sexta-feira, 20 de maio de 2011

ORAÇÃO INFINITIVA OU ACUSATIVO SUJEITO


A ORAÇÃO INFINITIVA também chamada ACUSATIVO SUJEITO ou ACUSATIVO MAIS INFINITIVO é aquela oração subordinada que tem o seu sujeito no acusativo e o verbo no infinitivo. 

Então, em latim, quando se quiser traduzir a seguinte oração: Creio que Paulo estuda, não se traduz o que; depois, o sujeito da oração subordinada (que Paulo estuda) vai para o acusativo e o verbo vai para o infinitivo. É por isso que se chama oração infinitiva:

CREDO PAULUM STUDERE.
Or. Principal     Or. Subordinada Objetiva Direta

Este tipo de oração ou sintaxe do infinitivo se dá quando o verbo da oração principal pertencer ao grupo dos verba declarandi, dos verba sentiendi, dos verbos impessoais.

Verba declarandi são os verbos ou expressões indicativos de declaração como dizer, provar, demonstrar, responder, etc. Em latim:

affirmo = afirmar
conclamo = gritar
declaro = declarar
dico = dizer
doceo = ensinar
edico = proclamar
narro = narrar
nego = negar
nuntio = anunciar
promitto = prometer
respondeo = responder
scribo = escrever

Verba sentiendi são os verbos que indicam entendimento, conhecimento, como pensar, saber, conhecer, ouvir, observar, crer, etc. São também denominados verbos sensitivos. Em latim:

accipio = aprovar
audio = ouvir
cogito = pensar
cognosco = conhecer
credo = crer
duco = julgar
ignoro = ignorar
intelligo = entender
nescio = ignorar
puto = julgar
scio = saber
sentio = entender
spero = pretender
video = julgar, entender

Verbos impessoais e expressões tais como apparet (é claro) constat (é certo), oportet (é preciso), placet (agrada) par est (é justo), pudor est (ter vergonha), turpe est (é vergonhoso), verum est (é verdade), necesse est (é necessário), etc.  Com estes e semelhantes verbos e expressões a oração infinitiva é subjetiva, ou seja, funciona como sujeito.

Vamos aos exemplos:

Rex affirmat esse milites impavidos - affirmat, verbum declarandi. Logo, oração subordinada infinitiva.
[O rei afirma que os soldados são valentes].

Vidimus lupum currere - vidimus, verbum sentiendi. Logo, oração subordinada infinitiva.
[Vimos o lobo correr].

Credo Deum esse - Credo, verbum sentiendi. Logo...
[Creio que Deus existe].

Decet verecundum esse adulescentem - Decet, verbo impessoal. Logo, oração subordinada infinitiva. Neste caso aqui a subordinada é subjetiva: O que decet? A resposta ao verbo é o sujeito.
[Convém que um adolescente seja reservado].

Necesse est amare Deum - Necesse est, expressão que pede oração subordinada infinitiva. Da mesma maneira, a subordinada é subjetiva: O que necesse est?
[É necessário amar a Deus].

Ainda com as expressões dicitur (diz-se); creditur (julga-se); nuntiatur (anuncia-se) e traditur (conta-se) emprega-se a oração infinitiva. A subordinada, como acima, é subjetiva.

Dicitur cervos diutissime vivere - [Diz-se que os cervos vivem muito tempo]. 

Traditum est Homerum fuisse caecum - [Conta-se que Homero era cego].

O que vimos nestas orações subordinadas é que a partícula QUE, existente na língua portuguesa, não se traduz em latim, pois a subordinada se conecta à oração principal diretamente, com o sujeito no acusativo e o verbo no infinitivo. Logo, com tais espécies de verbos - declarandi, sentiendi, impessoais -  não se usa o conectivo que, pois seria mau latim. Acontece, todavia, que na latinidade posterior à idade áurea, muitos escritores começaram a usar o QUE, em latim QUOD, neste tipo de oração, num atentado frontal à canônica da língua clássica. Podemos exemplificar com próprio Santo Tomás de Aquino, que segue na fonética e na morfologia o paradigma clássico, mas na sintaxe desconsidera algumas vezes os padrões da oração infinitiva e escreve, por exemplo:

NECESSE EST QUOD ACTIVA POTENTIA DEI SIT INFINITA, usando o conectivo quod após necesse est. Deveria ser:

NECESSE EST ACTIVAM POTENTIAM DEI ESSE INFINITAM
[É necessário que a potência ativa de Deus seja infinita].

Noutro passo, Santo Tomás escreve:

OSTENSUM EST AUTEM SUPRA QUOD DEUS NON POTEST..., e que deveria ser:

OSTENSUM EST AUTEM SUPRA DEUM NON POTERE...
[Foi demonstrado, porém, acima, que Deus não pode...].

Nas muitas fórmulas feitas encontradas nas obras tomasianas, como as seguintes:

"AD PRIMUM, SIC PROCEDITUR. VIDETUR QUOD", onde o conectivo liga-se ao verbum sentiendi video, julgar, entender, parecer.
[Em relação ao primeiro, assim se procede. Parece que].

"RESPONDEO DICENDUM QUOD", da mesma maneira o quod ligado verbum declarandi dico, dizer.
[Respondo dizendo que].

Foi por este desvio da norma que Francisco Sanches, mestre renascentista de latim em Salamanca, nos fins do século XVI, autor de Minerva seu de causis linguae latinae, declarou sobre a partícula latina quod:

"A partícula quod foi a primeira que ousou, depois do século de ouro de Cícero, deturpar a língua latina. Foi ela que dilacerou do pior modo possível [pessime dilaceravit] a dialética de Platão e Aristóteles e uma e outra filosofia; esta esquartejou o ensino de ambos os direitos (civil e eclesiástico) com as traduções e os comentários dos bárbaros. Foi ela também que contra os comentários e as versões da Sagrada Teologia de tal modo se precipitou que lançou para o mais fundo abismo da barbárie homens aliás doutíssimos. Pelo que tanto mais me irrito contra Erasmo de Rotterdam que, tendo tentado traduzir para latim o Novo Testamento, não pode ou não soube evitar esta peste, que deu cabo da língua latina".

Paulo Barbosa.

Um comentário: