domingo, 27 de junho de 2021

SILEPSE DE PESSOA

 SILEPSE DE PESSOA é concordância irregular que consiste em concordar o verbo não com a pessoa do aposto manifestado, mas com a pessoa do fundamental oculto. Exemplos:

1. Dizem que os mineiros somos muito religiosos - dizem que nós, os mineiros, somos...

O verbo concorda com o fundamental nós, não com o aposto claro "os mineiros".

2. Ali ficamos alguns amigos 

3. Os brasileiros fazemos por tradição.

4. Os dois que fugimos, nos escondemos no mato.

5. Os outros fomos para participar da aula.

6. Difundem que os alunos somos preguiçosos.

7.Todos os filhos de Adão sofremos padecimentos.

8. Colegas e amigos saímos para lanchar.

SOBRE O APOSTO E FUNDAMENTAL

Aposto é um tipo específico de adjunto adnominal constituído de uma palavra ou de um grupo de palavras em aposição - colocação de dois nomes, um junto ao outro, na mesma oração. Sua função é explicar um ou mais termos expressos na oração.

Fundamental é a denominação da palavra, do termo, modificado pelo aposto.

Pedro, apóstolo, traiu Jesus.

Pedro = fundamental, palavra modificada pelo aposto.

Apóstolo = aposto, nome que explica quem é Pedro.


O ministro Queiroga.

Ministro = aposto, nome que explica quem é Queiroga.

Queiroga = fundamental, nome modificado pelo aposto.

Paulo Barbosa

LOGO, CONJUNÇÃO CONCLUSIVA

 LOGO é conjunção conclusiva ou ilativa que ligando duas orações a segunda expressa conclusão ou ilação da primeira.

1. Manoel bebeu, logo não pode dirigir.


2. Todo homem é mortal.

Pedro é homem.

Logo, Pedro é mortal.

Origem da palavra. A origem da conjunção "logo" é latina, procedendo de loco, ablativo do substantivo locus, que significa principalmente lugar, sítio, mas que também possui outros matizes significativos, tais como classe, posição social, situação, assim como determinado instante do tempo, e, com tal valor temporal, momento, ocasião, oportunidade, etc. Como consequência de seu valor temporal a palavra começou a aparecer em inúmeras expressões de tempo, especialmente em ablativo, como em suo loco (em seu tempo preciso), postero loco (em um momento posterior), in loco (a tempo, oportunamente), etc. A partir desse matiz, o ablativo loco passou a expressar um momento posterior no tempo, um ponto subsequente, dando, assim, ensejo, ao nascimento de nossa conjunção conclusiva ou ilativa. 

Manoel bebeu, logo = posterior a ter bebido, em consequência de ter bebido conclui-se que...

Paulo Barbosa

DISCURSO LÓGICO

 O DISCURSO LÓGICO, que visa a veracidade, a certeza, é aquele que possui uma estrutura silogística, ou seja, usa de argumentação, de uma série de razões aportadas para provar uma questão. Nesse discurso pode ser usado dois tipos de processos racionais básicos:

1. a dedução - processo racional através do qual de premissas universais se extrai conclusões particulares ou novos princípios, havendo, portanto, passagem do geral para o particular. Exemplo:

Todo homem é mortal.

Aníbal é homem.

Logo, Aníbal é mortal. 

2. a indução - processo racional que a partir de fatos particulares se extrai princípios universais, havendo, então, passagem do sensível para o inteligível.

A indução, por sua vez, é dividida em:

a) indução essencial - quando a descoberta é produto da inteligência auxiliada pela experiência. Nesse caso, há uma conexão necessária e universal entre um sujeito e um predicado, pois há uma captação, uma intuição imediata através da simples obervação de princípios universais. Exemplo:

O todo é maior que as partes.

b) indução empírica - quando através da repetição de um fato na natureza se extrai uma generalização. Aqui não há evidência da conexão necessária entre o sujeito e a propriedade. Caso a enumeração do fato seja completa, a certeza é absoluta, porém, se incompleta, há somente possibilidade que a generalização seja verdadeira. Exemplo:

Este colibri voa, aquele também, o outro também, logo, todos os colibris voam.

O discurso lógico, também denominado analítico, é o instrumento humano que tem por objetivo manifestar uma verdade, apresentar certeza científica, partindo de premissas ou de fatos e procurando explicá-los e compreendê-los para ter força demonstrativa do porquê são verdadeiros e não falsos. Com esse processo discursivo se produz conclusão que deve ser admitida como verdadeira.

Paulo Barbosa

sábado, 26 de junho de 2021

PRETÉRITO PERFEITO COM VALOR DE PRESENTE

 O PRETÉRITO PERFEITO em latim não tem por função indicar somente uma ação terminada com relação ao presente, mas pode manifestar também o resultado ou o efeito presente desta ação já passada, já terminada. É exatamente essa possibilidade que explica o seu emprego com o valor de presente nos seguintes verbos:

memini = lembro - soube no passado e continuo lembrando.

noui = conheço, sei - conheci e continuo conhecendo.

odi = odeio - odiei e continuo odiando.

Tais verbos são conjugados somente no perfeito nos tempos formados do perfeito, mas sempre com significação de presente. Obviamente, se o perfeito desses verbos tem significação de presente, o mais que-perfeito tem valor de imperfeito: 

memineram = eu me lembrava.

noveram = eu sabia.

oderam = eu odiava.

e o futuro perfeito, valor de imperfeito:

meminero = eu me lembrarei.

novero = eu saberei.

odero = eu odiarei.

Outras formas verbais apresentam também essa possibilidade:

didici = eu sei - aprendi, acabei de aprender, logo sei.

decrevi = estou resolvido - tomei a resolução e estou decidido.

Paulo Barbosa

CERTIDÃO DE NASCIMENTO, "NATALIS PROFESSIO"

 A CERTIDÃO DE NASCIMENTO, documento em que se assenta um nascimento lavrado em livro e conservado sob os cuidados de um cartório de registro civil, teve sua origem, segundo Emilio Costa em sua Storia del Diritto Romano Privato, 2ª ed., pág 75, sob o imperador romano Marco Aurélio (121-180 d.C.) que estabeleceu a obrigação de que se produzisse dentro de trinta dias a partir da lustratio - cerimônia religiosa realizada no nono ou no oitavo dia após o nascimento, conforme fosse criança do sexo masculino ou feminino - uma declaração ou certidão de nascimento, denominada em latim, natalis professio. A partir de então todo pai era obrigado a declarar diante da autoridade pública o nascimento do filho em Roma, mas precisamente, diante do praefectus aerarii (prefeito do erário), e, nas demais províncias, diante dos tabularii publici (notários ou tabeliães), que anotavam em registros públicos.

Paulo Barbosa

IDIOTISMO, IDIOTA, REGÊNCIA IRREGULAR

 IDIOTISMO é regência irregular de termo ou dicção que existe somente em uma língua sem nenhum correspondente em outros idiomas.

HISTÓRIA  DO TERMO

História da palavra idiota. O termo idiotismo vem do grego idiotes, particular, aquele homem que não se ocupava de assuntos públicos ou não estava investido de nenhum cargo público, mas se dedicava somente a seus interesses particulares. A raiz "idio" significa "próprio, singular, pessoal". No século V, em Atenas, período florescente da democracia, o termo "idiotes" começa a adquirir sentido depreciativo, pois era mal visto quem não se interessava pelos assuntos da pólis mantendo-se apartado da política, das assembleias. Nessa época, aliás, havia até um auxílio financeiro concedido pelo governo para a assistência e participação nas liturgias e debates públicos atenienses. É devido a esse afastamento da vida pública que "idiotes", idiota, de termo natural e indiferente, começa a adquirir o valor de pessoa ignorante, sem cultura, não polida, tonta, por renunciar por vontade ou por incapacidade intelectual ou econômica a participar da democracia, de suas assembleias, de seus comícios, da gestão pública. Ao passar o termo para o latim, já chegou com o sentido de alguém ignorante, sem instrução, sem inteligência e carente de bom-senso, conservando-se assim durante toda a Idade Média e o Renascimento. No século XVII, a ciência médica francesa estabelece a classificação dos retardos mentais, das deficiências psíquicas, e toma o termo "idiota" para conceituar um dos graus dessas deficiências. Honorio Delgado, em seu Curso de Psiquiatria, define o idiota "do ponto de vista psicológico como aquele que manifesta inaptidão parcial ou absoluta para conceber conceitos, inclusive dos objetos familiares mais correntes (mãe, pai, leite, mão, cabeça, sapato, etc.).  Os idiotas de grau máximo não aprendem a falar, os outros têm uma linguagem pobre, quase sempre agramático e com falhas na articulação. Não aprendem a comer por si, nem a vestir-se ou dar a mão. Os tórpidos (entorpecidos) não mostram interesse para nada nem atenção ao que lhes rodeia. Os eréticos (agressivos) exibem uma atividade insensata, tumultuosa e destruidora".

NA SINTAXE

Na sintaxe, entretanto, idiotismo, como já visto, é uma irregularidade regencial, também denominada expressão idiomática, onde termos, frases, modismos, são exclusivos de uma língua e se afastam dos princípios gerais e normativos da sintaxe. Apesar disso, tais desvios são consagrados pelo uso dos bons autores e pessoas cultas e adotados na linguagem polida. Exemplos de idiotismos na língua portuguesa:

1. O infinitivo pessoal flexionado. O princípio geral da gramática reza que nenhuma forma infinitiva deve tomar desinência pessoal, ou seja, o infinitivo não deve se conjugar de acordo com a pessoa do sujeito. Entretanto, em português há duas espécies de infinitivos, o impessoal e o pessoal, sendo o primeiro o puro infinitivo, a forma nominal inflexível essencialmente substantiva do verbo, e o segundo, típico idiotismo português, o infinitivo conjugado de acordo com o sujeito. Assim temos:

por ser eu

por seres tu

por ser ele

por sermos nós

por serdes vós

por serem eles

Talvez seja melhor molharmos as plantas.

Deixarem as coisas vagas não vai ajudar a compreensão.

Por viajarem não quer dizer que eu viaje.

2. O uso da locução "é que", mero adorno na frase, servindo apenas para realçar uma ideia. Em análise deve ser definida como locução expletiva, funcionando apenas como enchimento, redundância, provendo a frase de maior força ou evidenciando um termo da oração.

João é que fez a obra.

Maria é que é estudiosa.

Pães é que os padeiros fazem.

Ele é que quebrou o copo.

Só depois da partida foi que o assunto veio à tona.

Foi Pedro que comeu o bolo.

Note que o "foi que" é a mesma locução expletiva "é que", não sendo, portanto, oração, como se poderia pensar.

3. O emprego da preposição "de" nas seguintes expressões:

"O bom do velhinho".

"Pobre do homem".

"Coitado do meu pai".

4. A colocação do artigo antes dos pronomes possessivos:

O meu carro.

Os teus cadernos.

As nossas vidas.

Paulo Barbosa

sexta-feira, 25 de junho de 2021

JUSTIÇA, O QUE É, DIVISÃO E CARACTERÍSTICAS

 A JUSTIÇA é definida como a virtude que ordena dar a cada um o que é seu - suum cuique tribuere -, ordenando, portanto, o homem com relação a outrem de dois modos: primeiro, a outro considerado individualmente, e segundo, a outro em comum, isto é, na medida em que aquele que está à frente de uma sociedade serve a todos os homens que estão nela integrados. Daí a sua divisão nas seguintes espécies:

    DIVISÃO DA JUSTIÇA

1.comutativa (particular, devida a outro considerado individualmente): é a justiça em que há igualdade aritmética, absoluta, entre os deveres dos cidadãos entre si. Esse tipo de justiça é a reguladora das trocas realizadas entre duas pessoas particulares, aliás, comutativo significa trocar objetos ou coisas de igual valor, comutar. 

2. distributiva (geral, que diz respeito aquilo que é devido a outro em comum ou à comunidade): é a justiça que reparte proporcionalmente o que é comum entre os membros da sociedade, tratando-se de bens ou encargos. Nesse tipo de justiça, por exemplo, o Poder Público, o Estado, distribui para os cidadãos benefícios e funções segundo as necessidades, capacidades e merecimentos.Deve-se notar que essa espécie de justiça não é igualitária, mas proporcional, conforme a definição, tratando desigualmente os desiguais e na medida de suas desigualdades.

3. legal: é a justiça em que os cidadãos devem cumprir as leis do Estado, como pagar os impostos, obedecer ao sinal de trânsito, etc.

CARACTERÍSTICAS DA JUSTIÇA

A justiça possui três características básicas:

1. alteridade - a virtude da justiça sempre será voltada para o próximo.

2. débito - impõe o dever que se tem para com o outro.

3. igualdade - exige equivalência entre os deveres recíprocos.

Paulo Barbosa

quinta-feira, 24 de junho de 2021

PARABÉNS, FORMAÇÃO E ORIGEM

 PARABÉNS é uma palavra que aparece nos dicionários desde o início do século XVIII sendo composta de "para" e "bem, nascendo no singular - parabém -, porém, muito antes de ser dicionarizada já existia em castelhano a expressão "para bien sea" (para bem lhe seja). Dentre outros sentidos, a preposição "para" indica direção, intuito, propósito, que, unida a "bem" expressava a felicitação votos "para o bem" da pessoa festejada, ou, como se proferia mais tarde, já pluralizada, em espanhol, "com muchas bendiciones y parabienes" - com muitas bençãos e votos para o bem da pessoa felicitada.

A palavra "parabienes" foi importada por Portugal devido a ser a língua de Castela moda entre os lusitanos nos séculos XVI e XVII sobretudo em Lisboa. Daí a introdução de inumeráveis palavras castelhanas em na pátria de Camões.

Parabéns, substantivo masculino plural, pode ser definido como felicitações ou congratulações por um benefício ou sucesso alcançado e a variante singular "parabém" é hoje considerada arcaísmo.

Paulo Barbosa