quarta-feira, 25 de agosto de 2021

O VERBO "SUM" NO SENTIDO DE "SER PRÓPRIO DE, SER DEVER DE".

 O VERBO "SUM" (SER) dentre vários significados - ser, estar, exisitir / haver, morar, estar situado / ficar, ser para / servir de / trazer / causar - pode também ter o sentido de ser próprio de, ser dever de, ser de. Quando assim for usado, deve ser construído com o genitivo:

Sapientis est mutare consilium = é próprio do sábio mudar de opinião.

Non patris est... = não é próprio de um pai...

Est boni patris... = é dever de um bom pai...

Est igitur adolescentis maiores natu vereri = é, pois, dever do jovem respeitar os mais velhos.

Nihil est tam angusti animi quam amare divitias = nada é tão próprio de um espírito empobrecido como amar as riquezas.

Paulo Barbosa

terça-feira, 24 de agosto de 2021

UMA PARTICULARIDADE SINTÁTICA DA PASSIVA LATINA

 "A GARRAFA ESTÁ FECHADA" é uma oração que à primeira vista parece estar no presente do indicativo. Em latim, percebemos com muito mais clareza que se trata não do presente mas do perfeito:

Lagena clausa est = a garrafa está fechada, a saber, a garrafa foi e continua fechada até o momento.

Deve-se, portanto, ter cuidado, saber bem analisar, para não se equivocar numa versão para o latim. Caso se quisesse o presente do indicativo deveria ser "Lagena clauditur".

Mas, se a garrafa tivesse sido fechada por algum tempo e depois tenha sido aberta de novo, assim se diria:

Lagena clausa fuit = a garrafa foi fechada, mas não está mais. 

Paulo Barbosa

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

ELIPSE, FIGURA IRREGULAR DE REGÊNCIA

 ELIPSE é um caso de regência irregular em que um dos termos da oração não aparece expressos, porém é facilmente percebido.  Há os seguintes tipos:

1. Elipse subjetiva - quando o sujeito não vem expresso:

Deseja viajar comigo? - Você deseja viajar comigo?

Não posso viajar. - Eu não posso viajar.

2. Elipse verbal - quando a omissão é do verbo:

Por malandros, não foram eleitos. - Por serem malandros, não foram eleitos.

No mar tanta tormenta e tanto dano. - No mar há tanta tormenta e há tanto dano.

3. Elipse conectiva - quando um elemento de ligação está omisso:

Exigiu se estudasse o mais depressa a questão. - Exigiu que se estudasse o mais depressa a questão.

Peço-lhe me deixe ir. - Peço-lhe que me deixe ir.

Elipse conectiva elegante. A elipse da conjunção que é bastante frequente e elegante depois dos verbos pedir, mandar, pensar, requerer, parecer e similares, pois atenua a oração da demasiada repetição do conectivo que.

Elipse verbal proverbial. Em muitos provérbios, ditados populares, também é comum a elipse do verbo, onde aparecem somente as ideias principais:

Casa de ferreiro, espeto de pau.

Olho por olho, dente por dente.

Tal senhor, tal criado.

De tal árvore, tal fruto.

Há elipse também das formas verbais possa/poder e deva:

Não sei por para onde ( ) ir. - Não sei para onde possa/deva ir.

Já sei como ganhar a vida. - Já sei como poder ganhar a vida.

Elipse nominal. Há também elipse dos nomes coisa e tempo:

Essa é boa! - Essa coisa é boa.

Fiquei na mesma. - Fiquei na mesma coisa.

Uma assim eu não esperava. - Uma coisa assim eu não esperava.

Há muito que não vou lá. - Há muito tempo que não vou lá.

Vi Rafael há pouco. - Vi Rafael há pouco tempo.

Em breve nos veremos. - Em breve tempo nos veremos.

Paulo Barbosa

sábado, 21 de agosto de 2021

SUUS E EJUS, PRONOMES POSSESSIVOS

 SUUS E EJUS são pronomes possessivos latinos que traduzem o possessivo português seu, dele, deles. Há, entretanto, as seguintes diferenças:

Suus, sua, suum é usado quando o sujeito da oração é o possuidor da pessoa ou coisa, ou seja, faz referência ao sujeito, é pronome reflexivo:

Maria aviam suam amat = Maria ama sua avó - a avó de Maria, sujeito oracional.

Note que o pronome possessivo sua refere-se à 3.ª pessoa da oração - Maria, ela - e equivale, portanto, a dela: Maria ama a avó dela. 

Marius hortum suum amat = Mário gosta do seu jardim.

Ejus ou Eorum / Earum é usado quando o sujeito da oração não é o possuidor, ou seja, não faz referência ao sujeito, não é, pois, pronome reflexivo:

Avitam ejus amo =  eu amo sua avó - amo a avó dela, a avó de Maria.

Earum matrem vidi = vi sua mãe - vi a mãe delas.

Paulo Barbosa

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

GERÚNDIO MODIFICADOR DE VERBO

 O GERÚNDIO MODIFICADOR DE VERBO, ou seja, usado como adjunto adverbial, expressa sempre uma dada circunstância, a saber:

1. de modo: João fortaleceu-se crendo.

2. de meio: Pedro defendia-se dizendo que tinha saído naquele dia.

3. de condição: Luísa vencerá, desejando.

4. de concessão: Júlia não quis, sendo inteligente, medir forças com Pedro.

5. de causa: Sendo ainda adolescente, não quis João viajar só.

6. de modo: Carlos dorme roncando.

7. de tempo: Falando tais palavras, todos aplaudiram.

Paulo Barbosa

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

MORE UXORIO

 MORE UXORIO é uma expressão latina usada comumente para designar a convivência de duas pessoas que, não sendo casadas, vivem nas mesmas condições de fato que decorreriam do casamento. Pode-se, portanto, afirmar que tal casal vive "more uxorio".

A locução se traduz por: segundo o costume matrimonial.

Paulo Barbosa

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

ROTACISMO, UMA LEI FONÉTICA DO LATIM ARCAICO

 ROTACISMO em latim arcaico foi uma lei fonética que consistia na mudança do /s/ quando entre vogais para o /r/ dental.

Devido a tal lei, uma série de nomes da 3ª declinação, neutros, apresentam radical diferente no nominativo e acusativo, sem vogal temática e sem desinência, enquanto nos demais casos com desinência começando por vogal, onde o /s/ do radical passou a /r/:

Corpus (latim arcaico: corpos) - corporis (corpo).

Flos - floris (flor).

Mos - moris (costume).

Note que nos casos declives o /s/ ficaria entre duas vogais: 

Corposis,

Flosis,

Mosis,

logo, pela lei do rotacismo, deve ser transformado em /r/.

História do Rotacismo. Tal lei fonética surgiu em meados do IV século a.C., sendo Marco Túlio Cícero quem primeiramente publica em uma carta ter sido Lúcio Papírio Crasso, ditador em 339 a.C., o primeiro a mudar em seu nome o /s/ pelo /r/: de Papisius para Papirius.

No Digesto, compilação de fragmentos de jurisconsultos clássicos mandado codificar pelo imperador Justiniano, se encontra também informação sobre o rotacismo, entretanto, atribuindo-o a Ápio Cláudio Cego, censor em 312 a.C., onde se lê:

"Idem Appius Claudius R litteram invenit: ut pro Valesii Valerii essent, et pro Fusiis Furiis" (1,2,2,36).

"O mesmo Ápio Cláudio inventou a letra R para que fossem escritos os nomes Valérios em vez de Valésios, e Fúrios em vez de Fúsios".

Paulo Barbosa

terça-feira, 17 de agosto de 2021

DIVERSÃO E ENTRETENIMENTO

 DIVERSÃO E ENTRETENIMENTO são aplicados geralmente para se referir ao meio ou ao modo de conferir ao ser humano uma ocupação agradável, que o recreia e satisfaça ao seu gosto. Porém, nesta ideia comum certa diferença há que as distingue entre si.

Diversão é o mesmo que separação, pois é a distração do ânimo daquelas ocupações em que o homem regularmente emprega-se, sendo substituídas por outras mais leves e agradáveis, que o desconecta da fadiga ou do desgosto. O homem diverte-se lendo quando a leitura o agrada, distrai, recreia seu ânimo, separa-se dos afazeres da vida. 

Entretenimento, por sua vez, é o mesmo que ocupação interina, passageira, transitória, até chegar o momento de fazer outra coisa. O termo vem do latim inter tenere, ter entre mais o sufixo de meio ou resultado -mento. O homem se entretém lendo quando se ocupa da leitura para passar o tempo, interrompendo-a quando chegar a hora de fazer outra coisa, exatamente por lhe servir de entretenimento, de ter algo para fazer até o momento de executar seus afazeres. 

O que se entretém o tempo não lhe parece duradouro, enquanto ao que se diverte, parece-lhe curto.

Paulo Barbosa