quinta-feira, 5 de novembro de 2015

LATIM, DISCIPLINA SUPRIMIDA DO ENSINO BRASILEIRO

O LATIM até meados de 1960 era disciplina ensinada nas escolas brasileiras, porém, o governo militar, em 1970, mediante Reforma do Ensino, pela lei número 5692, suprimiu a língua latina como matéria obrigatória, juntamente com o francês. Antes, porém, já na Europa, o latim estava relegado aos Seminários e Institutos Religiosos, conforme declarou o Padre Arlindo Ribeiro da Cunha (1906-1976), culto latinista português
"... hoje em dia há tanta aversão por essa língua - o latim -, que ela - coitadinha! - escurraçada dos Liceus e, pouco menos, das Universidades, se teve de refugiar nos Seminários, como em inexpugnável reduto. Se mal se compreende um homem culto sem a posse desse precioso instrumento de trabalho, o arqueólogo e o historiador é que, sem ele, não podem produzir obra de jeito. Sem o conhecimento do latim, será possível escrever em estilo florido e elegante, mas não se pode fazer um estudo profundo de investigação.
Vamos ter, dentro de alguns anos, se os não temos já hoje, Professores Catedráticos, que não sabem do latim nem sequer os paradigmas de flexão nominal. Aparece um desses senhores, membro ilustre da aristocracia do saber, a estudar um monumento antigo que precisa de restauro. Depara-se-lhe uma inscrição, embutida na parede, ou soterrada no solo, escrita na língua de Cícero. Que há de fazer, em tal conjuntura o pobre do Professor? Esquecer-se de que o adorna o capelo e a borla, e ir bater à porta do Abade ou Prior, para que lhe interprete ou, pelo menos, leia o pedregulho".
Atualizemos o padre, confessando que em nossos dias, nem sequer os Abades e Priores, Padres e Bispos, conseguem mais decifrar o pedregulho, salvo raras exceções aqui e acolá, e no Brasil, sobretudo nas terras dos Goitacaz.

CAUSAS DO ABANDONO DO LATIM

As principais causas que levaram ao nefasto banimento do latim e ao seu descrédito junto à mentalidade do homem moderno, assim também como do grego, da maioria das escolas em todo mundo, as apontou o estudioso francês E. de Saint-Denis, em julho de 1955, no periódico Les Études Classiques, em seu artigo Une orientation des études latines, que em linhas gerais podemos resumir no que se segue, e que ainda são válidas para os nossos tempos:

1No mundo moderno, onde o que impera são as máquinas, a robótica, e onde o progresso da técnica a tudo invadiu e comanda, existe uma necessidade superior de formar homens de ação, pragmáticos, orientados para o fazer e não para o especular;

2A hesitação dos pais em enviar os filhos para o estudo das humanidades, com a pretensão de os elevar na hierarquia das classes sociais, ou para os manter nas fileiras da burguesia ilustrada, e que agora começam a desconfiar de um latim que já não vale mais a pena estudar, por abrir menos carreiras ou possibilidades de ganho que as ciências;

3O êxito parcial de uma campanha demagógica que acusa o latinista de cultivar uma ciência reacionária, e a literatura latina de fomentar nos que a estudam um espírito fascista;

4A certeza que resultados sólidos e indiscutíveis conferem aos inventores de leis matemáticas ou físicas, comparada à modéstia, à timidez, à pouca segurança dos humanistas, que trabalham com textos duvidosos ou mutilados, com documentação sempre incompleta, numa história antiga muitas vezes romanesca, para conseguir resultados precários e constantemente sujeitos a discussão;

5A dificuldade do latim para a juventude dos nossos tempos, solicitados pelas imagens que desfilam vertiginosamente nas telas televisivas, formados e deformados, portanto, por uma educação visual, imagética, que os tornam incapazes de seguir raciocínios muito precisos, como, por exemplo, as argumentações de um Lucrécio no seu poema De Rerum Natura, ou de Cícero, e sobretudo uma dialética sutil como a de Sêneca;

6Enfim, a capitulação de muitos mestres que descuidam o ensino da literatura latina, que não vêem nos textos antigos senão matéria para exercícios gramaticais, senão campo de pequenas manobras para filólogos enrugados, que sacrificam a explicação literária ao comentário literal ou estilístico, que esquecem o humano e o seu papel de humanistas, de tal maneira que os alunos julgam que as obras, que alimentaram a humanidade durante dois mil anos, foram inventadas por pedagogos com a finalidade de comprovar a aplicação das regras sintáticas e exercitar a paciência de uma infância torturada.

Paulo Barbosa

Nenhum comentário:

Postar um comentário