quarta-feira, 30 de junho de 2021

DOMI HABUI UNDE DISCERET

 DOMI HABUI UNDE DISCERET, teve de quem aprender em casa, é uma expressão latina encontrada em Terêncio (185-159 a.C.), mais precisamente em sua obra Adelphoe (v. 413). Tal expressão se tornou muito conhecida na Antiguidade para indicar o ensino ministrado em casa aos filhos ou até mesmo ao processo de ensino autodidata. Sidônio Apolinário (430-486), poeta, funcionário do império romano e bispo, citou expressamente a expressão em sua obra (Ep. 7,9,19) e Plauto (230-180 a.C.), dramaturgo romano, criou uma locução afim, Domo doctus, que aprendeu em casa (Amphitruo, 637, Mercator, 355, Poenulus, 216, Truculentus, 454), porém para indicar que alguém adquiriu conhecimento à sua própria custa.

Paulo Barbosa

TATO, FARO E GOSTO INTELECTUAL: SENTIDOS IMATERIAIS DO HOMEM

 SENTIDOS IMATERIAIS DO HOMEM

O paladar animal tem a possibilidade de perceber sensações de sabores agradáveis e desagradáveis que são denominadas gosto. É o gosto físico, preso aos sentidos do organismo animal. O homem, entretanto, além dessa espécie de gosto, por ser animal racional, possui também sentidos imateriais, intelectuais, que percebem inteligivelmente de três maneiras:

1ª - o tato intelectual: é quando o sentido imaterial da inteligência percebe, conhece a ideia exata, perfeita, daquilo que se deve executar ou omitir a execução, dizer ou deixar de dizer, e isso em todas as circunstâncias da vida.

2ª o faro intelectual: é a inteligência humana no exercício de sua ciência de observação, faculdade de obervação, de reflexão e circunspecção, que mostra, previamente, as qualidades e os defeitos de uma pessoa, as vantagens e os inconvenientes de um fato. O faro intelectual é o olfato em posição de sentinela, assinalando os elementos proveitosos ou nocivos à economia vital.

O ouvido, sentido físico, tem na compreensão - percepção de conceitos pela inteligência - o sentido intelectual correspondente. A vista, no domínio intelectual denominado clarividência - qualidade intelectual de distinguir as coisas com facilidade e rapidez, com clareza e sem esforço.

3ª o gosto intelectual: é o sentimento intelectual delicado que preside e regula a apreciação de tudo quanto é belo, percebendo a harmonia, a proporção e demais qualidades componentes da beleza.

Paulo Barbosa

ORIGINALIDADE NA CONCEPÇÃO E NA FALA

ORIGINALIDADE, em literatura, é o cunho individual que o temperamento, a índole do escritor, comunica às suas ideias e aos seus pensamentos, sendo, mesmo, pode-se afirmar, a virtude primaz do estilo que faz evitar a expressão usual e a perífrase trivial.

ORIGINALIDADE NA CONCEPÇÃO

Quando se se refere a uma ideia original de um autor não se deve entender como uma ideia pessoal, nova, criada por ele, mas sim uma ideia que foi descoberta e analisada após muitos outros terem assim feito, por sua intervenção, participação e trabalho pessoal. Originalidade na concepção ou de ideia não significa pensar coisas novas, construir novidades, porém em pensar novamente, por si mesmo, coisas que inumeráveis gerações haviam pensado antes. Francisque Sarcey, crítico de teatro e jornalista francês, dizia que o autor de uma obra literária nada de bom poderá escrever a não ser o que ele mesmo pensar e naquilo que tiver pensado sempre se encontrará alguma originalidade.

ORIGINALIDADE DO DIZER

A originalidade na expressão oral consiste unicamente em um elemento, a saber, o emprego da palavra própria, precisa, ou na combinação de palavras que exprima de maneira adequada a ideia a ser comunicada, ideia inteira e nada mais que a ideia. Daqui se conclui que palavra precisa se opõe ao uso de termo geral, vago, impreciso, do vício de linguagem denominado anfibologia ou ambiguidade, quando, na construção da oração se apresenta dois sentidos diversos.

Meios de se adquirir originalidade do dizer. São duas as condições que permitem a alguém alcançar maior originalidade na expressão dos pensamentos:

1º - conhecer muito bem o assunto que vai tratar, com suas relações múltiplas com todos os assuntos ou temas conexos. Isso promove arroubo e encanto nos ouvintes, pois revela a erudição do orador.

2º - ser conhecedor de farto vocabulário, da índole e dos inesgotáveis recursos da língua.

Paulo Barbosa

terça-feira, 29 de junho de 2021

CIRCUNSTÂNCIAS E AÇÃO MORAL

CIRCUNSTÂNCIAS são todas as particularidades, situações, condições, estados que rodeiam um fato, uma coisa ou uma pessoa. A palavra é formada pelo prefixo latino circum (ao redor), o verbo stare (estar estacionado, colocado, parado) mais os sufixos -nt que indica agente e -ia que indica qualidade. Ao pé da letra circunstância é "a qualidade (-ia) do que (-nt) está parado (stare) ao redor (circum)".

Quais seriam, então, tais circunstâncias? Os romanos as enumeraram no seguinte verso mnemônico:

Quis? Quid? Ubi? Per quos? Quotiens? Cur? Quomodo? Quando?

Quis? - é a pessoa, o agente que praticou a ação juntamente com seus predicados.

Quid? - é a natureza do fato, sua essência, seja material, moral, etc.

Ubi? - é a circunstância do lugar onde se realizou o fato, se lugar sagrado, profano, reservado, público, etc.

Per quos? - quem foram os agentes secundários, auxiliares, cúmplices ou até obstáculos.

Quotiens? - quantas vezes o fato se deu, se houve recidiva, etc.

Cur? - qual foi o motivo, a causa de se ter agido, que fim alcançou, etc.

Quomodo? - de que maneira o fato aconteceu, como aconteceu.

Quando? - em que época, dia, noite, se na infância, adolescência, velhice, etc.

CIRCUNSTÂNCIAS E AÇÃO MORAL

As circunstâncias, como vistas, são acidentes que modificam o objeto moral de um fato ou uma realização humana. A ação humana para ser classificada como boa ou má deve atender a três requisitos:

o objeto - ao qual a ação tende e onde termina.

as circunstâncias - que vimos acima.

o fim - que é a intenção pela qual o agente pratica a ação.

O objeto confere à ação a sua moralidade essencial, ou seja, se o objeto da ação for bom, a ação é boa, caso contrário, é má.

As circunstâncias têm o poder de aumentar ou diminuir a bondade ou maldade do ato. Pode até mesmo alterar a sua natureza de bom para mau.

O fim sendo bom, ou seja, a intenção do agente sendo boa, juntamente com o objeto, produzirá uma ação boa, caso contrário, má.

Paulo Barbosa

LER, QUAL O MODO CORRETO?

LER é um ato intelectual de eleição e combinação de grafemas para daí extrair um significado. A origem da palavra é o verbo latino legere, escolher, eleger, o mesmo que deu legião, os escolhidos.

MODO CORRETO DE LER

Existe um processo correto para se ler direito, com seriedade, adquirindo, assim, os frutos almejados pela leitura. Este processo ou modo consta de três etapas indispensáveis:

1ª - compreender e assimilar. A compreensão consiste na percepção que a inteligência tem do sentido expressado pelo texto, percepção essa devida à sua perspicácia e sutileza. A assimilação, por sua vez, se dá quando, percebido o sentido, é absorvido e incorporado ao entendimento do leitor. Para essas duas primeiras atividades, a leitura deve ser bastante minuciosa, sem pressa, e sempre com auxílio de um bom dicionário.

2ª - julgar. Tudo o que lê deve ser julgado pelo leitor, ou seja, deve-se aferir o valor do escrito tanto quanto ao fundo (a matéria abordada) como quanto à forma (o estilo, o arranjo, a maneira peculiar do autor se expressar).

3ª - resumir. Resumir é retomar e repetir tudo o que se leu para reduzir a termos breves, sentenciosos, precisos, restabelecendo, assim, o essencial do texto, o que facilita a aprendizagem. O resumo se faz em muitas notas, assim como com fichas bem classificadas.

Paulo Barbosa

PALAVRA E VOCÁBULO, QUE SÃO?

 PALAVRA  pode ser definida como o sinal habitual da inteligência, ou seja, é através da palavra como signo, geralmente, que a inteligência humana se reporta ao referencial. Entretanto, a palavra tem um seu complemento, a mímica, arte de se comunicar através dos gestos, que lhe serve de reforço ou até mesmo de comentário. 

VOCÁBULO, por sua vez, são os sons articulados que o aparelho fonador humano profere, o ouvido percebe, e porta determinada significação quase sempre convencional e regulada pelo uso. Sua etimologia vem do latim vocabulum, possuindo um sufixo instrumental -bulum anexado ao tema do verbo vocare, chamar, dar nome, de modo que etimologicamente vocábulo é "o instrumento ou o meio de denominação das coisas, sejam entes, qualidades ou ações".

Uma outra definição de vocábulo é possível: é um sinal sonoro que recorda ora um objeto material - como cavalo, mesa -, ora uma noção abstrata - como virtude, cidade -, e isto por meio de uma associação de ideias. A memória humana, guardando a impressão constante da relação entre o vocábulo e o objeto, quando surge o termo, seja ouvido ou lido, imediatamente surge a ideia correspondente. Tal ideia não pode aparecer sem que o vocábulo a exprima.

ESPÉCIES DE VOCÁBULOS

Há duas espécies de vocábulos ou termos:

1. vocábulos ou termos pitorescos - são aqueles dirigidos aos nossos sentidos, à nossa imaginação, visando produzir os sentimentos, os afetos, tais como num romance, numa poesia, etc.

2. vocábulos ou termos abstratos - são os que se dirigem quase que unicamente à razão para explicitar ou revelar verdades, não evocando nada na imaginação, a não ser vagas formas. Encontram-se nas obras filosóficas e científicas.

Paulo Barbosa

OS ESTILOS DOS LUSÍADAS

 OS LUSÍADAS, célebre poema épico de Luís de Camões (1524-1580), varia o estilo segundo a tipologia textual. 

Na descrição o estilo é realista, os aspectos da realidade são bem realçados e, quando inventa, o faz com traços realistas bem particularizados, fugindo da generalização, como pode-se conferir na descrição do Adamastor, do Tritão, da Tromba marinha, da Tempestade, etc.

No tipo narrativo o estilo sempre é conciso, breve, assinalando apenas os fatos principais e interessantes, como na história de Inês de Castro, dos Doze da Inglaterra, no episódio de Veloso, etc.

Na dissertação há variadas apóstrofes com ideias admiráveis, interpelações veementes que encantam o leitor, tal como na invocação inicial, na fala do "velho de aspecto venerando" ao partir da frota, na argumentação sobre os males do dinheiro e no epílogo "No mais, Musa, no mais..."

Paulo Barbosa

FEALDADE E LITERATURA

 FEALDADE ou FEIURA é o que se opõe à beleza resultando da carência de algum requisito necessário ao belo. O corcunda, o desproporcional, o idiota, o viciado, é feio porque normalmente o homem deve ser direito, bem proporcionado, inteligente, virtuoso. No animal, por exemplo, a ausência do raciocínio não lhe prejudica a beleza, pois esta faculdade não pertence à sua natureza. 

DIVISÃO DA FEALDADE

A fealdade é dividida em duas espécies:

1. fealdade hedionda - é a desformidade que provoca repulsa, nojo, repugnância, tanto do ponto de vista físico quanto do ponto de vista moral, tais como uma chacina, ataques terroristas, a ingratidão, a barbaridade.

2. fealdade ridícula - é desformidade que não possui o caráter de repugnância, mas desperta o riso por ser engraçada ou constrangedora, tais como certas manias, a vaidade inofensiva, a ingenuidade, etc.

PAPEL DA FEIURA NA LITERATURA

A feiura na arte literária é incapaz de causar diretamente emoção estética, ou seja, o feio é impotente para satisfazer as faculdades cognitivas superiores e inferiores. Pode, entretanto, o feio servir de realce para a qualidade oposta, desempenhando, então, junto do belo, o papel das sombras junto da luz. A crueldade do algoz faz sobressair o heroísmo da vítima, as desgraças que oprimem os viciados aumentam a gratidão dos que conservam a integridade pela prática da virtude.

Paulo Barbosa