregos, dentre as quais Armorum iudicium; Dulorestes; Hermiona; Paulus, etc.

6. Públio Terêncio Afer (195 - 159 a.C.), nascido em Cartago e levado para Roma como escravo onde teve como dono o senador Terêncio Lucano, que lhe deu educação esmerada e mais tarde lhe concedeu alforria. Foi tão amigo de Lélio e Cipião que alguns pretenderam serem estes dois os autores de suas comédias, enquanto Terêncio seria apenas um nome suposto. Mas não se tem provas fundamentadas desta asserção. Escreveu seis comédias que, em ordem cronológica, são: Andria, A Andriana; Hecyra, A sogra; Heautontimoroumenos, O que se castiga a si mesmo; Eunuchus, O eunuco; Phormio, Formião e Adelphoe, Os irmãos.

7. Lúcio Ácio (170 - 86 a.C.), nascido em Pisauro, na Úmbria, começou sua atuação quando Pacúvio se retirava para vida particular. Viveu longos anos em Roma, tendo sido estimado pelos grandes e sobretudo pelo cônsul Décimo Bruto. Viveu até o tempo de Cícero, quando foi partícipe de um collegium poetarum, ou seja, de uma assembléia de literatos. Escreveu umas quarenta tragédias imitadas aos poetas gregos, como Aquiles; Medeia; Alcestes; Filoctetes; Clitemnestra; Bacantes, etc.

8. Caio Lucílio (160 - 103 a.C.), de Suessa Aurunca, Lácio, pertencente a uma família equestre e dono de muitos bens. Teve vários amigos gregos, como o filósofo Clitômaco, que lhe dedicou um livro. Passou a maior parte de sua vida em Roma e esteve na Espanha, onde serviu sob as ordens de seu amigo Cipião. Na Espanha, assistiu a tomada de Numância, em 133 a.C. Dele nos chegaram 30 livros de sátiras dos quais apenas fragmentos existem, mas em grande número, apesar de curtos.

FRAGMENTOS

Entre os fragmentos em latim arcaico, os mais destacados são os seguintes:

1. Carmen Saliare, o Canto dos Sálios, sacerdotes que cantavam em procissão acompanhados de danças. Esta irmandade foi fundada por Numa Pompílio, segundo rei de Roma, por volta de 700 a.C.

2. Praeneste fibula, Fíbula prenestina, uma fivela de ouro encontrada numa tumba de Preneste com uma inscrição, datada do século VII a.C. Hoje, porém, a sua autenticidade é duvidosa.

3. Lapis Niger ou Inscrição do Forum, encontrada no forum romano, provavelmente de 550, época da Monarquia Romana.

4. Lex Duodecim Tabularum, Lei das doze Tábuas, que na realidade são fragmentos que chegaram até nós mediante citações de autores posteriores. Foram redigidas em 451 pelos decêmviros e era tal lei considerada pelos romanos como a fonte do direito público e privado.

5. Scipionum Elogia, Epitáfios dos Cipiões, inscrições tumulares, em número de cinco, encontradas nos túmulos dos Cipiões. O epitáfio de Lúcio Cornélio Cipião Barbato é de 280 a.C.

6. Senatus consultum de Bacchanalibus, Decreto do Senado sobre as Bacanais, inscrição datada de 186 a.C. As Bacanais eram festas religiosas em honra de Baco e mais tarde se tornaram orgias, onde imperava a bebedeira, a licenciosidade e a depravação. Daí a necessidade do Senado ter de baixar decreto para regulá-las.

7. Carmen fratrum Arvalium, Canto dos irmãos Arvais, sacerdotes em número de doze que faziam procissão pelos campos na época da lua cheia. Este canto está conservado numa inscrição e é muito obscuro, sendo o sentido ainda muito discutido. Somente algumas palavras, como Lases, forma antiga de Lares, são identificadas. Começa com a seguinte invocação: "Enos Lases juvate", "Ó Lares, ajudai-nos".  É de 218 a.C.

ALGUMAS DIFERENÇAS DO ARCAICO PARA O CLÁSSICO

Algumas diferenças entre o latim arcaico e a sua forma clássica, são as seguintes:

Na ORTOGRAFIA, encontra-se no arcaico consoantes simples em lugar das duplas (Marcelus \ Marcellus); vogais duplas em lugar de vogal única (aara \ ara); q em lugar de c (pequnia \ pecunia); xs em lugar do x (saxsum \ saxum); c em lugar de g (Caius \ Gaius).

Na FONOLOGIA, encontra-se as terminações casuais -os e -om (avos, avom), que no latim clássico passaram a us, um; dotongos como oi, ei, que no clássico passaram a u, oe, i; formas nominativas em -s que passaram a -r (honos \ honor; amos \ amor; arbos \ arbor), devido ao fenômeno do rotacismo.

Na MORFOLOGIA, no latim antigo, o genitivo plural apresenta duas terminações: -om, a mais antiga, e -osom,  a do período final do latim arcaico, enquanto no clássico transformaram-se, respectivamente, em -um e -orum; o pronome pessoal ego, no dativo singular, era mi, enquanto no clássico passou a mihi; o ablativo singular era em -d (med), depois ocorrendo sua apócope (me).

Embora estas diferenças entre as duas formas do latim sejam profundas e marcantes, apreendidas prontamente pelo leitor da língua, não são consideradas tão multifomes a ponto de estabelecerem uma barreira linguística. Na época imperal, ou seja, em plena vigência do latim clássico, os falantes do latim não tinham qualquer problema na intelecção do latim arcaico, exceção feita, conforme já dissemos acima, a alguns poucos textos da época da Monarquia, sobretudo os carmina, as canções, como é o caso do Carmen Saliare, do Carmen Arvale, que não eram pelos romanos e ainda não são em nossos dias compreendidos na sua totalidade. Já a Lei das XII Tábuas, redigida no século V a.C., e que deu início à República, era facilmente compreendida.

O que, enfim, devemos saber é que não há diferenças tão significativas entre o latim arcaico e o clássico. A primeira forma, embrionária, é a que, gradualmente, evoluiu para a segunda.

Paulo Barbosa

CURSUS, A HARMONIA DAS SÍLABAS FINAIS

CURSUS é a sucessão regular de sons que produz efeito harmonioso, ou seja, é a cadência harmoniosa com que os antigos escritores romanos costumavam encerrar, de modo tão espontâneo, os períodos que escreviam. Este artifício foi, com muita frequência, empregado por Cícero, Plínio o Moço, Sêneca, Quintiliano e outros autores da época do latim da decadência e até na mesma Idade Média.

O cursus é encontrado em grande número de documentos tanto privados quanto públicos, oriundos das escolas, dos mosteiros e, principalmente, das chancelarias imperiais ou pontifícias.

Este ritmo oratório, hoje denominado cursus, foi introduzido em Roma por Cícero, sendo ele o primeiro autor que cadenciou os fins de frase e expôs a teoria na sua obra Orator.

A recomendação de Cícero, no Orator, para que haja compasso no fecho das orações é que se use o dicoreu ou duplo coreu [sílabas: longa, breve, longa, breve], o crético [sílabas: longa, breve, longa], o peon [sílabas: longa, breve, breve, breve ou breve, breve, breve, longa] e o espondeu [sílabas: longa, longa].

Os coriambos [longa, breve, breve, longa], os dátilos [longa, breve, breve] e os proceleusmáticos [breve, breve, breve, breve] são desaconselhados.

A cláusula ou o fecho de uma oração compreende pelo menos os dois últimos pés, e algumas vezes os três últimos. O dicoreu, que é composto de dois troqueus, é suficiente para formar uma cláusula, assim acontecendo também com dois créticos, dois peon, um espondeu, etc. Se se tem uma cláusula que compreende três pés harmoniosos, seria melhor que o dicoreu fosse antecedido de um crético.

Paulo Barbosa

UM EPITÁFIO DOS CIPIÕES

Os romanos, analogamente aos gregos, costumavam gravar nos túmulos dos homens ilustres as chamadas Inscrições Funerárias. No ano de 1780, foram descobertos os epitáfios dos túmulos dos Cipiões, sobrenome romano dos descendente da gens Cornelia. Tais epitáfios são em número de cinco e em latim arcaico: quatro escritos em versos saturninos e um em dísticos elegíacos. O primeiro destes, em saturnino, data de 272 a.C. Ei-lo:


CORNELIVS LVCIVS SCIPIO BARBATVS

GNAIVOD PATRE PROGNATVS FORTI VIR SAPIENSQVE

QVOIVS FORMA VIRTVTEI PARISVMA FVIT

CONSOL CENSOR AIDILIS QVEI FVIT APVD NOS

TAVRASIA CISAVNA SAMNIO CEPIT

SVBIGIT OMNE LOVCANAM OPSIDESQVE ABDOVSIT


Ou seja:


CORNELIUS LUCIUS SCIPIO BARBATUS, GNAEO PATRE PROGNATUS FORTIS

VIR SAPIENSQUE, CUIUS FORMA PARISSIMA FUIT, CONSUL, CENSOR, AEDILIS

QUI FUIT APUD VOS, TAURASIAM, CISAUNAM, SAMNIUM CEPIT, SUBIGIT

OMNEM LUCANAM OBSIDESQUE ABDUCIT


Que se traduz mais ou menos assim:


CORNÉLIO LÚCIO CIPIÃO BARBADO,

 NASCIDO DE UM PAI VALENTE, HOMEM FORTE E SÁBIO,

CUJA BELEZA FOI IGUALADA À VIRTUDE.

FOI ENTRE NÓS CÔNSUL, CENSOR E EDIL.

TOMOU A TAURÁSIA E A CISANA, EM SÂMNIO.

SUBMETEU TODA A LUCÂNIA E TROUXE REFÉNS.

 
Paulo Barbosa